Este Ano Não Há Romeiros
Nuno Costa Santos

Este Ano Não Há Romeiros

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Crónicas do Corpo Santo

Os romeiros. Lembrei-me ontem à noite dos romeiros. Este ano não há romeiros. Este ano não há quem, durante oito dias, siga pelas estradas a pé, visitando igrejas e ermidas onde viva a imagem da Virgem Maria, cumprindo uma tradição que, em 2022, fará 500 anos.  E que, sabemos, teve origem em Vila Franca do Campo, depois de um pavoroso fenómeno sísmico associado pela população à cólera de Deus.
Este ano não se ouvem os cânticos de súplica e temor entre casas e pastos, debaixo de sol e de chuva, com e sem nevoeiro. Figuras semelhantes a João, protagonista de “Ilha Grande Fechada”, romeiro que vai por ter sentido a respiração próxima da morte, fazendo votos de ir, a pão e água, “a promessa das grandes aflições”. Nas palavras do escritor: “Cinquenta léguas compridas de cansaços e Ave-Marias”.
Conta-se no livro de Luís Mendonça, “Perguntas & Respostas sobre a História dos Açores” (Letras Lavadas), que “o regime liberal, com a sua postura anticlerical, manifestou uma atitude de alguma hostilidade em relação às referidas romarias”, demonstrada em decisões como a da proibição de romarias em São Miguel, no ano de 1839, pelo Administrador Geral do Distrito de Ponta Delgada. Mendonça também conta que“o estrangeiro L.Weeks”, que esteve no arquipélago em finais do século XIX, se impressionou com os romeiros de São Miguel. Fez uma descrição do que viu: “Cada um dos peregrinos tem a cabeça coberta com um barrete de lã. Com bordões nas mãos, caminham pausada mas firmemente, mostrando no rosto o êxtase de fervor religioso, sem atentarem nas cabeças descobertas e nos joelhos dobrados dos aldeões simples, aos lados dos caminhos”. Finaliza assim: “Seus estranhos cânticos fixam-se por longo tempo no ouvido e na memória”. É verdade. Ainda é verdade.
  Já falei sobre o assunto com muitos. Vários se identificam com as suas próximas linhas de texto. Lembro-me de, em criança, ouvir chegar os romeiros e de sentir uma mistura de inquietude, de respeito e outros condimentos interiores. Um sentimento crioulo, indefinível, poderoso, que nunca esquecerei e se reacende quando ouço o som das rezas a aproximar-se. Nunca fui como romeiro mas os romeiros fazem parte da minha banda Sonora essencial e da banda sonora dos micaelenses. Dos que acreditam e dos que não acreditam.  Dos que respeitam e dos que se distanciam. Múltiplos poetas e leitores de poesia, esses, não ficam indiferentes a expressões como “Procurador das Almas” e “Lembrador das Almas”. Estou certo disso.  
Na digressão identitária que fiz no livro impuro, entre a realidade e a ficção, “Céu Nublado com Boas Abertas” registo, em algumas passagens, a forma como os romeiros me marcaram. Recupero uma notícia. Revela a nova: familiares, amigos, conhecidos e antigos romeiros juntam-se em todas as freguesias por onde passam os ranchos para lhes oferecer água, uma refeição quente e um local para pernoitar. Nomeio uma súplica que parece chegar do início do mundo e relembro uma pintura que fiz aos nove anos e ainda mora na parede do meu quarto do Livramento. É, pelos seus motivos, inspirada num conjunto de temores, relacionados com uma, na altura, muito intensa conexão com o divino. O quadro traz, como desenhos, vulcões em erupção e uma mão que chega do céu.  
Também, no mesmo livro, refiro-me a um grupo de romeiras. Fiquei a saber da Romaria das Senhoras da Ouvidoria da Lagoa. Realiza-se desde 2014 e passa-se, num dia, entre a Ribeira Chã e o Livramento. E da Romaria de Nossa Senhora de Fátima (Santa Clara), aquela que reúne mais pessoas.
Amigos sem crenças já foram como romeiros só pela experiência, pelo contacto directo com a Natureza, pela forma de exercer a irmandade e a fraternidade. Dizem dos sérios silêncios mas também da convivialidade, da forma como, nos períodos de descanso, quando os romeiros são acolhidos em casas das gentes, o humor se cruza com as rezas.
Soube-o. Surgiu, para a comunidade dos caminhantes quaresmais, um modo de compensar essa impossibilidade, essa falta, esse vazio. Um exemplo. O Rancho de Romeiros de São Pedro terá uma espécie de existência virtual, com a publicação de vídeos de outras romarias, de caminhadas de outros tempos e devoções, permitindo aos cerca de 2500 romeiros que ficam por cumprir o desígnio de pedir e agradecer, pelos trilhos da memória, momentos de caminhada, reflexão e conversa consigo. Numa entrevista, João Carlos Leite, da Associação Movimento de Romeiros de São Miguel, deixa uma mensagem que cabe nas expectativas de muitos. Dos que acreditam, de não crentes ou de crentes de outras religiões, em número cada vez maior nestas paragens: a da confiança na ciência. Apenas isso, que é tanto. Junta os fluxos do espírito aos esforços da razão.
É mesmo preciso prosseguir no gesto de saltar a cerca do preconceito e do divisionismo, ainda fomentado por muitos, nas esquinas e nos poderes. Carimbo mais uma rima entre São Miguel e a Terceira – e em movimento contrário. Comprovámo-lo há umas semanas nas ruas do bairro do Corpo Santo. Há romeiros na Terra dos Bravos. Sim? Sim. Vimo-los em frente ao Império dos Remédios. Ao descermos as escadas para ir comprar ovos à carrinha que chega entre buzinadelas, cruzámo-nos com dois homens de xailes coloridos em cima dos ombros e de terço na mão. Estavam parados, a rezar. 
Perguntámos a uma vizinha se eram mesmo romeiros e, sem hesitações, confirmou que sim. Que também existem na Terceira. Encontrei depois notícia sobre a partida, em anos anteriores, do Rancho de Romeiros do terceirense Santuário de Nossa Senhora da Conceição. Integra cerca de quatro dezenas de romeiros. Durante cinco dias percorre o roteiro definido, pernoitando nas Doze Ribeiras, na Agualva, em Porto Martins e em São Sebastião. Cada um, conta-se, reza pelas suas inquietudes   mas “também pelos irmãos e pelo mundo em geral, cumprindo o mesmo ‘caderno de encargos’ definido para as romarias de São Miguel, seja nas intenções anunciadas pelo bispo de Angra seja nas orientações dadas pelo Movimento de Romeiros de São Miguel”. Mais um escândalo: na Terceira também há romarias com mulheres. Duas. Uma delas está, igualmente, ligada ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição. E pronto. Mais nada. Toma lá mais uma, bairrismo bacoco.

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