“Os momentos de crise e de privação têm sempre aspectos positivos e um deles é a oportunidade de reflexão e mudança”
Alexandra Narciso

“Os momentos de crise e de privação têm sempre aspectos positivos e um deles é a oportunidade de reflexão e mudança”

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 “Tudo na vida cristã converge para a Páscoa”, destaca ao Diário dos Açores o padre Nuno Maiato. Com início no Domingo de Ramos, é na Semana Santa os cristãos vivem os momentos centrais do ano litúrgico, recordando os momentos da Paixão de Jesus. Depois de uma Páscoa vivida com igrejas vazias, este ano os fiéis já podem participar presencialmente nas celebrações, mas ainda com restrições. Não há lugar para algumas manifestações e ritos tradicionais, mas que acabam por ser “secundários” quando o objectivo é viver e sentir o “essencial” da Páscoa. O pároco da Matriz de Santa Cruz na Lagoa refere mesmo que “a grande mais-valia deste tempo de pandemia é que estamos a viver o que é central na fé Cristã”. “Deus faz nascer flores no meio das pedras”, afirma o sacerdote. 

 

A Igreja Católica vive esta semana o momento alto do calendário litúrgico. Apesar da pandemia, e ao contrário do ano passado, os açorianos já participam nas celebrações presencialmente, ainda que com a ausência de alguns ritos e manifestações, como a cerimónia do lava-pés ou as tradicionais procissões do Senhor Morto. Sem estas tradições, as celebrações vão resumir-se ao que é essencial. 
“Tudo na vida cristã converge para a Páscoa. Aquilo que fazemos durante o ano inteiro, todas as celebrações, orações, todas as práticas de caridade… Tudo tem o seu fundamento na Páscoa de Jesus. Estamos em cada Páscoa a redescobrir aquilo que é essencial da fé cristã, aquilo que fundamenta toda a nossa actividade”,  frisa, em declarações ao Diário dos Açores, o padre Nuno Maiato.
“É certo que não acontecem alguns ritos, tradições e devoções, como as procissões, como o próprio rito do lava-pés na Quinta-feira Santa, ou a adoração da Cruz na Sexta-feira Santa, em que os fiéis costumam saudar a Cruz com um beijo, mas estes ritos não são essenciais”, acrescenta. 
“Apesar de serem uma mais-valia para as celebrações, são secundários”, considera o sacerdote, recordando que as celebrações nesta Semana Santa têm sido “celebrações normais”, quando comparadas com a Páscoa “confinada” de 2020. 
“Este ano nada tem a ver com a Páscoa no ano passado. Houve um vazio que nós não tínhamos forma de ultrapassar”, diz, recordando as missas que celebrou com a Igreja vazia, sem fiéis, apenas em frente a uma câmara, que transmitia para as redes sociais.
O pároco afirma que a diferença do ano passado para este ano é “muito significativa”. “No ano passado nós estávamos confinados e impedidos de nos reunir nas igrejas. Aí sim, houve uma grande ausência da vivência dos Sacramentos e da vivência comunitária da Páscoa, que é muito importante”, relembra.
Quanto à participação dos fiéis nestas celebrações, aponta que “tem sido normal para o que tem sido este tempo de pandemia”.
“É certo que não estamos a ter uma afluência de pessoas e de fiéis como era antes da pandemia. Há pessoas que se têm resguardado por motivos de saúde, por motivos de prevenção e até por comodismo. Mas acredito que a afluência nestas celebrações da Semana Santa tem sido semelhante ao que têm sido os últimos meses, de pandemia”, considera.

Pandemia como oportunidade de purificação

O sacerdote da Matriz da Lagoa frisa que, embora a pandemia de covid-19 tenha colocado muitas dificuldades na vida das pessoas, há um lado positivo a considerar em todo este contexto. 
“No outro dia alguém dizia que ‘Deus faz nascer flores no meio das pedras’. De facto, neste tempo de pandemia, cheio de obstáculos, cheio de pedras, em que estamos limitados em vários aspectos da nossa vida afectiva e social, aquilo que há de positivo, a grande Flor, a grande mais-valia, é que estamos a viver aquilo que é central na fé Cristã. Aquilo que é realmente importante, que dá sentido e verdade à fé”, explica o Padre Nuno Maiato, que deu o exemplo do que aconteceu com as romarias quaresmais, canceladas pelo segundo ano consecutivo.
“Houve experiências interessantíssimas, com ranchos de romeiros que, sem a caminhada física de uma semana, fizeram uma romaria espiritual. Foi uma oportunidade de se focarem no essencial e no que é identitário da fé Cristã e das próprias romarias”, considera o sacerdote.
Para o pároco, “não há dúvidas de que esta foi uma experiência que veio enriquecer a todos. Fomos obrigados a olhar para o principal da Fé”.

Reflexão e mudança
 
Outro aspecto positivo é a oportunidade de reflexão e mudança. “Aquilo que a história da Igreja e do mundo nos vem ensinando é que os momentos de crise e de privação têm sempre alguns positivos. E um destes aspectos é, de facto, esta reflexão e oportunidade de mudança”, afirma.
“Temos a oportunidade de, no limite da nossa existência, vermos que afinal há coisas que não fazem tanto sentido como pensávamos e que não são tão importantes como nós acreditávamos e há outras coisas, das quais nos tínhamos descuidado, mas são as que realmente importam”, explica ainda o Padre Nuno Maiato.
Segundo afirma, desde que a covid-19 passou a ser parte da vida das pessoas, “todos nós nos apercebemos agora, mais do que nunca, da importância de um abraço, de estarmos com os outros. E isto também se reflecte na vida Cristã. Há uma oportunidade de reflectirmos e de darmos um passo à frente”.
“Não é que venhamos a ter Igreja, Famílias e Sociedades perfeitas, pois sabemos que isto nunca acontecerá, mas acredito que alguma coisa se transformará a partir da vivência que estamos a ter nesta pandemia”.

O perigo da indiferença

Questionado se o actual contexto pandémico veio tornar as pessoas mais sensíveis e solidárias, o sacerdote responde: “por um lado sim e por outro não” e explica: “Penso que estamos sensíveis à dor e às vivências mais difíceis e exigentes das pessoas que estão à nossa volta e pelo mundo inteiro. Contudo, esta necessidade de estarmos sempre a par dos números da covid, das estatísticas, e o facto de todos os dias estarmos a falar neste assunto faz com que haja um perigo muito grande: o de nos tornarmos indiferentes”.
Uma indiferença que compara a uma anestesia. “Estamos anestesiados para podermos sobreviver a tantas notícias, tantos números, a tanto sofrimento, ao risco sempre iminente de sermos contaminados. Há esta anestesia que nos torna indiferentes à dor do outro”, explica.
No entanto, salienta estarmos ainda “no meio da tempestade”. “Tudo isto só será devidamente avaliado em bonança, quando a tempestade passar, aí teremos a verdadeira noção dos efeitos que a pandemia deixou na nossa vida e no mundo”.
 
 Vigília Pascal, “a mãe de todas as celebrações”

Os momentos centrais da Semana Santa começaram ontem, Quinta-feira Santa, dia em que se celebrou a Missa Crismal e a Missa da Ceia do Senhor, mas não houve lugar para o ritual do lava-pés. Com a Missa vespertina da Ceia do Senhor inicia-se o Tríduo Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. 
Hoje, Sexta-feira Santa, não se celebra a missa, celebra-se antes a morte do Senhor. O silêncio, o jejum e a oração marcam o dia de hoje, a par da adoração da cruz, este ano sem o beijo na cruz. “É o único dia do ano que em todo o mundo não se celebra a Eucaristia, para se dar lugar à adoração da Cruz, o símbolo maior do Cristianismo”, refere o pároco da Matriz de Santa Cruz da Lagoa.
Amanhã, Sábado Santo, celebra-se a Vigília Pascal, a “mãe de todas as celebrações” da Igreja, que evoca a Ressurreição de Cristo. “O momento alto da Semana Santa é a Vigília Pascal no Sábado. Depois de na Sexta-feira Santa termos celebrado a morte de Jesus, há um silêncio que se prolonga até à noite de sábado, em que acontece a Vigília Pascal. É uma vigília longa, mas cheia de significado, cheia se simbolismos, em que celebramos a vitória da Vida sobre a Morte”, destaca o Padre Nuno Maiato.
 O Domingo de Páscoa seria dia de saírem à rua das procissões da Ressurreição um pouco por toda a ilha, mas esta é mais uma manifestação que não se realiza em nome da protecção da saúde pública.
No caso da Matriz de Santa Cruz da Lagoa, as celebrações serão transmitidas online, à semelhança do que tem sido feito desde o confinamento no ano passado.
O padre Nuno Maiato foi um dos muitos sacerdotes que adaptou as suas missas ao mundo online, através das redes sociais, quando a pandemia impediu os fiéis de se dirigirem às Igrejas. A iniciativa dura até hoje, agora com os emigrantes e idosos como principal público e o pároco salienta ser uma iniciativa para continuar além da pandemia.
Inicialmente, recorda, “acompanhavam as transmissões um número muito grande de pessoas, gente da paróquia, de toda a ilha. Com passar dos meses, o número de pessoas a assistir reduziu, naturalmente, e hoje em dia quem nos acompanha são na maioria emigrantes”.
“É uma alegria saber que estamos a possibilitar aos nossos emigrantes, muitos estão ainda impedidos de participar nas missas presenciais nas suas cidades. É uma alegria enorme podermos possibilitar que estas pessoas, os nossos doentes, pessoas mais idosas e outras possam estar connosco nas nossas celebrações”, salienta, apesar de admitir, a nível pessoal, não ser fã da exposição “muito grande” a que fica sujeito.
 “Seria mais confortável não fazer estas transmissões em directo, mas perante toda esta realidade não há volta a dar e a intenção é continuar com a transmissão semanal da missa ao Domingo para além da pandemia”, revela.
Para estes dias, o sacerdote salienta a necessidade de os cristãos procurarem “celebrar em comunidade a Páscoa” e deixa também “uma mensagem de Vida, que é o que a Páscoa a cada ano vem renovar no coração de cada um de nós”. 
“Com Jesus Cristo, a partir dos seus ensinamentos e do seu testemunho de vida, é possível nós vencermos tudo aquilo que é sombrio, tudo o que são sinais de morte nas nossas vidas. É possível, a partir de Jesus, vencermos tudo isto e valorizarmos este dom maior que é a Vida. Não há nada tão grandioso que Deus nos empreste como a vida”, conclui o sacerdote.
 

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