“A pobreza envergonhada é uma realidade ainda muito presente e frequente”
Rita Frias

“A pobreza envergonhada é uma realidade ainda muito presente e frequente”

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Entre Janeiro e Março, foram feitos mais de 250 pedidos por famílias à Cáritas em São Miguel

Face à época pandémica em que nos encontramos, muitas pessoas viram-se obrigadas a pedir ajuda devido a várias problemáticas que surgiram nas suas vidas, nomeadamente o desemprego. Filipe Machado, Director Técnico da Cáritas de Ilha de São Miguel, revela como correram os três primeiros meses do corrente ano e como tem sido feito o trabalho da instituição. As solicitações têm sido feitas sobretudo por desempregados, beneficiários do Rendimento Social de Inserção, com carência económica grave, com idades compreendidas entre os 25 e 55 anos. Alimentação, vestuário e bens para o lar constituem “a grande fatia” dos pedidos que chegam às Cáritas da maior ilha do arquipélago. O responsável desta instituição revela ainda que, apesar de tudo, a população e empresas locais também ajudam a responder aos pedidos que se fazem chegar. 

 

Diário dos Açores - Neste primeiro trimestre de 2021, foram feitos muitos pedidos de ajuda?
Filipe Machado
- Em termos gerais, o volume de solicitações entre Janeiro e Março acompanhou a média verificada no ano de 2020, sem oscilações de relevo. No período em referência, foram canalizados para o Centro de Recursos de Apoio à Emergência Social (CRAES) cerca de 260 pedidos de apoio. Ao nível da Equipa de Atendimento Social, constatou-se um ligeiro aumento do número de pedidos de apoio relativamente ao período homólogo do ano transato.

É possível fazer um retrato dos pedidos de ajuda que vos têm chegado?
FM
- No caso do CRAES, 65% dos pedidos de apoio estão relacionados com vestuário, calçado e bens para o lar, como roupa de cama e atoalhados. Os restantes 35% referem-se a mobiliário, designadamente camas, móveis para arrumação de roupa e electrodomésticos. Na sua maioria, as solicitações provêm de agregados familiares com dois ou mais filhos, desempregados, beneficiários do Rendimento Social de Inserção, com carência económica grave, com idades compreendidas entre os 25 e 55 anos de idade.Relativamente à Equipa de Atendimento Social, o público é mais diversificado, muito dele em situação de desemprego e/ou de insuficiência de rendimentos, precaridade económica e laboral, e com idades acima dos 40 anos. Os pedidos de ajuda estão sobretudo ligados à alimentação e, neste contexto, reforçamos o papel que a Cáritas dos Açores tem tido na canalização de vales de compras para as freguesias de São Miguel mais fustigadas pela pandemia, designadamente a de Rabo de Peixe. 

Qual tem sido a resposta da Cáritas? Conseguem chegar a todos os pedidos?
FM
- À data de hoje, já foram atribuídos apoios a cerca de 75% de todas as solicitações encaminhadas para o CRAES, graças à generosidade da população e das empresas locais. No caso da Equipa de Atendimento Social, todos os pedidos foram correspondidos também devido à ajuda dos Núcleos Cáritas e da Cáritas Açores.

Existem zonas de São Miguel de onde provenham mais pedidos? Ou veem de toda a ilha?
FM
- Na sua generalidade, os pedidos dirigidos provêm de toda a ilha de São Miguel, com especial incidência nos concelhos de Ponta Delgada e de Ribeira Grande, nomeadamente da freguesia de Rabo de Peixe.

Com o fim das moratórias bancárias, que terminou no passado dia 31, que preocupação têm relativamente com os efeitos que esta pode trazer? A situação irá piorar? Agora é que se irá ter uma verdadeira noção da dimensão da crise social e da pobreza?
FM
- Esta não é uma questão de fácil ou simples resposta. Talvez seja prematuro afirmar que a verdadeira crise social está iminente pois existem inúmeros factores envolvidos nessa problemática. Todavia, é expectável um aumento do número de pedidos de apoio, fruto de um agravamento do desemprego e da perda de rendimentos. Por isso, é importante que as pessoas conheçam as respostas e as tipologias de ajuda disponíveis nas diversas entidades que intervêm no âmbito do apoio social. Só assim a intervenção será mais rápida e eficaz.

Tendo em conta as exigências sanitárias derivadas da situação pandémica, como se lida com esta situação?
FM
- As exigências sanitárias nunca foram uma barreira à intervenção da instituição. Podem dificultá-la em termos operacionais e logísticos, mas há que enaltecer a forma como os nossos serviços técnicos têm procurado soluções alternativas, e muitas vezes criativas, com vista a manter os apoios junto de quem os solicita. É este o lema que esta instituição tem seguido face à conjuntura actual. 
Além disso, a Cáritas de Ilha de São Miguel não trabalha sozinha. Intervém em estreita articulação com as suas entidades parceiras do Pólo Operacional de Exclusão Social Grave, coordenado pelo Instituto de Solidariedade Social dos Açores, como a Associação Novo Dia, a ARRISCA, o Centro Ocupacional da Câmara Municipal de Ponta Delgada, a Casa de Saúde São Miguel, entre outras diversas entidades públicas e privadas, nomeadamente os serviços de acção social de zona.

Relativamente à vossa rede de apoio, mantém-se? Verifica-se um fenómeno em que quem ajudava, agora também necessita de ajuda...
FM -
Não só se mantém como aumentou, uma vez que a maior rede de apoio provém da própria comunidade. Desde o início da pandemia, constatou-se um aumento do volume de doações, especificamente de vestuário e de mobiliário, o que demonstra um grande sentido de generosidade da população em tempos particularmente difíceis. Tempos estes que poderão efectivamente levar a que algumas pessoas que normalmente ajudam possam precisar de ajuda.

Ainda existe muita “pobreza envergonhada”?
FM
- Esta é uma realidade ainda muito presente e frequente. Porém, há que esclarecer que a maioria dos pedidos de apoio chega à Cáritas de Ilha de São Miguel por via do Instituto de Solidariedade Social dos Açores (ISSA), provenientes de agregados familiares ou indivíduos previamente referenciados e acompanhados. Por vezes, a instituição recebe pedidos directos de ajuda, muitas vezes através das redes sociais, por intermédio de conhecidos ou de vizinhos (rede de suporte), sendo percetível que se trata de pessoas que não procuram os serviços por vergonha.

Que expectativas têm para o resto deste ano? Creem que os pedidos de apoio irão aumentar?
FM -
Com a concretização do plano regional de vacinação ao longo dos próximos meses, estamos certos de que a conjuntura actual no quadro da saúde pública tenderá a melhorar. No entanto, prevê-se um agravamento das consequências da pandemia no plano social e económico, designadamente ao nível do desemprego e da perda de rendimentos. Em todo o caso, no âmbito das suas áreas de intervenção, a Cáritas de Ilha de São Miguel e os seus Núcleos estarão atentos e preparados para, com mais ou menos dificuldade, manter a ajuda junto dos mais vulneráveis e desfavorecidos.
jornal@diariodosacores.pt
 

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