A pressa lusitana
Mário Freitas

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Conversas pandémicas XLVI

1. Quando reabrir as Escolas? O debate americano.
Um artigo do New York Times desta semana, de John Keefe, debruçou-se precisamente sobre esta questão.
Partindo do facto de que apenas 4% das crianças em idade escolar vivem em condados onde a transmissão de sarscov2 é baixa o suficiente para a aprendizagem, em tempo integral, ser presencial, sem restrições adicionais, de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo CDC, o articulista frisava que a administração do presidente Biden fez da reabertura de escolas uma peça central de sua estratégia para a pandemia. Mas, mesmo após quedas drásticas no número de novos casos de COVID19, poucos condados nos Estados Unidos atingem os limites do CDC para evitar grandes restrições, que são baseados no número de casos e nas taxas de positividade dos testes. Esses limites, colocaram a maioria dos condados em categorias, para as quais a agência recomendou que as escolas primárias reduzissem o número de alunos nas salas de aula, com uma mistura de aprendizagem presencial e no domicílio. Para escolas de ensino básico e médio, os limites e os dados sugerem aprendizagem totalmente remota, em grandes partes do país.
As directrizes incluem excepções para escolas que adiram a regras rígidas, ou ofereçam testes regulares. Como funcionam essas diretrizes…?
A aprendizagem presencial total é recomendada em áreas onde o CDC relate menos de 50 novos casos por 100.000 habitantes, numa semana, e uma taxa de positividade em 7 dias de menos de 8%. Apenas cerca de um sexto dos condados da América se qualificou no final da semana passada - principalmente em áreas menos povoadas nas planícies, no Oeste e no midoeste. Nas escolas, nessas áreas, ainda assim devem ser tomadas precauções, incluindo o uso de máscara, lavagem das mãos, limpar instalações e manter a distância de pelo menos dois metros de distância, “na medida do possível”.
A agência também diz que as escolas devem certificar-se de que alunos, professores, funcionários e os seus contactos próximos, que desenvolverem sintomas, sejam testados, seguido de isolamento para aqueles que apresentarem resultado positivo, e quarentena para os seus contactos próximos.
A aprendizagem híbrida, com alguns alunos na escola e outros online, em casa, é o recomendado quando uma comunidade tem de 50 a 100 novos casos semanais por 100.000 habitantes, ou uma taxa de positividade em 7 dias de 8 a 10%.
Nessas áreas, o objetivo é reduzir a frequência presencial para manter a separação entre os alunos, de acordo com as recomendações, que dizem que a separação de 1,8m é “obrigatória”. Na prática, algumas escolas reduziram o tamanho das turmas, permitindo que apenas alunos com necessidades especiais frequentassem presencialmente, enquanto os outros alunos aprendem virtualmente. 
A aprendizagem remota, em tempo integral, é recomendada para alunos do ensino básico e médio em áreas com pelo menos 100 novos casos por 100.000 habitantes, ou uma taxa de positividade em 7 dias de 10% ou mais.
Com estes níveis de transmissão comunitária, a agência continua a recomendar a aprendizagem híbrida para alunos do ensino básico, citando estudos que sugerem que crianças pequenas têm menor probabilidade de espalhar o coronavírus nas escolas. Mesmo para escolas de ensino básico e médio neste nível, há isenções. As escolas podem permanecer abertas se “puderem implementar estritamente” todas as estratégias de mitigação, incluindo máscaras e 1,80m de distância física. As escolas também podem mudar para a aprendizagem híbrida, oferecendo testes semanais a alunos e funcionários, para detectar casos assintomáticos.
Ou seja, nos EUA está a acontecer o debate, antes das decisões.

2.    A precipitação nacional… habitual
Andam por aí os peritos do costume, os mesmos que ao longo do último ano erraram todas, a suplicar pela reabertura das escolas. Gritam eles, de novo, que as crianças não aguentam estar em casa, que a escola isto e aquilo. 
Estes, os mesmos do costume, lançam assim ruido num tempo que seria de serenidade, para reflectir, criar indicadores tecnicamente correctos, um sistema de semáforos (como os Açores têm) para cada região NUTSIII de Portugal continental. 
Atentemos o gráfico dos contágios em Portugal. O pico dos contágios foi no dia anterior ao fecho das escolas. O confinamento “a fingir” conseguiu estabilizar os contágios em 12.000 casos diários. A 21 de Janeiro, com o fecho das escolas, houve efeito drástico, na redução de casos.
Analisemos agora como está o nosso fim de linha hospitalar. As UCIs estão na capacidade máxima pré-pandemia. Os casos ativos de COVID19 estão muito acima dos do Natal.

Perante isto, os do costume querem desconfinar apressadamente. Serão assim tão insensíveis ao luto de milhares de portugueses nos últimos 3 meses…? Ainda não entenderam a catástrofe que se abateu em Portugal continental…? Ainda não entenderam a diferença entre o que sucedeu na metrópole e nos Açores…?

3.    Testagem
O segredo está na testagem, muita e em permanência, na tomada de medidas imediatas, padronizadas a priori, no planeamento atempado. Atentemos nestes gráficos.

Testar maciçamente, Escolas, locais de trabalho. Manter a proporção de testes positivos abaixo do 1%. E agir rapidamente, perante casos positivos, sobretudo se forem variantes de elevado grau de contágio. Rapidamente.


*Médico consultor (graduado) em Saúde Pública e Delegado de Saúde
 

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