Um olhar sobre o governo
Mário Abrantes

Um olhar sobre o governo

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No campo das direitas coligadas, contrariando algumas expetativas, o PSD está aparentemente a entender-se bem com os seus, tanto no governo (CDS-PP e PPM) como no apoio parlamentar (Chega e IL). É a demonstração da facilidade com que PSD e CDS conseguem lidar com aqueles que afinal são seus sucedâneos e que de certa forma regressaram às barrigas das mães. É a direita a esforçar-se por consolidar um poder que inesperadamente lhe caiu nas mãos. Os resultados práticos para os açorianos, esses, não têm sido notáveis.
Quanto à orgânica, apesar das anteriores promessas em sentido inverso dos partidos que o compõem, a realidade que se nos apresenta é a de um governo afinal mais pesado que o antecessor e que procurou abrigar na sua estrutura alargada o máximo de fregueses possível, procedendo exatamente da mesma forma que censuravam antes ao seu antecessor. A falsa ideia de premiar o “mérito” e preservar a “competência”, independentemente das cores políticas, caiu por terra, como foram exemplo as incontáveis nomeações aos vários níveis da hierarquia administrativa e as recentes substituições na administração da EDA e da EDA renováveis, apesar destas empresas terem sido consideradas, pela coligação direitista, as empresas de capital público maioritário que mais bem geridas têm sido. Assim, neste âmbito, parece-me que pouco se terá afinal evoluído com este governo e que se alguma evolução houve foi para pior.
Quanto à ação governativa, temos um presidente do executivo muito presidencialista e pouco executivo, que vai tentando resguardar a própria imagem por via da sua fluência discursiva. Quanto ao resto, apercebemo-nos de um executivo que funciona ao sabor de diversos baronetes os quais, com exceção da desenvolta vice-presidência e pouco mais, foram pegando nas pastas com mal disfarçada dificuldade e imprecisa competência, tentando sistematicamente justificar esta última com a incompetência do governo anterior e explorando até à exaustão, com ou sem razão suficientemente apurada, um maná de pretensas malfeitorias do governo central para com os Açores.
Entretanto nas diversas frentes, malgrado toda a verborreia discriminatória contra os economicamente mais vulneráveis procurando cortar-lhes os já magros rendimentos, verifica-se que afinal o número de pessoas abrangidas pelo rendimento social de inserção (RSI) em janeiro aumentou em relação a dezembro. A situação do combate à pandemia, depois do descontrolo perigoso com a mudança de pastas, voltou a normalizar, mas não tem primado pela transparência de procedimentos. Malgrado todas as garantias de distribuição justa dos apoios económicos para enfrentar a pandemia, visando salvaguardar o emprego, o desemprego subiu de dezembro para janeiro. 
Certo que poderá ser eventualmente cedo para mais juízos, mas certo é também que, desde que o atual governo começou a governar, nenhum dos índices negativos tradicionais mais acentuados nos Açores do que no resto do país, como os da pobreza, do abandono escolar ou dos muito baixos salários laborais, sofreu qualquer alteração positiva por pequena que fosse. Assim, também neste âmbito, parece-me que pouco se terá afinal evoluído até ao momento com este governo e que se alguma evolução houve foi para pior.
Finalmente, retoma-se com inusitada relevância e muita demagogia, toda a infrutuosa discussão anterior sobre a reforma constitucional da Autonomia, assumindo-se agora à partida a necessidade de uma reforma no sistema eleitoral com intuitos redutores do seu caráter democrático e pluralista e de uma reforma no modelo económico com caráter eminentemente neoliberal, geradora de maiores desigualdades sociais e acentuando desequilíbrios no desenvolvimento entre as diversas ilhas. Também aqui a evolução verificada nada tem de positivo.
Resta-nos aguardar pela efetiva concretização de uma das únicas, senão mesmo a única medida anunciada por esta governação com caráter positivo e inovador: as passagens aéreas inter-ilhas ao preço máximo de 60€…
 

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