O Candelabro de Trevas
Rui Brum Ávila

O Candelabro de Trevas

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Escritos em tempo de pandemia (XXIV)

Durante o período da semana Santa uma das épocas mais significativas no calendário religioso para o povo cristão, são inúmeras as cerimónias e ritos praticados nos templos religiosos para celebrar esta data. Muitas dessas cerimónias ou ritos tem séculos de prática e ainda são realizadas nos dias de hoje, outras já se perderam por diversas razões ou por mudanças nas orientações da liturgia ou então acabaram por simplesmente deixar de ser realizadas pouco a pouco até à sua extinção.
Um desses ritos que faziam parte da semana Santa e que nos dias de hoje é praticado em poucos lugares, era o Ofício de Trevas, cuja tradição já vem desde a Idade Média.
O Ofício de Trevas, era praticado no período mais dramático da Quaresma, denominado Tríduo Pascal, na noite de quarta-feira após a meia-noite, através de matinas (na madrugada) e laudes (na manhã), usando a simbologia das luzes de velas usando para isso um candelabro triangular chamado Tenebrário ou Candelabro de Trevas que ficava junto ao Altar-mor do lado direito. Eram quinze as velas que compunham este Candelabro e essas velas eram feitas de cera amarela, menos a última a mais alta que era de cor branca, que representava Cristo.
Ao longo do ofício, ao final de cada um dos salmos, é apagada uma das velas do Candelabro, e também vão se apagando as luzes do templo, de trás para frente, de modo que ao longo da cerimónia a igreja fica progressivamente na escuridão deixando apenas a região do altar iluminada.
Quando resta apenas a vela branca no ponto mais alto do Candelabro e termina o último salmo, essa vela acesa é levada para trás do altar e ai se mantém longe de todos os olhares durante a recitação do Miserere e da oração de conclusão que se segue a esse salmo, ficando a igreja às escuras e em silêncio. Logo de seguida batiam-se as matracas, e o povo batia com os pés no chão simbolizando o trovão e o terremoto que se seguiu na ocasião à morte de Cristo. A vela branca que permaneceu acesa durante todo o rito é então trazida novamente e recolocada no lugar mais alto do candelabro, anunciando o fim do Ofício das Trevas com a luz de Cristo novamente entre nós.
Por cá na ilha do Pico também essa cerimónia era realizada, nos primeiros séculos da nossa história local sendo realizada sobretudo pelos frades Franciscanos nos dois antigos Conventos existentes na ilha o Convento de São Francisco na Vila das Lajes o primeiro a ser fundado e o Convento de São Pedro de Alcântara na Vila de São Roque do Pico, assim como nas Igrejas Matrizes. Com o passar das décadas esse rito acabou por cair em esquecimento em grande parte das paróquias. 
Na Igreja Matriz da Santíssima Trindade nas Lajes ainda existe o Candelabro de Trevas da antiga e hoje desaparecida Igreja Matriz, demolida para se construir a actual, esse Candelabro actualmente está guardado no coro alto encostado ao varandim que dá para o interior da igreja. É uma enorme e magnífica peça de talha centenária medindo mais de dois metros de altura e que felizmente sobreviveu ao passar dos séculos, mas que se encontra envelhecida e com isso degradada, mas que um dia talvez, possa ser restaurada pela própria paróquia ou então por algum benemérito que queira custear este restauro e assim, depois disto voltar a ser colocada num lugar de destaque na Matriz, não só pelo seu valor artístico mas também como valor histórico e cultural.  
Nesta Páscoa, em que nós os Cristãos celebram a morte e a ressurreição de Jesus, possa também ser um momento para o renascimento da nossa fé e da esperança em tempos melhores.
A todos uma Santa e Feliz Páscoa    
 

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