O dia das petas
Rui Brum Ávila

O dia das petas

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Escritos em tempo de pandemia (XXV)

O dia 1 de Abril é tradicionalmente chamado o dia das mentiras, este ano coincidente como período Pascal e com a quinta-feira santa, primeiro dia do Tríduo Pascal, ao que se julga este dia parece que surgiu em França, no reinado de Carlos IX (1560-1574). Desde o começo do século XVI, o ano novo era comemorado no dia 25 de Março, com a chegada da Primavera, com imensas festas, que incluíam troca de presentes e animados bailes um pouco por todo o lado desde os salões nobres até os terreiros do povo, estes festejos duravam uma semana, terminando no dia 1 de Abril.
Em 1562, o papa Gregório XIII instituiu um novo calendário para todo o mundo cristão, o chamado calendário gregoriano, em que o ano novo começava no dia 1 de Janeiro. O rei francês não gostou dessa mudança e continuou a seguir o velho calendário ainda por algum tempo até que dois anos depois lá aderiu ao novo decreto papal em 1564. Mesmo assim, os franceses resistiram à mudança, muitos a ignoraram e mantiveram a comemoração desta data, mas com um novo sentido, para gozar e lembrar a data do anterior calendário, começaram a criar eventos e situações falsas como convites para festas que não existiam e falsas notícias sobre situações locais ou nacionais. 
Com o tempo, a brincadeira continuou e espalhou-se em todo o país. Com o passar dos anos, saltou para a Inglaterra e daí para todo o mundo anglo-saxónico, sendo conhecido este dia por “April Fools’ Day”, sendo actualmente uma tradição quase globalizada.
Desde esse tempo que, segundo a tradição, neste dia as pessoas contam mentiras que surpreendam os outros com factos, actos ou assuntos falsos.
Para fazer com que as pessoas acreditem na nossa história, devemos contar algo que possa acontecer com naturalidade ou regularidade e temos também de manter a seriedade e não sorrir, não piscar os olhos ou agir desconfiadamente para dar o ar de seriedade e verdade.
Os meios noticiosos, nomeadamente os jornais, um dos meios de comunicação mais antigos, foram os primeiros a aderir a esta brincadeira, depois as rádios e mais tarde as televisões, também começaram a contar “histórias fictícias” neste dia 1 de Abril. No dia seguinte, normalmente estas histórias falsas são reveladas e assim a verdade reposta.
Nos Açores e na ilha do Pico, este dia também é celebrado e é chamado de o “dia das mentiras” “o dia dos tolos” ou então o nome mais conhecido é “dia das petas”.
Em geral, por cá, eram ditas pequenas mentiras aos familiares, vizinhos e conhecidos, nunca nada que prejudicasse nada nem ninguém, pequenas mentiras como: “a vizinha está a chamar por ti, para ires lá a casa”, “o porco ou as galinhas estão fora do curral”, “chegou uma carta ou encomenda da América para ti”, entre tantas outras. Eu próprio, enquanto criança e adolescente, assim como ao longo dos anos, também inventei e criei algumas dessas mentiras, para celebrar este dia e dar umas valentes risadas. 
No final depois, da pessoa descobrir que tinha sido alvo de uma peta por nós inventada, era tradição dizer a essa pessoa esta lengalenga, “peta, peta, passa burro com o carapeta, quem não sabe não se meta”, isto pelo menos no sítio onde vivia, porque em outros lugares e freguesias existiam outras lengalengas diferentes. 
 Nos dias de hoje, com as novas tecnologias aliadas á internet, usando desde computadores, tablets mas sobretudo com o uso de telemóveis e através das redes sociais como o Instagram e o Facebook, estas petas deixaram em grande parte de serem ditas boca a boca, perdendo assim aquelas reacções de momento, cara a cara, que era o que dava a graça e piada a todas estas situações, algumas caricatas e criadas de propósito, passando estas agora a serem feitas nas redes sociais. 
As mentiras agora são mais elaboradas, recorrendo a fotomontagens, por exemplo, ou criando notícias falsas. Notícias falsas, que infelizmente nos dias de hoje, já não se resumem a este dia e já são quase que uma prática recorrente, as denominadas “fake news” surgindo e implantadas por pessoas, organizações, entidades, comunicação social e outros, quando querem atingir determinados objectivos ou influenciar opiniões. 
Com tudo isto, cada vez mais é preciso ter cuidado e atenção para com tudo aquilo que se vê, se lê e se ouve, deixando desta maneira de ser apenas o dia 1 de Abril o dia das mentiras para ser algo que faz parte do nosso quotidiano.
 

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