Diário dos Açores

Educação e Motivação Intrínseca: Uma Homenagem ao Professor Doutor Ivo Nunes (II)

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No primeiro artigo, citámos o texto “A Motivação Intrínseca: Seu Significado e Implicações para o Exercício da Atividade Docente”, da Autoria – por isso tem auctoritas - do Professor Doutor Ivo de Sousa Nunes, publicado na Separata da Revista Portuguesa de Pedagogia, Ano XVIII – 1984, pp: 145-161. Numa Universidade – seja onde for - é normal, e expectável, que o Professor ensine e produza e que dê a ler obras ou textos, originais, seus, numa diversidade de outros autores propostos, - em intertextualidade- o contrário é que é de estranhar, isto é, quando o professor não tem obra própria, como denunciam Professores da Categoria de Manuel Ferreira Patrício. Está escrito e publicado. O Professor inerte é um peso morto, não avança na ciência, na cultura, nem no ensino, não faz Educação, mas avançar aqui não é modismo de aulas sem pensamento, sem reflexão e sem problematização, só assim há conteúdos e conhecimentos dinâmicos. Avançar não é a novidade pela novidade, nem a inovação pela inovação, como denunciam os grandes, das várias áreas do conhecimento. A construção do verdadeiro conhecimento implica uma relação entre passado, presente e futuro. As Homenagens – por exemplo, Colóquios, ou seja, qual for a homenagem - têm, também, a grande Finalidade de revisitar e tornar atuante, no presente e no futuro, as obras, os textos, os legados das grandes figuras, neste caso de Educadores/as e Professores/as, no sentido escolar e não escolar, mas pode ser, igualmente, o Legado de quem não escreveu, mas muito foi referência, em testemunho e exemplo. No caso presente trata-se de invocar, em Homenagem, uma Grande Figura da Educação, - de Saudosa Memória -, o Professor Doutor Ivo de Sousa Nunes. É um Dever de Gratidão em relação à Pessoa e ao Professor que foi Ivo de Sousa Nunes, pelo muito que ajudou a Formar e a Ser muitos Professores/as, na Universidade dos Açores e por esses Açores fora, como também dissemos no primeiro texto evocativo. 
Os bons professores são sempre sinceros e genuínos. É da natureza da verdade a transparência e a sinceridade. E, como já deixámos claro, o Professor Ivo de Sousa Nunes comunicava com verdade, de modo espontâneo e com grande vivacidade. Transmitia e interagia com vida, com plena e profunda Motivação Intrínseca. Via- se que gostava de ser Professor. 
Nesta época de tanta maldade, há que dar relevo e peso ao Bem que esmaga literalmente o mal. Ou o futuro é liderado pelos melhores ou a Humanidade enfrentará monstruosidades piores, e será preciso desmantelar muitas armadilhas e destroços. É tempo de as Humanidades e a Educação se colocarem, decididamente, do lado do Bem. É preciso ter em conta as realidades da História (Séc. XX-XXI), Figuras, livros, etc. Leia-se, por exemplo, O Silêncio dos Livros, de Georges Steiner. É a Pessoa Humana que está em causa. Só Professores Sábios e Humanistas como o Professor Ivo de Sousa Nunes podem ser referências para e na Formação das Pessoas e das Comunidades. Era impensável um Professor com a idoneidade humana do Professor Ivo Nunes instigar na sombra colegas e alunos contra colegas e alunos. O contrário é que se via, promover o Bem pela Palavra e pelo Exemplo. A sala de Aula e as Escolas, sejam quais forem as instituições, têm de ser lugares de Educação e Formação com Valores. 
Um dos livros estudados na Disciplina de Metodologia Pedagógica era o livro Tornar-se Pessoa, de Carl R. Rogers. Estudei pela 7ª edição do referido livro, publicado pela Moraes Editores (1985). É um livro que visa e desoculta a pessoa, vai às vivências e tem um traço fenomenológico e existencial, no sentido de existência sem nenhum ismo redutor. Mas antes de prosseguirmos com alguns aspetos desse livro, e por uma questão metodológica, retomámos o artigo do Professor Ivo de Sousa Nunes: “A Motivação Intrínseca: Seu Significado e Implicações para o Exercício da Atividade Docente”, publicado na Separata da Revista Portuguesa de Pedagogia, Ano XVIII – 1984, pp: 145-161. No texto que nos foi disponibilizado em fotocópia está a minha rubrica, com a data de 12/04/89. O Professor Ivo Nunes defendia – e os seus escritos atestam-nos – a “Motivação Intrínseca”, como verdadeiramente o tipo de motivação mobilizadora e que permanece, para além das compensações externas, - a Motivação Intrínseca, por contraposição à Motivação Extrínseca. Depois de distinguir as duas motivações, como temos desenvolvido, no texto anterior (cf, Diário dos Açores, 24.11.2022, p. 9),prosseguimos neste texto, do Professor Ivo Nunes, e põe-se a questão em saber qual é a mais adequada e conveniente ao ensino, isto é, “o tipo de motivação mais adequado para o ensino”. Afirma Ivo de Sousa Nunes: “Qualquer tentativa de resposta a esta questão deverá ter em conta, simultaneamente, dois aspetos fundamentais do problema: o significado de cada tipo de motivação e as características da profissão em causa” (Ivo Nunes, 1984, p. 149). Trata-se de ver o que carateriza o Professor Motivado Intrinsecamente e o Professor Motivado Extrinsecamente. 
Afirma o Professor Ivo de Sousa Nunes:
“Aplicando o que anteriormente dissemos ao caso do ensino, resulta óbvia a diferença existente entre um professor motivado intrinsecamente (MI) e um professor motivado extrinsecamente (ME). Enquanto o primeiro optará pelo ensino, devido à natureza intrínseca da atividade, o segundo terá mais em conta aquilo que dela poderá auferir. Mais, se para o professor MI, o ensino constitui parte integrante da sua vida, sendo uma fonte de constante realização pessoal, o professor ME, ao contrário, um lugar relativamente marginal na sua existência, não passando de uma profissão de recurso que, a qualquer momento, poderá ser abandonada.” (Ivo de Sousa Nunes, 1984, p. 149). Eis aqui a grande diferença e uma reflexão que poderá ajudar a entender o estado da educação e o desencanto dos professores, que tem várias razões, uma delas reside no próprio professor que nunca devia ter chegado a ser professor. Os professores de vocação, professores de raiz, são os que deviam ensinar alunos motivados, cujas entradas deviam ser muito rigorosas, de modo a desenvolverem aptidões para a docência. Não é fácil, mas ou se enfrenta esse problema, ou lança-se para o sistema de ensino pessoas que queriam tudo menos ser professores. Só com Professores Universitários como o Professor Ivo de Sousa Nunes temos a garantia na formação e na motivação, intrínseca, do próprio, e intrínseca, dos seus alunos. Só professores com profundos conhecimentos e com uma pedagogia universitária, idónea e séria, sabem avaliar os seus pares, nunca incompetentes de áreas estranhas, sem retas intenções. Os grandes professores universitários têm uma outra grande função ou vantagem decorrente do seu Alto Ministério é que criam um Ambiente propício à promoção dos melhores. Só os Magnos Professores têm estatuto e categoria que os faz serem respeitados e, não só, pelo seu Múnus criam e instituem, eles mesmos, como Figuras, Escolas e Correntes de Pensamento. É aí que estão as nascentes. Aí se irriga a Educação. Já na formação inicial, e antes, se verifica se o aluno tem, ou não, aptidões para a docência. Claro que isto nos leva à teoria dos dons naturais e da aprendizagem. Depois de se ter subestimado a aptidão natural para se ser professor tem de se voltar aí. Também se pode encontrar pessoas que inicialmente não tendo uma direção para o ensino, ao encontrarem Professores como o Professor Ivo de Sousa Nunes encontram uma Referência Forte em quem se revêm para Aprender a Ser Professores. Sentem-se tocados, pode despertar no ser do aluno-futuro-professor uma vocação que estava adormecida. O Professor Ivo Nunes tinha essa capacidade e esse dom. 
Já na altura o Professor Ivo de Sousa Nunes defendia “uma maior descentralização e uma maior autonomia das escolas” (p. 153). Mas adianta: “No entanto, existe algo mais simples e mais fundamental, por onde se deve começar: uma atitude de maior confiança no professor MI, de modo a que este se possa sentir responsável e autónomo no exercício da sua atividade profissional.” (p. 153). O Professor Ivo de Sousa Nunes ao fazer esta afirmação mostra de modo explícito e implícito que os professores motivados intrinsecamente são por natureza autónomos e responsáveis. Por isso, a Supervisão pode ser perniciosa se não estiver vinculada à Orientação e aos Valores. É-se Orientador de Pessoas. A supervisão está Subordinada à Orientação que visa a Formação de pessoas conscientes, responsáveis e livres. 
Afirma o Professor Ivo Nunes: 
“É comum, por exemplo, apresentarem-se as técnicas mais atuais de motivação dos alunos e esquecem-se o desenvolvimento da motivação do professor para o ensino. Por isso, enquanto a preocupação pelo professor, como indivíduo, estiver ausente, as ações de formação poderão constituir uma perda de tempo, de energia e de dinheiro.” (p. 157). Muitas vezes, em muitos setores, esbanja-se dinheiro porque não se fala com as pessoas certas, em concreto, que são professores – ou de outras profissões - por vocação. Só os professores motivados intrinsecamente dão provas de autonomia e fiabilidade. 
Tem de se dar atenção à formação do individuo-sujeito, ainda mais, dar atenção à Pessoa concreta, à pessoa que está motivada – e se deixa motivar - pelo seu ser e pelos outros que ajudam a criar as condições para que a pessoa seja quem ela é, em si mesma, no esplendor da sua verdade. Isso é ser e crescer em Autonomia. A ocupar cargos, em si importantes, muitas vezes encontramos medíocres. Os cargos passam e deles ninguém se lembra, o que fica, quem fica, é a Pessoa e o Profissional. Para nos abrir perspetivas para uma Filosofia Humanista, o Professor Ivo de Sousa Nunes dava-nos a ler o livro Tornar-se Pessoa, de Carls Rogers. Afirma o autor, a determinada altura: “Por outras palavras, a minha capacidade de criar relações que facilitem o crescimento do outro como uma pessoa independente mede-se pelo desenvolvimento que eu próprio já atingi.” (Carl R. Rogers. P. 59). Este é o problema. Mesmo adultos temos muitas pessoas sem categoria moral a exercer cargos. Só quando se é grande em Ser e Maturidade é que se está em condições de ajudar a crescer, a Ser. Como estão as instituições educativas?  O que está a fazer a Educação? O Professor Doutor Ivo de Sousa Nunes foi um Grande Humanista e é, sempre, uma Referência Maior para a Educação, também nestes tempos conturbados, na busca de Saídas e Horizontes. 

Emanuel Oliveira Medeiros 
Professor Universitário*
*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia 
da Educação 

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