O Misterioso Gigante dos Mares
Nuno Costa Santos

O Misterioso Gigante dos Mares

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Crónicas do Corpo Santo

Na semana passada, uma balaenoptera borealis, conhecida como baleia sardinheira, de 12 metros de comprimento e com mais de 24 toneladas, deu à costa no Terreiro, freguesia de São Mateus, no concelho de Angra do Heroísmo, Terceira, Açores. De São Miguel, onde me encontrava por circunstâncias de trabalho, acompanhei a notícia pelos jornais e a Sara (Leal) saiu, às 15h, do Corpo Santo com a máquina de filmar acondicionada na mochila. Sempre interessada em todos os fenómenos marinhos e cativada por todas as espécies que circulam nos espaços subaquáticos, seguiu com o objectivo de filmar o processo de retirada do animal, agora com 21 metros, do camião de transporte e a posterior necropsia conduzida pelo biólogo marinho João Pedro Barreiros, acompanhado pelo veterinário Diogo Costa. Fiquei a saber de uma boa notícia: que o movimento foi visto por um conjunto de estudantes de veterinária. Sabemo-lo: é a olhar de perto que melhor se pode aprender. 
A baleia foi retirada do mar pelos técnicos da TERAMB, a Empresa Municipal de Gestão e Valorização Ambiental da Ilha Terceira, e depois depositada, com o empurrão de um caterpillar, no buraco aberto no chão.  Envolto no cheiro a metano, João Pedro Barreiros juntou-se ao animal para, com uma faca, recolher amostras do tecido. Verificou que o músculo mantinha as fibras normais e que a gordura subcutânea estava saudável. Conclusão: o animal não estava doente. Hipóteses para o naufrágio: embatera em rochedos ou numa embarcação. Batendo nas pedras, acumulou traumatismos e lesões várias.
A Sara contou-me depois: “Quando a baleia caiu sentiu-se um tremor de terra”. Era como que a confirmação do peso de um animal que foi avistado, pela primeira vez, pelo pescador Gerson Dinis. A peça da RTP Açores comprova-o: a baleia ainda é um animal que causa maravilhamento e magnetismo. Várias pessoas, de diferentes idades, perto do muro, olhavam-na como quem olha para um misterioso gigante dos mares, um bicho sublime para ser apreciado nos seus movimentos e nos seus mergulho e outrora, quando capturado, um modo de vida para quem dele precisava para o sustento familiar. Pode chocar quem hoje protege com afinco os animais mas era assim. Querer julgar esse gesto de um tempo outro aos olhos de hoje – e acontece, já o topei - é não perceber o que era viver nestas ilhas no coração, na altura, bem precário do Atlântico.

No lançamento do livro de crónicas de Pedro Arruda, que na verdade funciona como um ensaio sobre a forma como o escriba vê este período pandémico, falou-se, com algum cepticismo, em açorianidade. Entendo esse cepticismo porque novos tempos sugerem novos vocábulos para definir o que é isto de ser açoriano. O meu entendimento, que percebe essa necessidade de escavar diferentes formas de entender a vida e a cultura no arquipélago, prefere outro trilho. O de receber de Vitorino Nemésio o que Vitorino Nemésio intuiu (inspirado nos termos de outras latitudes) e o de integrar nessa açorianidade toda uma série de condimentos, formas de estar, vivências – algumas delas de quem, todos os dias, chega de outro país e resolve aqui lançar âncora. 

Há dados inegáveis que o autor de “Corsário das Ilhas” reconheceu. O isolamento criou, apesar dos feitios heterogéneos, características semelhantes. O peso da religiosidade, devido a abalos inclementes, é fortíssimo e tem no Espírito Santo uma prática identitária – com diferenças compreensíveis motivadas pela distância. Umas sofrem-nas mais do que  outras mas a força dos elementos é comum a todas as ilhas. O mar e a energia vulcânica também. Em território nacional só há grotas por aqui. A meteorologia e o capacete são os mesmos. A realidade das quatro estações num dia também. O clima instável tem peso na nossa psicologia. Apesar de tudo, um certo sentimento de fatalismo persiste. Uma mistura de coragem e de cepticismo. Outros traços que se podem acrescentar: há muitos termos e expressões idênticos entre as ilhas. Houve duríssima pobreza em todo o chão açoriano. Brava baleação. Américas “perdidas de abundância”. Uma necessidade de partir e uma vontade de regressar. Uma curiosidade incomum e o intuito de superação e afirmação pessoal. É reconhecido em toda a parte: existe um número elevado de personalidades açorianas com qualidade e densidade. Que, fora, são “dos Açores”. Não de cada freguesia insular. Esquecemo-nos.

Claro que as identidades criam-se e aprofundam-se. Não são fixas, recebem influências, contributos. As identidades duvidam de si próprias e isso é salutar. Os Açores de hoje são um território que, mantendo características ancestrais, é cruzado por novos ventos que o marcam e influenciam. A ideia de reduzir o açoriano a um ser contemplativo e melancólico não basta. Haverá uma parte das gentes com esses traços – sabemos que a depressão e o suicídio por estas paragens atinge um número recorde no território português – mas existem demasiados açorianos com genica para estacionar nessa visão assente no azorean torpor. Há vivos acontecimentos culturais no arquipélago que já são parte da nossa identidade. Muitos deles, por opção, cruzam tradição (e tão boas tradições há por cá) e experiência.

Há, sim, animosidades entre as ilhas e é preciso trabalhar pela aproximação. Vou percebendo todos os dias. A antipatia entre ilhéus destas paragens é, com frequência, o desporto de quem costuma mover-se à custa do motor do preconceito. E para quebrar preconceitos é preciso haver conversa e convivência. O que, sabemos, existe pouco. Se há bairrismo? Claro que há. Como há entre Alfama e a Madragoa (e se existe!). Como existe entre Guimarães e Braga – e vice-versa. Como entre Porto e Lisboa. E não é isso que os torna sítios de terras diferentes e distantes. 
Importante anotá-los: neste ponto da necessária aproximação cultural emergem sinais positivos. Idênticos aos que houve noutras décadas – no pensamento, na literatura e na música, por exemplo. Um recente movimento cívico de artistas açorianos junta criativos de diferentes ilhas açorianas. Sinal de unificação, de rima. Algo a aprofundar.

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