Álvaro Siza Vieira

Álvaro Siza Vieira

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Li, no Expresso de 5 de Março, que “São Pedro vai ter nova capela em Gaia, obra de Siza Vieira”. A leitura da notícia trouxe-me à mente várias recordações. 
Quando, a meados dos anos 60, fui viver para o Porto, gostava muito de ir à Casa de Chá da Boa Nova. O espaço era, e é, agradabilíssimo e, para mim, açoriano dos quatro costados, tinha um encanto especial: estava sentado à mesa com o mar logo ali à minha frente. Aquela vista era para mim imperdível porque, como diz o meu amigo Onésimo Teotónio Almeida, “Fora da vista do mar parece que me afogo”. É também por isso que, nas férias de Verão, em Ofir, gosto de ir com a minha mulher a um restaurante mesmo em cima do mar; abancamos numa mesa junto às janelas, sem pressas, porque não vamos apenas almoçar mas, principalmente, para ver o mar.
Quando ia à Casa de Chá da Boa Nova, nos anos 60, 70, não reparava muito na arquitetura, muito menos sabia que o projecto tinha a assinatura de Álvaro Sisa Vieira. Mais: nem lhe conhecia o nome, embora hoje possa parecer escandaloso. O tempo passou, o arquitecto é há muito figura pública, e hoje, tal como eu, qualquer português minimamente informado não é capaz de pensar na Casa de Chá sem a associar ao autor do projecto.
No dia 12 de Novembro de 2019, a RTP2 transmitiu um programa intitulado “Álvaro Siza Vieira - Arquiteto de Sonhos”, uma entrevista/conversa conduzida pela jornalista Fátima Campos Ferreira (https://www.rtp.pt/play/p6388/arquitecto-de-sonhos). Foi um diálogo extraordinário. Do alto dos seus oitenta e seis anos (nasceu em 1933), com uma simplicidade e humildade perturbadoras - o ritmo do discurso é lento, a mensagem de uma clareza ofuscante (como se pode ser tão profundo e simultaneamente, pelo menos aparentemente, tão linear) e bem articulada (não há saltos, não ficam pontas soltas, parece um texto lido que corre com a naturalidade da água que sai de uma torneira), falou das suas origens – dos pais, das viagens da família, do contexto em que foi educado. Revelou que se matriculou em arquitectura não por gosto mas como estratégia para, depois, transitar para escultura, que era a sua vontade, mas que o pai desaconselhara, chamando a atenção para o facto de, na época, não augurar grande futuro do ponto de vista económico. 
Contou que, nos primeiros anos de curso, com a ajuda de alguns professores, descobriu as suas limitações, reconhecendo: “Eu era um aluno medíocre, naturalmente ignorante» e, por sugestão de um deles, comprou revistas de arquitectura, cuja leitura o deslumbrou. 
Quando Fátima Campos Ferreira lhe perguntou se mantinha preocupações políticas e sociais ditas de esquerda, a resposta veio pronta, sem que se alterassem o tom de voz nem a cadência do discurso: ”há valores que são defendidos que são valores eternos, como é a luta contra a desigualdade, a luta pelos direitos independentemente do sexo, isso são coisas universais, lutas ou tentativas universais e intemporais”. 
Foi uma entrevista de vida, em que o arquiteto foi descrevendo o seu percurso, os encontros e desencontros da vida, as pessoas, a perda de esposa, que faleceu muito precocemente, e o ficar para sempre sozinho com os filhos, que criou com a ajuda das avós, porque Maria Teresa, a paixão da sua vida, foi mãe e esposa insubstituível; o seu desaparecimento não deixou espaço para outra pessoa. 
Falou sobre o modo como pensa e cria os seus projectos, assunto sempre interessantíssimo na boca de um criador. Explicou o caminho de como chegar ao novo, dando um exemplo: “Assim como na igreja, o problema que há, por vezes, é a da identificação daquele edifício como sendo uma igreja. O que normalmente se faz da forma mais simplista é pondo uma cruz. O meu propósito, lembro-me de Marco de Canaveses, foi desenhar uma igreja sem pôr a cruz, e que se olhasse e visse que era uma igreja, por outras razões”.  E, no meio de uma conversa bem séria e a reflexão profunda, o humor saltava dando mais luz à profundidade do pensamento. E tudo isto conversado com a calma e a serenidade de alguém que vê a vida com distância, mas uma distância que não retira o calor de a viver. A conversa apresentou Siza Vieira num retrato de corpo inteiro, não, apenas, um grande arquitecto, mas alguém que atingiu o estádio da sabedoria.
Só me encontrei pessoalmente com Siza Vieira uma vez, na década de 90. Estava a ler no aeroporto de Lisboa, à espera de voo para o Porto. Às tantas, levantei a cabeça do livro e vi, junto ao pórtico detentor de metais da entrada da sala de espera, o arquitecto com os sapatos na mão. Disse para comigo: “então o funcionário da segurança não reconheceu o senhor e obrigou-o a descalçar-se?” Pareceu-me uma falta de respeito. Momentos depois, começou o embarque; entrei no avião e sentei-me no meu lugar. Pouco depois, para meu espanto, vejo Siza Vieira a avançar pelo corredor e vir sentar-se ao meu lado. Logo que ele se acomodou, pequei-lhe no braço e confessei-lhe: “é para mim uma honra estar sentado a seu lado”. Ele ficou surpreendido; começámos a conversar. Passado algum tempo, disse-me: “peço-lhe desculpa, mas tenho que aproveitar o tempo de voo para ir desenhando”. Trazia, enrolado na mão, um caderno de capas pretas tamanho A4. Abriu-o e começou a trabalhar. Na confusão do desembarque, perdi-o de vista. Como tinha bagagem de porão, dirigia-me para a passadeira rolante respectiva. Pouco depois de lá chegar, Siza Vieira apareceu, dirigindo-se a mim para se despedir; fiquei sensibilizado. Tinha sido um encontro casual e breve, mas, para minha surpresa e maior admiração por ele, o arquitecto gentilmente tinha vindo despedir-se.

Braga, Março de 2021

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