As Origens da Cidade Medieval Portuguesa, segundo Oliveira Marques (continuação)
Creusa Raposo

As Origens da Cidade Medieval Portuguesa, segundo Oliveira Marques (continuação)

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Patrimonium Nostrum

A cidade islâmica, salvo raras excepções, não conheceu a organização municipal ou autonomia baseada em privilégios, até porque, a lei islâmica repugnava o privilégio. Contudo gozava muitas vezes de auto-administração. Não se podia dotar de governo próprio com órgãos e funcionários escolhidos por habitantes, mas era uma unidade administrativa. 
A rua era considerada como bem comum, e era pouco respeitada pelos particulares que frequentemente criavam becos sem saída. A casa correspondia à intimidade exigida para o lar, fechada para fora e abrindo-se para o interior. 
Espanha possuía quarenta e sete capitais de província: trinta e cinco fundadas pelos romanos, doze do período medieval e quatro de fundação islâmica; enquanto que Portugal apresentava onze capitais de província e nenhuma fundada pelos islâmicos. Os muçulmanos aceitaram as cidades que encontraram e a sua influência não foi menor em comparação com as de raiz muçulmana. Muitas revelam o cunho islâmico pela rede na planta, como a estrutura interna e na posição relativa a centros económicos, religiosos e político-militares. São construídas na maioria em terreno acidentado que lhes garantia protecção, vigia e abrigo dos ventos dominantes. As urbes da Espanha obedeceram ao modelo triangular ou em trapézio da planta, como por exemplo Málaga.
Em tamanho a cidade hispano-muçulmana era geralmente pequena:
• Toledo: 106 hectares
• Granada: 75 hectares
• Sevilha: 50 hectares
• Málaga: 37 hectares.
Dentro da muralha o plano obedecia geralmente à rede irregular com algumas excepções, como é o caso de Badajoz. Em todas as cidades havia falta de grandes terrenos ou praças desafogadas. As casas eram altas com vários andares, os pátios e quintais minúsculos e os aposentos tacanhos.
Judeus e moçárabes viviam à parte. Havia distinção entre a aristocracia na Alcáçova e o povo na Almedina. A Alcáçova ou cidade alta constituía uma unidade por si só. Encerrava a fortaleza e o alcácer, um pequeno bairro onde residiam os altos funcionários e oficiais militares. A sua extensão variava, mas o seu peso na área total da cidade era grande. Nas cidades mais pequenas e de cunho militar a área da Alcáçova podia ser muito maior, note-se o caso de Gibraltar.
Nas cidades marítimas ou portuárias o pólo de atracção era o mar ou o porto com a praia ou a margem.  Nos centos de unidade estavam a mesquita-mor, o açougue/suq e ainda os banhos públicos/hammam em urbes importantes. 
A mesquita-mor variava de tamanho e de opulência em função do número de habitantes. Em Córdova chegou a alcançar dezanove naves. Em cidades mais pequenas limitam-se a sete ou cinco. As mesquitas de bairro podiam ter apenas uma nave.
O comércio fazia-se ao ar livre à maneira de praça ou mercado e em tendas ou lojas de instalação permanente. A venda e a produção artesanal ocupavam o rés-do-chão, morando muitas vezes o proprietário no primeiro andar. As tendas aglomeravam-se pouco distantes da mesquita e agrupavam-se por profissões.
Um dos edifícios mais importantes do complexo económico era a alcaçaria. Dispunha de um grande pátio com pórticos ou galerias cobertas onde se arrumavam as lojas. Outras vezes era uma rua coberta ou não, com portais e tendas ou ainda um bairro comercial dispondo de pequenas unidades separadas.  A maior característica das alcaçarias era poderem ser encerradas à noite e não constituir via permanente de passagem. Pertenciam quase sempre ao soberano. 
A organização social e política da Península Ibérica não diferenciava muito das restantes do Islão. Na capital de cada distrito -kura- residia o governador -wadi. Era nomeado pelo califa ou pelo rei. Esse governador vivia na alcáçova onde se aglomeravam também as várias repartições públicas, como a chancelaria e as finanças. Em todas as capitais existia um qadi, que superintendia na justiça e tinha a seu cargo a organização judicial do distrito. Outros funcionários eram o chefe da polícia, o inspector e juiz de mercado, os cobradores de impostos e os juízes de pesos e medidas. Os magistrados e funcionários eram nomeados pelo poder central. Não havia autonomia municipal, embora existisse organização municipal.
Fora das muralhas, junto às estradas ou caminhos que levavam à cidade, ficavam os cemitérios cujo número e superfície dependiam do tamanho da cidade. Era o al-maqbara.
Em redor da cidade havia prados, bosques, campos arborizados, passeios, hortas, pomares, ou seja, uma área verde que circundava o povoado e servia de resfolegadouro. Aqui também os ricos e os privilegiados possuíam casas, onde passavam os meses mais calmos do ano. Era a área onde se combinavam as hortaliças e as árvores de fruto com as plantas ornamentais e as flores com a profusão de poços, fontes, riachos ou regos artificiais.
Para mais informações consulte-se “Introdução à História da Cidade Medieval Portuguesa” e “Breve História de Portugal” de A. H. de Oliveira Marques.
Continua…

 

Este texto não segue o novo acordo
ortográfico da Língua Portuguesa.

*Licenciada em Património Cultural e mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento pela Universidade dos Açores/ SIAA/

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