Da ilha do Pico para  a ilha de Santa Catarina
Rui Brum Ávila

Da ilha do Pico para a ilha de Santa Catarina

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Escritos em tempo de pandemia (XXII)

Desde que os primeiros colonos ou povoadores aqui chegaram a esta ilha do Pico, e vendo as condições que a ilha oferecia quer a nível dos seus terrenos em que muitas das áreas da ilha eram quase que incultiváveis pois as pedras e pedregulhos ocupavam extensas zonas, as intempéries que ocorriam e destruíam as cultivações e os sismos e erupções vulcânicas que destruíam campos, habitações e os seus haveres, que a ideia de daqui sair e ir para outras paragens surgiu. Sendo assim, ao longo dos mais de quinhentos anos da nossa presença na ilha foram várias as chamadas “levas” emigratórias que levou a que centenas de famílias fossem procurar outras terras e paragens para obterem melhores condições de vida. 
Foram três os grandes destinos da emigração Picarota ao longo dos tempos. Numa primeira fase surgiu o Brasil, mais tarde os Estados Unidos e por último o Canadá.
Neste escrito de hoje focarei aquele que foi o “berço” da emigração Picarota, o Brasil, onde Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram os locais preferidos, seguidos de Amazonas, Pará e Paraíba e mais tarde e em menor escala Bahia, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Em consequência desse facto, constituíram-se nessas regiões grandes colónias compostas de Picarotos e de Açorianos de quase todas as ilhas. 
A referência mais antiga que existe acerca da primeira grande saída de habitantes do Pico, para o Brasil, surge em 1677. Neste período as ilhas do Faial e do Pico foram sacudidas por fortes abalos sísmicos que provocaram grandes danos em muitas zonas destas duas ilhas, deixando as respectivas populações na miséria. Face a essa situação, dezenas de famílias decidiram abandonar a sua terra e embarcaram para o Brasil. Foram cerca de cem casais, processo este tratado pelo capitão- mor Jorge Goularte Pimentel, fazendo os seguir até á ilha Terceira para depois a partir de Angra embarcar para o Brasil para a região do Pará, nas embarcações pertencentes ao armador terceirense Francisco da Costa nas charruas Nossa Senhora da Penha de França e São Francisco em busca de uma vida melhor e de um local mais seguro.  
Contudo será no século XVIII que o grande surto emigratório acontecerá de populações oriundas destas ilhas Açorianas, especialmente de São Jorge, Faial, Graciosa e Pico. Destas quatro ilhas, vai ser o Pico a que mais vai contribuir para essa saída, quase que em massa, de famílias para as terras de Vera Cruz onde a fama de terras férteis e inexploradas e o ouro abundante percorriam todo o reino.
Foram vários os motivos que provocaram a saída dessas famílias daqui da ilha nesse século, além dos mencionados no início deste escrito, a principal razão foi as grandes erupções vulcânicas ocorridas em 1718 em Santa Luzia e São João e em 1720 na Silveira. Devido a essas erupções e à ocorrência de vários sismos em simultâneo deu-se a destruição de muitos campos de cultivo e o consequente decréscimo da produção agrícola provocando a fome, além da destruição de lares e seus pertences. A ilha nas últimas décadas tinha vindo a sofrer um grande aumento da população, devido à composição de cada vez mais famílias numerosas onde o número de filhos era cada vez maior, o que por si só era um dilema, pois era preciso alimentar essas bocas e agora, com terrenos e lares destruídos, a penúria e a pobreza alastrava. Ao mesmo tempo, a corte Portuguesa, cada vez mais queria e necessitava de povoadores para irem colonizar novas áreas do Brasil. 
Poucos anos antes destas erupções, já um emissário régio, António Couto Castelo Branco, por aqui tinha andado em visita e no seu regresso à corte, aconselhou o rei relativamente ao transporte de casais do Pico para as colónias, alegando o excesso de população. Sendo assim, e conjugando estes factores das erupções vulcânicas com a necessidade de ocupação do sul do Brasil assim como as súplicas de ajuda dos picarotos e das câmaras municipais das Lajes do Pico, de São Roque e também do Topo em São Jorge, solicitou-se autorização régia para a transferência dos sinistrados para o Brasil. Além disso, considerando a miséria das gentes, requereram a realização do transporte a expensas da fazenda real e a concessão de privilégios no destino, nomeadamente a distribuição de terras. 
Em todo este processo a câmara das Lajes do Pico, foi aquela que tomou a dianteira e mais diligências desenvolveu para o transporte dessas famílias para o Brasil, visto ter sido a zona da ilha onde a população fora mais atingida, nomeadamente São João e Silveira, quase que às portas da Vila, sede do município. Para isso, em reunião de câmara, nomeou-se um delegado à corte, de nome João Machado Goulart, que traçou um plano em conjunto com a vereação Lajense e seguiu para a corte para o apresentar a D. João V. Este, percebendo o infortúnio das gentes desta ilha, e ao mesmo tempo vendo uma oportunidade de mandar gentes para o Brasil, acedeu ao plano e ordenou então a elaboração de um minucioso alistamento de voluntários. 
Para a implementação desse plano e respectivo arrolamento de gentes ficou responsável o capitão-mor das Lajes do Pico, em parceria com o ouvidor eclesiástico das Lajes que autorizou a participação dos párocos para dirigirem o registo nas freguesias. Depois, o capitão-mor lajense procedeu à reunião das listas para que o emissário João Machado Goulart fosse novamente à corte fazer a sua entrega. Contudo, nem tudo correu bem. E, à falta de muitos dados pessoais, erros em nomes e famílias, foi decidido fazer um novo processo de arrolamento mais criterioso e rigoroso em que eram anotados: Nome, naturalidade, residência, idade, profissão, estatura, cor dos cabelos, cor da pele, formato do rosto, cor dos olhos, forma do nariz e da boca, forma da barba, estado civil e, se casado, o nome da esposa, filiação desta, sua naturalidade e idade, e, caso tivessem filhos, o nome e as respectivas idades. 
Foi um processo lento e moroso que durou vários anos e em que, das listas iniciais que continham 1432 pessoas, correspondendo a cerca de 265 casais e respectivos filhos, passou-se para algumas centenas, pois, com o passar dos anos, as pessoas iam aos pouco refazendo as suas vidas e desistindo de tal viagem. 
Ficando concluída apenas esta primeira grande fase deste surto migratório para o Brasil, nomeadamente para a ilha de Santa Catarina através da Provisão Régia de 31 de Agosto de 1746, tendo sido assinado a 7 de Agosto de 1747 o primeiro “Assento” com o armador Feliciano Velho Oldemberg, para transportar 1000 pessoas dos Açores para a Ilha de Santa Catarina, que continha vinte e quatro “condições”. Neste contrato foram definidas as condições de embarque, a divisão de homens em companhias para manter a disciplina a bordo, a distribuição dos alistados nas várias partes da embarcação - os homens na coberta e as mulheres nas câmaras do navio, sob o controle dos mantimentos e feitura da alimentação, etc. A primeira viagem deste contracto foi realizada com duas embarcações e teve a sua saída a 21 de Outubro de 1747 chegando ao Brasil a 6 de Janeiro de 1748 e transportou 461 pessoas contudo durante essa viagem morreram 12 pessoas.  
Nas décadas seguintes houve um decréscimo nessa emigração para a Brasil daqui da ilha do Pico, visto que com o desenvolvimento económico do chamado ciclo da vinha, as condições de vida de boa parte da população da ilha, sobretudo nos concelhos da Madalena e São Roque melhorou bastante, pelo menos até meados do século XIX altura em que as grandes doenças o Oidium e a Filoxera dizimaram e arrasaram os campos e os vinhedos. Aí a população voltou-se novamente para o outro lado do Atlântico, para o Brasil, mais uma vez procurando uma vida melhor para os seus. Neste período, por lá, vivia-se um auspicioso ciclo económico: o ciclo do café e do cacau, com grandes fazendas onde a mão-de-obra era fundamental e necessária, originando até a chamada “escravatura branca” onde alguma da nossa gente que para lá emigrou parece que foi sujeita.  
Já no século XX, nos anos 40 e 50, muitos Picarotos e Açorianos, novamente procuraram o Brasil para tentar melhorar a sua vida e para fugir ao regime de Salazar, à miséria e à ida para a guerra nas colónias.
Contudo foi aquela grande “leva” do século XVIII que daqui saiu, e que fez da ilha de Santa Catarina, uma espécie de terra Açoriana em terras Brasileiras que ainda hoje é recordada, pois foram eles os seus principais fundadores e actualmente, passados estes séculos, muitas das tradições levadas por esses povoadores ainda se conservam. Foram criadas associações culturais, gabinetes de estudo da cultura Açoriana, pequenos núcleos museológicos e são mantidas tradições religiosas como as festas do Divino Espírito Santo, tradições gastronómicas, falares e dizeres e são cada vez mais aqueles que por lá procuram as suas raízes e os seus antepassados familiares oriundos daqui nestas nossas ilhas. 
 

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