Saber estar em política
Teresa Nóbrega

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Em recente entrevista televisiva, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, desvendou o segredo de como o Estado de Israel tinha conseguido o lugar cimeiro mundial na campanha de vacinação da população. Puxando os louros para si, disse que tinha telefonado várias vezes ao presidente mundial da Pfizer, conversando amigavelmente sobre as suas origens judaicas e a sua árvore genealógica, bem estudada para o caso pelos competentes serviços do Estado de Israel. 
A propósito lá foi dizendo que o povo de Israel muito apreciaria a sua solidariedade num momento tão difícil, solidariedade essa que poderia ser manifestada se a Pfizer fornecesse a Israel as vacinas que permitissem a rápida imunização da sua população. Certamente sensibilizado com a conversa, o presidente da Pfizer, como bom judeu, lá foi dizendo que tal seria possível se o Estado de Israel pagasse um suplemento ao preço estabelecido para as vacinas. Obviamente Netanyahu prontificou-se a abrir os cordões à bolsa.
Tudo isto vem a propósito das recentes iniciativas do Governo Regional dos Açores para ultrapassar o incumprimento pelas farmacêuticas dos acordos firmados pela União Europeia na entrega de vacinas. 
Tal incumprimento motivou que muitos países europeus legitimamente procurassem alternativas de fornecimento em discretas negociações. E é de louvar que o Governo Regional dos Açores se tivesse movimentado nesse sentido.
 Mas enquanto em Israel, assim como em todas as chancelarias mundiais dignas desse nome, tudo é tratado com discrição, confidencialidade e até secretismo, só vindo a público quando existem resultados concretos, entre nós, numa clara manifestação de amadorismo e de não saber estar na política, as iniciativas para conseguir alternativas no fornecimento de vacinas são logo tornadas públicas e contactos a estabelecer são conhecidos antes de serem realizados, numa disputa por protagonismo e ânsia de mostrar trabalho entre o presidente e o vice-presidente. Um informa que escreveu cartas e o outro fala para as televisões. É de salientar que em Israel, aqui tomado como exemplo, há várias décadas que todos os governos são de coligação. Mas quem dá a cara, para o bem e para o mal, é o primeiro-ministro. 
O Governo dos Açores deve envidar todos os esforços para suprir a carência de vacinas de forma inteligente e digna, sem esquecer que toda a discrição é necessária nos contactos com personalidades com origem nestas ilhas e bem posicionadas no xadrez político americano. É preciso ter em conta que há muitas outras comunidades de imigrantes insulares nos Estados Unidos, quase todas elas oriundas de arquipélagos bastante mais desfavorecidos do que os Açores.


*Jornalista
(A autora escreve segundo a antiga ortografia)
 

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