Os Filhos do Balamento
Nuno Costa Santos

Os Filhos do Balamento

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Crónicas do Corpo Santo

Viajei para São Miguel. Estava, há dois dias, a almoçar na esplanada da Casa da Rosa, restaurante localizado na Hintze Ribeiro, em Ponta Delgada, quando vi um rapaz a subir a rua ao mesmo tempo que dava um salto e gritava, exultante, para uma rapariga que estava junto ao bar Cantinho dos Anjos, a palavra balamento. A rapariga logo respondeu, tentando pisar a palavra do oponente. Há muito que não assistia à pratica deste jogo com o qual muitos se relacionaram – e, pelos vistos, ainda se relacionam - na infância e na primeira adolescência. Sabemos: o objectivo é apenas o de surpreender, em cada dia, o adversário como uma palavra. O jogo tem como prémio um singelo mas bem apreciado conjunto de amêndoas, repartidas pelos mais simpáticos da freguesia. Agradou-me saber de uma vida lúdica nas ruas açorianas, para além do concílio dos likes. O balamento é um emoji verbal e são amplas as saudades da vibração da palavra por si, sem depender (sempre) do amparo de sinais a significar emoções e interpelações. Nada contra, também uso, mas é bom assistir a um vocabulário, no caso lúdico, a recuperar pelo menos parte do seu reinado perdido.
Terá acontecido a vários. Na infância troquei balamento por palamento e também, é provável, por belamente. Como se diz com alguma pompa no Direito, a doutrina divide-se. A mais fundamentada diz que a versão correcta é (mesmo) balamento. Apresenta-se em dicionário internético de uso recorrente como sendo ”um jogo tradicional da época da Páscoa (açoriano e madeirense), que decorre num período limitado de dias durante a Quaresma e durante o qual cada participante procura ser o primeiro a dizer a palavra ‘balamento’ aquando do encontro diário com o(s) adversário(s) em determinado local previamente definido”. Admito: o aspecto do local definido era-me desconhecido. Porque vi gente a gritar balamento em sítios diversos, em recantos espalhados, onde calhava encontrar o outro jogador. Balamento também é apresentado como sendo o prémio do jogo, oferecido ao vencedor no fim do período dos dias em que este decorre e, em geral, coincidente com o fim da Quaresma: um conjunto de amêndoas, frutos secos ou doces. A questão do balamento será, alega-se, de origem brasileira e estará relacionada, de forma directa, com a bala, rebuçado não existente em Portugal continental. Quem souber de outras teses faça o favor de as mandar para o Corpo Santo. Não é a primeira vez que acontece.
Encontrei numa pesquisa a história de uma pessoa que conta que a avó chegou a rasgar um vestido ao esconder-se de quem lhe queria lançar a bala. Também se conta que havia pessoas a passar a uma espécie de quotidiana clandestinidade para não serem apanhadas pelos rivais e outras a preferir usar disfarces para não serem reconhecidas.
Sou um filho do balamento. Eu e, na certa, muitos outros das últimas gerações. Um dia haverá um encontro dos Filhos do Balamento. Os meus pais conheceram-se (no bairro da Vitória) quando o meu pai desafiou a minha mãe para jogar ao balamento. Modo luminoso, na sua simplicidade, de se iniciar uma relação que resultou depois em namoro e depois ainda em casamento, do qual brotaram filhos, netos, alguns dos quais também  jogaram ao balamento. E, sim, um lugar íntimo ao qual se chama casa, ainda uma dos mais belos termos do cardápio de palavras.
 
Uma fotografia
 
Encontrei uma fotografia que julgo ter sido postada pela primeira vez na internet por Roberto Pereira Rodrigues, entre outras coisas, generoso recuperador, em texto e em imagem, de histórias, memórias e vivências açorianas ancestrais e organizador dos Encontros Daniel de Sá. É uma fotografia antiga de emigração (anos 50, 60?)  Capta um dos mais dolentes minutos: o da partida. Na maior parte dos casos, triste para quem vai e angustiante para quem fica. Porque não havia data de regresso, porque a casa – lá está - para a qual seguia o emigrante ainda não ganhara uma morada, um número de porta. Porque quem viajava não sabia, com rigor, o ofício que iria exercer e onde o iria exercer.
A foto centra-se num pai e num filho a chorarem a partida de um alguém que ficamos por conhecer e que podemos imaginar, num exercício gráfico de empatia. Os homens também choram e este é um exemplo maior disso. O pai está de fato e gravata, o filho de camisa. À volta deles acontecem outras vidas. Um padre passa, olhando em frente, com incógnita determinação. Uma mulher e um homem mais velho (um pai, um avô?) convivem, de braços e mãos entrelaçados. A mulher oferece uma palavra à preocupação do homem, revelada no olhar estendido para uma distância qualquer. Avistam-se árvores, sólidas, enraízadas. Também viram partir muita gente.
O pai envolve o filho com o braço direito, segurando com a sua mão de trabalho o queixo da criança. Como é que sei tratar-se de pai e filho? Pela semelhança de feições, pela forma como choram, quase igual, numa evidente rima de dor. De onde chega a convicção de que estão a olhar para um alguém a partir para um destino de trabalho? Porque está reflectido no olhar de cada um deles o aceno de quem se vinculou, sem outra hipótese, à obrigação de se ir embora para (os Estados Unidos, o Canadá?) ganhar um sustento. Porque se sente, com um arrepio de pele, que ali existe o destino de um povo. A nossa História abrigada não num quadro de Domingos Rebelo mas numa fotografia a merecer circular por todas escolas como uma modalidade de partilhar uma memória importante, identitária.
Matuto no assunto. É provável que com esta crise pandémica cresça a emigração não por escolha mas por inevitabilidade. Poderá reforçar-se, em maior ou menor escala, o gesto de partir, nesta dificuldade maior instalada nas sociedades e nos orçamentos de cada um. Mesmo com esforços e amparos, poderão nascer outros retratos como este, captados já não por máquinas antigas mas por smartphones bem equipados para tirar fotografias. Muitos serão jovens de diferentes proveniências, ambições e formações. O problema era evidente antes da pandemia e é possível que se acentue, num arquipélago ainda a precisar de encontrar possibilidades de emprego para quem nunca saiu e para quem, com legitimidade, quer regressar para o lugar onde se fez e para junto da família que envelhece. Como todos nós. Tema a merecer uma cada mais amplificada preocupação. 

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