Páscoa em confinamento

Páscoa em confinamento

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Decididamente o vírus não nos larga, as vacinas continuam a chegar aos Açores por conta-gotas, não há outro remédio senão manter cautelas apertadas, que, está visto, esta doença não é para graças. O Governo Regional vela atento, decretando limitações adequadas e proporcionais, de modo que a tendência é para ser respeitado e obedecido, como se impõe numa sociedade democrática de confiança.
Na nossa Ilha de São Miguel passámos a Páscoa sob severo confinamento, fechados em casa durante três dias, a partir das 3 horas da tarde. Foi duro! Nas igrejas os horários foram adaptados e nem sequer se pôde celebrar a Vigília Pascal, por obviamente só fazer sentido entrando pela noite dentro. A alegria da Ressurreição teve por isso de ser transferida para a manhã do Domingo e mesmo debaixo de vento e chuva ela não faltou.
O recurso para evitar qualquer colapso psicológico esteve, certamente para muitos, na televisão. Através dela foi possível seguir em directo as cerimónias da Semana Santa em Angra do Heroísmo, em Lisboa, em Roma ou em Jerusalém, vencendo as distâncias e ficando em lugar de primeira fila! As mensagens do Papa Francisco foram todas especialmente suculentas.
Em complemento veio a música sacra, com alta qualidade e de várias procedências. A Paixão segundo São Mateus, de Bach, teve várias interpretações, numa espécie de concurso qual delas a melhor. Não pude ver a versão apresentada em Lisboa, na Fundação Gulbenkian, sob a direcção de Michel Corboz, especialista na matéria. Mas há alguns anos atrás lá estive no Auditório, ainda antes das recentes obras de melhoria, com o mesmo Maestro, porém decerto outros solistas e membros da orquestra e coros, e guardo dessa execução uma recordação bem viva.
O canal Mezzo apresentou uma interpretação de Raphael Pichon e do seu Ensemble Pygmalion, especializado em música do período barroco e com instrumentos da época. A gravação era de 2016 e feita na Capela Real do Palácio de Versalhes. A execução da peça dura mais de 3 horas, como é sabido, sendo o canto do texto evangélico conduzido por um tenor, em diálogo com as vozes das outras personagens, cabendo a de Jesus Cristo a um baixo; árias,  algumas delas famosíssimas, e corais de meditação alargam a duração do espectáculo, mas nem sequer se dá por isso, tanta é a força que de tudo isso ressuma. 
Tem sido tentado nos tempos mais recentes dar um certo toque de encenação a esta peça musical. Uma destas experiências foi feita pela Orquestra Filarmónica de Berlim, sob a batuta de Simon Rattle e com a colaboração de Peter Sellars. Fiz questão de rever a gravação em disco, editado pela própria orquestra, e uma vez mais me deslumbrei. A narração cantada pelo Evangelista, num exercício de adesão total à simplicidade e ao sentido dramático do texto, atinge as raias do sublime! Os solistas são acompanhados por pequenos conjuntos instrumentais, habilmente escolhidos pelo Compositor para sublinhar o conteúdo das suas árias. O Maestro dá o tudo por tudo para levar à perfeição os membros do vários grupos corais intervenientes, na execução das partes que lhes competem.
Fui comparar com idêntica experiência das mesmas entidades relativa à Paixão segundo são João. Talvez por ter sido a primeira que escutei, numa tarde de Sábado Santo, na Igreja de são Vicente de Fora, em Lisboa, há já muitíssimos anos, ainda antes do 25 de Abril, tenho por ela uma especial predilecção e sei de memória várias passagens, entre árias e corais. Na interpretação em causa, as vozes são especialmente bem escolhidas e o efeito cénico-dramático atinge o cume ao apresentar, com grande delicadeza, a crucifixão de Jesus, acompanhado por sua Mãe e pelo discípulo amado. A ária do baixo, estendido no chão junto do local onde esteve o corpo de Jesus, mas agora só fica a luz, interrogando sobre os frutos do divino sacrifício, a redenção e a filiação divina, tem um efeito deveras esmagador. E o final não poderia ser mais adequado: o coro promete um louvor perpétuo a Nosso Senhor, em agradecimento pelo seu sacrifício redentor.
Há nesta encenação de ambas as grandes peças de Bach um ou outro excesso, no conjunto aliás desculpável. Já o mesmo não posso dizer de uma outra encenação, que vi no canal Arte, na noite de Sexta-feira Santa, gravada pela Orquestra Sinfónica de Hamburgo num auditório da cidade, sob a direcção de Kent Nagano. Maestro e todos os executantes, cantores e membros da orquestra e coros, apresentavam-se vestidos de branco e o palco estava também revestido de branco. Iniciada a música, começam a surgir em primeiro plano alguns figurantes, trazendo um busto do imperador romano Tibério, depois a caveira de um pobre diabo que se enforcou depois de matar a mulher, isso ainda em pleno século XIX; em seguida empurraram uma camionete deitada de lado, com as rodas viradas para o público, que deveria estar perplexo e até irritado por tal fantochada prejudicar manifestamente o seguimento dos cantores e da orquestra. Falta-me o tempo para prosseguir na descrição do desconchavo. Muito me surpreendeu que no final houvesse aplausos, porque tal espectáculo estava mesmo merecendo uma monumental pateada!

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)  
 

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