Passos do Senhor dos Passos
Rui Brum Ávila

Passos do Senhor dos Passos

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Escritos em tempo de pandemia (XXIII)

Estamos em plena época Quaresmal e, neste ano de 2021, à semelhança do ano passado, as festas Pascais estão a ser celebradas, mais uma vez, de uma forma diferente do que era habitual e tradicional por causa do COVID-19 que a todos atingiu de alguma forma e onde o resguardo e o pouco contacto social foi, e é, a nossa melhor defesa. Embora, passado um ano, tenhamos presentemente uma melhor compreensão desta pandemia e do que a ela está associado: mudanças, como por exemplo a presença limitada dos fiéis nas celebrações. 
As procissões que eram realizadas neste período festivo nas ruas das freguesias e Vilas continuam canceladas. 
A última procissão que se realizou no Pico e na Vila das Lajes foi no ano passado a 8 de Março, a procissão do Senhor dos Passos, e isso aconteceu porque ainda foi num período em que a pandemia estava numa fase inicial e as restrições ainda estavam a ser ponderadas.
Esta procissão do Senhor dos Passos é uma das mais antigas que se realizam no nosso país, assim como nos Açores e na ilha do Pico. Na Vila das Lajes era uma das que maior número de fiéis trazia à Vila e que remonta ao século XVII introduzida pelos Frades Franciscanos quando aqui chegaram e fundaram o Convento de São Francisco e que após algum tempo passou a ser promovida pela Irmandade da Santa Casa da Misericórdia das Lajes.
Ligados a esta procissão estão os “Passos”, cuja datação remonta ao século XVIII, e que assumem um papel de destaque na referida procissão. Estes pequenos nichos são construídos em alvenaria de pedra basáltica e na parte superior tem um arco de volta perfeita, em baixo, parede altar, e a coroar a estrutura no topo uma cruz também em basalto. Estão classificados como Imóveis de Interesse Público. Situam-se em vários pontos da Vila, existindo actualmente apenas três, de um total de cinco que existiam inicialmente aquando da sua construção. Essa construção partiu de um voto pela Santa Casa da Misericórdia das Lajes, provavelmente logo a seguir a 1720 depois das grandes erupções vulcânicas, primeiro na freguesia de São João e depois no lugar da Silveira, freguesia das Lajes.
Nos antigos estatutos da Santa Casa da Misericórdia, datados de 28 de Dezembro de 1750 havia uma disposição que obrigava aquela Santa Casa a celebrar anualmente a solenidade de Passos e Calvário e a forma como a Procissão devia ser organizada. No dia da procissão, estes altares, “Passos”, são habitualmente embelezados com flores e verduras e com cenas dos Passos de Jesus. A procissão, numa primeira fase, ou seja, quando começou a ser realizada saía da antiga Igreja da Misericórdia, localizada na antiga Praça da Vila, no terreno que hoje existe vago a seguir aos Correios. Esta Igreja, devido ao seu mau estado de conservação e abandono, foi demolida em meados do séc. XIX e as imagens que nela existiam respeitantes a esta solenidade passaram a ser guardadas e a sair em procissão a partir da Igreja do Convento de São Francisco. Actualmente, essas imagens e procissão saem da Igreja Matriz da Santíssima Trindade nas Lajes.
A procissão depois percorre todos os “Passos” que ainda hoje existem e, onde existiam os que ao longo dos anos desapareceram, são montados “Passos temporários”. O desaparecimento desses antigos Passos deveu-se à acção impensada do homem que, muitas vezes, com a ânsia de construir e fazer, relegou para segundo plano marcos da nossa história local que deveriam ser preservados, embora existam excepções. 
Durante esse percurso são lidas passagens bíblicas alusivas à solenidade de cada Passo, rezam e entoam cânticos, também há a participação da filarmónica. Participa também o Provedor da Santa Casa da Misericórdia das Lajes e os respectivos membros da Mesa Administrativa, Assembleia Geral e Conselho Fiscal. Há poucos anos, esta Santa Casa mandou fazer e ofereceu às imagens do Senhor dos Passos e a da Senhora da Soledade novas vestes. 
Oração que se rezava na procissão dos Passos:
“Recebei estes meus passos,
Ó meu amável Jesus.
Permita que vos ajude
A levar a Vossa cruz
E que por ela consiga
Dos meus pecados perdão,
A Vossa graça, Senhor,
E a eterna salvação.
Que depois deste desterro
Eu vos vá ver, ó Jesus,
No feliz reino da glória
Cercado da eterna luz.”

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