Sinais da Páscoa

Sinais da Páscoa

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A glicínia do jardim do meu vizinho está ficando coberta de cachos de flores roxas e o perfume delas entra-me pela varanda, aberta ao bom tempo primaveril, quando o vento está de feição. Já em Lisboa era assim, nos anos em que vivi na Residência Oficial do Presidente da Assembleia da República, no Edifício Novo, anexo ao Palácio de São Bento. Uma glicínia enorme, que estava já trepando para cima das árvores próximas, enchia-me a casa de fragância, mais sensivelmente ao serão, assinalando a proximidade da Páscoa.
Muitas vezes me tenho interrogado sobre esta coincidência de as flores roxas, incluindo os lírios, aparecerem exactamente por estes dias, como se a Natureza quisesse associar-se às cores tradicionais do Tempo da Paixão. As flores do maracujá, nas quais o poeta brasileiro identificou os instrumentos das torturas que padeceu Jesus Cristo e que costumam ser levados por anjinhos nas procissões da Quaresma, são um pouco mais tardias, tanto quanto julgo saber.
Como quer que seja, a Páscoa está à porta, este ano ainda marcadas as suas celebrações pelas restrições impostas pela pandemia em defesa da saúde pública. Em todo o caso, já estamos melhor do que em 2020, quando a surpresa e o medo do desconhecido vírus levaram ao cancelamento de tais celebrações um pouco por todo o Mundo e também entre nós. Ficou-nos, desse tempo, a todos na memória a comovente figura do Papa Francisco, subindo sozinho os degraus do adro da Basílica de São Pedro, num fim de tarde de chuva miudinha e perante uma praça deserta, para implorar de Deus o fim da pandemia, rezando diante do famoso Crucifixo, outrora invocado quando das pestes em Roma, e da misteriosa imagem, pintada sobre madeira, de Nossa Senhora Salus Populi Romani, habitualmente exposta na deslumbrante capela que lhe é dedicada na Basílica de Santa Maria Maior.
Na sociedade açoriana os dias da Semana Santa costumavam ser vividos com sincera devoção. Eram em boa parte preenchidos com idas às igrejas onde havia Endoenças, como então se dizia, e participando em procissões, dos Passos e do Enterro. Esta última, na noite de Sexta-feira Santa, saía da Igreja Matriz no meio do ruído tétrico das matracas e ao compasso das marchas fúnebres executadas pelas bandas, que a acompanhavam. O esquife ia sob pálio roxo e era levado por padres paramentados, com as casulas pretas dobradas a meio na parte da frente, em sinal de luto.
Tudo isso se passou há muitos anos e mantinha um certo sabor barroco, agora ultrapassado. A própria liturgia católica evoluiu para uma valiosa acentuação da Páscoa como Ressurreição, de Jesus Cristo e de todos os cristãos com ele, através do Baptismo. Mas a marca da Cruz permanece com toda a sua força e não podia ser de outro modo, pois é do alto dela que Jesus, como ele próprio tinha profetizado, atrai todos a si. Diante da morte de Jesus na Cruz, o Filho de Deus feito Homem, para nos redimir, a todos e a cada um, não se pode ficar indiferente!
Quando foi aprovada a nova bandeira da Região Autónoma dos Açores, calhou entrar em vigor o diploma respectivo, na Quinta-feira Santa. Como o avião que trazia de Lisboa os primeiros exemplares da bandeira sofreu, já não me lembro por que razão, sucessivos atrasos, era já de noite quando a fui içar, pela primeira vez, na varanda do Palácio da Conceição, iluminado com as suas gambiarras como nos dias de grande gala. No largo em frente juntou-se um numeroso grupo de pessoas, que aplaudiu com emoção a subida no mastro de honra da nossa bandeira azul e branca com o açor e as nove estrelas, tendo no canto superior o escudo português.
No dia seguinte, Sexta-feira Santa, conforme instruções contidas em despacho oficial, a bandeira dos Açores, juntamente com a bandeira de Portugal, foi içada a meia haste, acompanhando a antiga tradição de ser esse um dia de luto, respeitado como tal nas nossas Ilhas. Ambas subiram ao topo do mastro no Domingo de Páscoa, aí se mantendo até à meia noite, com a fachada do Palácio, sede do Governo Regional, toda iluminada em ambiente de festa.
Nos anos seguintes foi mantida esta mesma prática, que perdurou para além do termo das minhas funções como Presidente do Governo, o que deveras me admirou, devo confessar. Julgo ter visto a mesma praxe respeitada em edifícios nobres, sedes de departamentos governamentais. Quando o Palácio da Conceição encerrou para obras, tendo em vista o seu necessário restauro e a instalação da impropriamente chamada Casa da Autonomia, a que se juntaram  interessantes e infindáveis pesquisas arqueológicas, as bandeiras desapareceram das suas janelas.
Desta vez, a Páscoa é assinalada com coelhos e ovos artificiais, artisticamente colocados em alguns jardins da cidade, para gáudio da criançada e descanso das famílias. Já vi muita gente a fotografá-los com os seus telemóveis e suponho que o conjunto deve estar dando brado nas redes sociais. Os tempos são outros! Feliz Páscoa, para todos!

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.) 
 

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