Diário dos Açores

O feminismo não é para homens

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16 dias de ativismo pelo fim da Violência Contra as Mulheres

Quando os nossos olhos passam por uma premissa como esta, a primeira ideia que nos aparece na memória é que o feminismo é uma coisa de mulheres e que são elas que têm de se resolver; na cabeça de muitos homens, um tema hermético. No entanto, quando reflectimos acerca deste tema vêm-me à memória para mim aquelas que são duas ideias fundamentais (como homem em nome pessoal e enquanto assistente social): quando Mário Cesariny escreve “entre nós e as palavras, os emparedados / e entre nós e as palavras, o nosso dever é falar”. Em segundo lugar, a TED Talk do sociólogo Michael Kimmel.
1. Tive a sorte de viver e de crescer num contexto familiar maioritariamente composto por mulheres. Cresci e aprendi que a luta pelo feminismo nunca foi uma questão de poder para colocar os homens num segundo plano. A luta das “mulheres da minha vida” (constante e até aos dias de hoje) sempre foi pelo “reconhecimento da sua absoluta liberdade” com todos os direitos assegurados: individuais, civis, políticos e profissionais. As “mulheres da minha vida” e com quem cresci ensinaram-se a ser homem. A respeitar cada singularidade aprendi que este sistema patriarcal apesar de não estar finalizado é um sistema “falido”. Ensinaram-me que “devemos promover novos modelos de masculinidade”. Um modelo que nos condiciona ao contrário é um modelo que se acaba por tornar dominante. 
2. Num mês em que se comemora o Dia Internacional pelo Fim da Violência contra as Mulheres e o Dia Internacional do Direitos Humanos é ignominioso que os instrumentos existam e não os façamos cumprir. Torna-se um tema já trivial. Da panóplia existente ressalva-se desde logo a Declaração Universal dos Direitos Humanos até à Convenção sobre os Direitos da Criança. São tantos os instrumentos orientadores e tão pouco são cumpridos na íntegra. É preciso ir mais além. É preciso sentir vontade política e sensibilização para os fazer cumprir;
3. Analisando os indicadores constantes no sítio da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de género verificamos números avassaladores podendo registar desde logo no indicador da “violência de género” que por exemplo o n.º de ocorrências registadas nos primeiros trimestres do presente ano já rondam as 23.250 contra as 26.511 registadas em 2021. Realçando desde logo o facto de 2021 tendo sido um ano atípico mascarado com as problemáticas advindas da COVID-19;
4. Sabemos que o femicídio se perpetua “através das práticas violentas e disseminadas sobre a mulher na impunidade, na cumplicidade do poder público e na ausência de políticas” que o permitam preveni-lo e combate-lo. Não nos basta elaborar um plano anualmente a sensibilizar para os problemas que de certa forma afectam maioritariamente as mulheres. Tendo nós o conhecimento que estas práticas são padrões culturais tão assimilados que tendem por vezes a normalizar-se é necessário a elaboração de um plano contra a violência de género com “espinha dorsal” – não nos basta realizar umas acções de sensibilização e posteriormente começar novamente este ciclo. É necessário ir mais além. É necessário um plano com guidelines previamente definidas, objectivos “smart” com indicadores de medida e de eficácia para que posteriormente se possa medir o impacto dessas mesmas acções e quais são as não conformidades e as oportunidades de melhoria identificadas. 
É preciso sentar à mesma mesa (e aqui enquanto Assistente Social) os profissionais aquando a definição de políticas públicas e orientadores. Somos poucos para tantos casos sendo que a nossa intervenção por vezes se esfuma em tarefas praticamente de gabinete;
5. É preciso sensibilizar e desconstruir de que a luta feminista é uma luta para retirar os homens do poder. É uma ideia completamente falsa. O feminismo não é um movimento contra os homens, mas sim um movimento a favor da igualdade. Compreender e desmistificar processos de naturalização da dominação que ocorrer dentro da própria família, Igreja, o Estado e a própria escola. Se recuarmos por exemplo às relações de divindade verificamos por exemplo, que o pecado encontra-se atribuído ao elemento feminino, como por exemplo na parábola de Adão e Eva. É necessário desmistificar uma série de “perpetuação da normatividade” passando também ao nível das identidades de género. 
Todos nós desde crianças somos ensinados de que por exemplo: os homens não usam roupa cor de rosa porque é a cor das meninas; os homens não brincam com bonecas; os homens não choram. Chorar não é coisa de macho.
Modelos estereotipados de um patriarcado com dominações que passam por diferentes práticas e rituais que se perpetuam ao longo do tempo por uma cultura colectiva.
Num marco como o fim da violência contra as mulheres e pelos direitos humanos, este texto é para as mulheres da minha vida que me ensinaram a “desnaturalizar” no processo “fazer-se homem”. Mas é também para as mulheres que sofrem em silêncio, que são raptadas, mutiladas, exploradas, assassinadas e violadas. O nosso dever é falar.

Miguel Capote

Campanha 16 Dias pelo Fim da Violência contra as Mulheres 2022

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