Um livro interessante

Um livro interessante

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Leitor atento dos jornais, há já algum tempo sigo os artigos publicados por Pedro Arruda na sua coluna semanal no Açoriano Oriental, com o título “Café Royal”. Consta que mantém um blog e também participa em debates na rádio e na televisão e intervém nas  redes sociais, mas esses são meios que eu não frequento. 
 No livro agora divulgado, sob o provocatório título “Tudo o que não se pode dizer”, inclui Pedro Arruda algumas das suas reflexões produzidas nesses debates ou partilhadas on line e  foi assim que pude tomar conhecimento do respectivo conteúdo. Pareceu-me tudo muito interessante e bem escrito, merecendo uma leitura atenta e o necessário debate com contraditório.  Trata-se de uma edição do Autor, com reduzido número de exemplares, o que decerto a tornará um objecto apetecido de coleccionadores e bibliófilos. Acresce a cuidada impressão em tinta verde, factor adicional de novidade.
Pedro Arruda identifica-se como um socialista desalinhado do aparelho partidário regional, ao qual se refere em termos muito críticos e desassombrados, efectivamente insólitos até, no nosso meio, onde predomina o cuidado de não fazer ondas... Achei sintomático que, em entrevista ao Correio dos Açores, tenha citado Proudhon e Antero de Quental, como referências do Socialismo, sendo certo que qualquer deles se situou num plano teórico e idealista, longe das correntes posteriores do socialismo dito científico de Marx e Engels e do pragmatismo dos seus seguidores, bastantes dos quais talvez nem sequer os tenham lido.
A grande preocupação de Pedro Arruda é a garantia da liberdade das pessoas, seriamente posta em causa pelas medidas adoptadas, um pouco por todo o Mundo e também entre nós, para combater a pandemia, que ele considera, se bem percebi, exageradas no conteúdo e demasiado prolongadas no tempo. Trata-se afinal, segundo afirma, de um vírus que infecta uma pequena proporção dos seres humanos, tendo-se revelado fatal num proporção ainda menor, dos quais a maioria contava mais de 85 anos... Por outro lado, os prejuízos decorrentes do confinamento autoritariamente imposto são enormes, em termos económicos, sociais e mesmo mentais, com particular incidência, neste último domínio, sobre as gerações mais jovens, que se vêm privadas das óbvias vantagens do ensino directo e de viver os seus tempos de juventude em convívio aberto com as da sua idade.
A apresentação do livro de Pedro Arruda decorreu, em modo propositadamente presencial, no Auditório da Biblioteca Pública. Estive lá e registei as presenças e as esperadas ausências. O naipe de apresentadores era de primeira ordem, mas até eu ter saído, por inadiáveis obrigações familiares, não tinha sido ainda conseguida a desejada participação do público.
É fácil antipatizar com o confinamento e não faltam já manifestações populares e até distúrbios de contestação ao mesmo; noutro plano, tem-se verificado um progressivo e de resto pacífico desrespeito pelas regras tidas por inadequadas, em face da melhoria da situação sanitária. Mas parece óbvio que sem as medidas limitativas o contágio teria sido facilitado e as infecções atingiriam níveis muito mais preocupantes. No nosso País, bastou aliviar as deslocações no passado Natal e logo se assistiu a uma segunda ou terceira vaga de difusão do malfadado vírus, que levou o Serviço Nacional de Saúde à beira do colapso.
A responsabilidade do Estado na garantia do direito à saúde, constitucionalmente estabelecida, marca a diferença em relação a anteriores pandemias, desde logo à da chamada “gripe espanhola”, ocorrida há coisa de um século. Morreram então milhões de pessoas em todo o Mundo, a maior parte em suas casas  -  para bastantes mais propriamente se deveria falar de tugúrios, tão baixa era a qualidade da habitação da generalidade das pessoas nesses tempos, em que as sociedades predominantemente se organizavam nos moldes defendidos pelas concepções do liberalismo económico, isto é, cada um tratando de si e dos seus, livremente, conforme as suas possibilidades e aptidões, estando a protecção na saúde reservada à iniciativa meritória das Misericórdias e entidades similares, também privadas.
O confinamento vai, para além do mais, agravar as desigualdades sociais; os governos estão constantemente a anunciar providências destinadas a aliviar os custos da situação, mas é de temer que essas serão sempre insuficientes. A nossa participação na UE funciona como uma bóia de salvação, mas fica-nos por vezes a impressão de sermos os últimos a ser servidos, como está agora acontecendo, lastimavelmente, com as vacinas, um apreciável fracasso da tentativa de alargar as funções e responsabilidades da Comissão Europeia. Em todo o caso, não é de prever uma generalização das injustas condições de miséria, que deram origem à Questão Social, geradora das diversas formas de socialismo noutros tempos. 
O que agora está na moda é o voto de protesto nos partidos anti-sistema, o que no caso português até se explica pela passagem à área do poder dos partidos tradicionalmente mais identificados com os interesses dos trabalhadores menos afortunados, alguns dos quais se preocupam hoje mais com a defesa das minorias de vária ordem, com os temas ditos fracturantes  e com os impropriamente designados “direitos dos animais”, enquanto na prática da governação aplicam as regras favoráveis ao sistema capitalista, que campeia infrene.

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)
 

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