Cedendo aos lóbis?
Mário Abrantes

Cedendo aos lóbis?

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No início dos anos 80 uma polémica animava os jornais micaelenses. O governo PSD fazia o jeitinho ao lóbi ligado ao clube naval, então com sede junto ao forte de S. Brás, contrário a que, aproveitando o imenso espaço livre do espelho de água do porto de Ponta Delgada, fosse instalado e devidamente equipado um espaço funcional reservado à pesca e aos pescadores, até aí sem usufruírem neste porto de quaisquer condições e instalações dignas e adequadas à sua importante atividade. Na raiz da polémica estava o preconceito de alguns membros daquele clube (onde se destacava o meu inestimável amigo e adversário político, Jorge do Nascimento Cabral) contra a eventual localização dos pontões da frota pesqueira perto de uma área da doca então usada para os seus banhos de recreio. O certo, felizmente, é que o bloqueio que então existiu ao melhor aproveitamento económico e de lazer do porto acabou por ser neutralizado, e até agora ninguém contestou a utilidade e a regularidade do investimento ordenador que acabou por ser executado em seguida.
Hoje novamente o PSD, desta vez coligado com o resto da direita e com a extrema-direita, parece disposto a ceder aos lóbis, por causa de preconceitos socioeconómicos, no respeitante ao ordenamento e às valências atualmente disponíveis no porto. O novo lóbi é capitaneado pela Câmara do Comércio de Ponta Delgada e visa retirar a valência de mercadorias da atual doca e transferi-la para um outro porto criado de raiz (em Santa Clara, como primeira opção), por a sua direção entender que a acostagem dos cruzeiros e a “nobre” valência do turismo em geral, que aspiram transformar na atividade económica dominante em S. Miguel, estaria a ser contaminada pelo trabalho “sujo” das cargas e descargas no nosso principal porto comercial…
É bom lembrar ao atual governo que a inclusão no próximo Plano e Orçamento da Região de um estudo sobre a construção de um porto novo de mercadorias em Ponta Delgada, constituirá desde logo um desperdício financeiro, pago por todos nós, para proporcionar desperdício ainda maior com um investimento público que nem tão cedo terá racionalidade económica para ser executado. Na verdade, estão neste momento a decorrer obras concretas e de fundo no porto de Ponta Delgada, no valor de quase 50 milhões de euros, visando melhorar todos os seus índices de eficiência relativa à valência de mercadorias (nomeadamente potenciar a operação de navios de contentores em linha, no mesmo terrapleno, diminuindo o número de movimentações e ciclos de transporte, carga e descarga de contentores), o que torna disparatados e absolutamente condenáveis quaisquer outros volumosos investimentos próximos precisamente no âmbito da mesma valência. 
Estes desperdícios, preconizados por quem tanto se desunhou a criticar, mesmo que com razão, despesismos anteriores do mesmo tipo, só se justificam por cedência ao lóbi, desacreditando profundamente quem aceita integrá-los como despesa pública no plano e orçamento da Região. Além disso, é preciso lembrar também ao atual governo que quando, em lugar de ver o turismo como atividade económica importante, mas complementar, se preconiza a “monocultura” do setor, está-se a falar de um setor de baixa intensidade tecnológica, com baixos salários e baixa produtividade, e que contribui em geral para e subsistência de uma economia frágil, dependente e vulnerável ao exterior.
Já agora não será despiciendo ainda lembrar ao novo governo que a freguesia de Santa Clara, a recuperar dos atrasos a que foi votada durante décadas e da poluição e perigosidade representados pela presença na sua malha urbana dos depósitos de combustível da Bencom, de que há bem pouco tempo se viu finalmente livre, sempre rejeitou em absoluto vir a albergar de futuro junto às suas casas, as valências menos “nobres” do nosso porto comercial.
 

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