Trapalhadas

Trapalhadas

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Não sei se será por efeito da crise pandémica, mas o certo é que estamos a ser vítimas de trapalhadas várias, que contribuem para um clima generalizado de suspeita e até de indignação, nada favorável ao decorrer tranquilo da vida pessoal e social.
A maior de todas essas trapalhadas refere-se às vacinas, esperadas com ansiedade para se poder retomar um mínimo de normalidade no nosso viver quotidiano. A descoberta de uma vacina contra o malfadado vírus foi realizada em tempo vertiginosamente breve, o que é um sucesso a sublinhar, fruto do avanço da investigação científica e de uma eficacíssima associação de esforços de entidades públicas e privadas, mobilizando recursos financeiros em valores até agora inauditos, tal era a pressão da emergência sanitária.
É aqui que entra em cena a burocracia europeia com todo o seu arsenal de poder e de incapacidade em exercê-lo bem, em serviço dos cidadãos. Ficou assente que seria a Comissão Europeia a contratar com a indústria farmacêutica o fornecimento do montante global de vacinas necessárias para imunizar toda a população, encarregando-se depois de as distribuir pelos vários países membros da União. Os resultados estão à vista e são desastrosos!
As vacinas estão chegando por conta-gotas e comprova-se que os contratos foram muito mal negociados, sem se fixarem prazos de cumprimento pela indústria, nem penalizações por incumprimento. No Reino Unido essas elementares cautelas foram adoptadas e têm permitido um processo de vacinação rápido e deveras invejável. O que mais indigna e revolta os cidadãos europeus bem informados é que não se tenham apurado responsabilidades dos negociadores de tão insuficientes contratos, dando-se uma vez mais cobertura à arrogante incapacidade da eurocracia, que é  afinal quem parece dominar e controlar o funcionamento da União Europeia.
Entretanto, em desespero de causa, alguns países membros começam a comprar por si próprios vacinas de variada origem, passando por cima do que tinha sido combinado em termos de solidariedade europeia. E a Comissão e a sua Presidente correm de um lado para o outro a tentar resolver os problemas, mas sempre atrás do prejuízo e sem possibilidade de evitar novos surtos e os correspondentes confinamentos, que já estão de volta em vários países, infelizmente. Com razão tem o Governo da Região Autónoma dos Açores reclamado um tratamento prioritário para as regiões insulares ultraperiféricas, sublinhando a sua especificidade e as grandes vantagens de uma imunização generalizada da população respectiva; a hipótese de nos virarmos para a América, nesta situação de grave risco, já foi posta em cima da mesa e não deve ser retirada
Ora, é sabido que os confinamentos trazem consigo a paragem da economia e falências de empresas e desemprego em catadupa. Com isso alastra a pobreza e começam a aparecer à luz do dia situações de verdadeira miséria, verdadeiramente chocantes. A mobilização das entidades públicas e de inúmeros voluntários tem sido admirável, mas a dimensão do que aí vem faz temer o pior. Estes fenómenos alastram pela Europa e pelo Mundo, e o nosso País não está fora disso, tampouco as nossas Ilhas.
Como se tudo isso não bastasse, tivemos agora um período de suspensão do processo de inoculação das vacinas, reagindo os governos à reconhecida sabedoria das chamadas redes sociais, e com isso semeando a desconfiança entre os potenciais vacinandos, que se deparam com ameaças autoritárias para se deixarem inocular de qualquer maneira, uma vez ultrapassado o entremêz...
Em Portugal, à trapalhada das vacinas soma-se o caso da isenção de impostos, no valor de centena de milhões de euros, beneficiando uma empresa concessionária de bens e serviços públicos, lamentavelmente vendida a capitais públicos chineses, em cujo órgãos dirigentes se instalaram antigos responsáveis políticos de diversa filiação partidária ou sem partido, todos tendo já mostrado empenho em corresponder aos interesses dos accionistas dominantes. 
O Primeiro-Ministro António Costa veio já sacudir a água do capote, mas o certo é que foi feita em tempo uma alteração cirúrgica do Estatuto dos Benefícios Fiscais, por decreto do Governo, e um dos membros deste tem-se prodigalizado na defesa do negócio sob escrutínio,  que tresanda a golpada para fuga ao Fisco. Este por seu turno é lesto em atacar os contribuintes com cartas ameaçadoras e penhoras arbitrárias, por vezes em execução de dívidas mínimas, mas no caso em questão tem estado mudo e quedo...
Foi anunciada a abertura de um inquérito pelo Ministério Público; porém, a confiança dos cidadãos na Justiça está muito abalada, quando se vê os tribunais inundados de processos referentes a questões de lana caprina, enquanto os grandes processos de estouro de bancos e de corrupção, envolvendo no seu conjunto milhares de milhões de euros, que pesam, através da dívida pública, sobre todos nós, não andam nem desandam, sendo presumível que acabem por prescrever responsabilidades afinal nem chegadas a apurar.
Não pode omitir-se referência à trapalhada do apoio do Governo da República à Universidade dos Açores, anunciado há um ano  em termos por todos bem lembrados. Afinal, o dinheiro nunca veio por falta de assinatura de um despacho, esfarrapada desculpa do visitante lisboeta, que melhor faria em nem sequer ter cá vindo. Fomos enganados! Bem fez o Magnífico Reitor da nossa Universidade em recusar-se a ombrear com o ministro no encontro com a Comunicação Social.

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)  
 

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