Para Além da Natureza
Nuno Costa Santos

Para Além da Natureza

Previous Article Previous Article Praça Gonçalo Velho. Uma pedrada no charco
Next Article CGTP-IN apela à criação de um plano regional de combate ao trabalho precário nos Açores CGTP-IN apela à criação de um plano regional de combate ao trabalho precário nos Açores

Crónicas do Corpo Santo

Somos o coração verdejante e o mundo já reconhece isso. Reduto excelente para receber pessoas que sabem valorizar o ambiente. Acumulamos várias medalhas que reconhecem que estamos nos primeiros lugares da relação de equilíbrio entre o homem e a Natureza. Temos, nunca demais lembrá-lo (para preservá-lo), várias zonas que mereceram o selo de reserva da Biosfera, essa categoria da UNESCO focada no equilíbrio entre os homens e os ecossistemas e na defesa da Biodiversidade. A mesma organização classificou os Açores como um dos destinos com as melhores práticas de protecção do património subaquático. Registei-o há um ano nesta coluna: a carta arqueológica subaquática do arquipélago foi considerada, também pela UNESCO, como um dos cinco exemplos que representam as melhores práticas para a proteção do património cultural subaquático, a par de projetos em Espanha, França, México e Eslovénia. A maior parte dos açorianos não sabe disso – da consagração açoriana neste plano, fruto de um esforço de anos - e merecia sabê-lo. O nosso jardim marítimo é tão valorizado como o outro. Já que tocamos no assunto barcos, um dado para lembrar: numa altura em que a navegação era feita tendo como base os corpos celestes, os navegantes oceânicos orientavam-se pela parte ocidental dos Açores com o objectivo de acertar as suas rotas. Éramos a bússola. O ponto de referência.
Temos o reconhecimento pela Natureza, sim. Falta o (merecido) reconhecimento pela cultura. Não de modo excepcional mas com um sentido de conjunto. Sabemos o que valemos como histórico e como potencial cultural e falta que outros o conheçam. Por necessidade? Por uma questão de amor próprio? Sim. Como escreveu um dia Machado Pires, as comunidades precisam de reconhecimento. Mas também por justiça. Para connosco e para com o mundo. Que merece conhecer essas ilhas ainda desconhecidas sob o ponto de vista cultural e nas quais ainda se pode tanto fazer. Somos, além de um museu e de um corpo patrimonial, uma residência artística no meio do Atlântico. Para os de dentro e os de fora. Também já o escrevi nestas Crónicas do Corpo Santo: não somos do “bairro” (somos da freguesia) mas ainda estamos agarrados ao bairrismo. Joguemos com isso, antes de mitigar a questão. Cada ilha açoriana é um bairro no meio do mar. Temos nove bairros, sim. Com graves problemas em termos de pobreza, de educação, de abandono escolar, de participação cívica e política. A coesão entre as ilhas ainda tem muito caminho para andar. Importante ir melhorando os números, que é como quem diz as vidas, e perceber que o mar e o ar podem unir.
A circunstância de Ponta Delgada se candidatar a Capital Europeia da Cultura tem uma dupla função: a de procurar aproximar, culturalmente, as ilhas, desmontando preconceitos, e de as afirmar no mundo como identidade e cultura. Todo o arquipélago será envolvido, os artistas de todas as ilhas serão convocados. Constitui o gesto também uma decorrência e um aprofundamento naturais de um movimento que tem crescido de forma orgânica, com uma abertura e uma diversidade que têm vindo a ser semeadas ao longo do tempo. A candidatura é também um incentivo para que Ponta Delgada, em particular, e os Açores, em geral, se dotem de uma maior “capacidade cultural”. A propósito: hoje há uma sessão de esclarecimento sobre o assunto (as pistas para o evento estão aqui: https://www.facebook.com/events/625355971774349/)
Depois de se ter constituído como povoação, obteve o título de cidade em 1546 não só devido ao seu desenvolvimento económico e social mas também pelo facto de o seu porto servir de apoio às naus da Índia que aportavam para fazer descansar os viajantes e se reabastecerem. Três séculos depois, no século XIX, afirmou-se como lugar próspero, com vasta exportação de laranja para a Europa continental e para a Inglaterra, arborizada, dado o número de jardins então criados, e cosmopolita, devido à chegada de inúmeros cidadãos estrangeiros. Cedo, a cidade passou, pois, a constituir um relevante ponto de escala na navegação nacional e internacional, a assumir uma posição geoestratégica determinante e a representar um lugar de cruzamentos e de encontros culturais vários. A ligação com a Europa, em particular, também se efetivou através do facto de a educação dos jovens da burguesia local englobar uma viagem pelas principais capitais culturais europeias. Hoje, jovens açorianos de várias classes sociais viajam com frequência para países europeus e muitos deles para aí emigram.
Merecia ser mais conhecida e celebrada a sua tradição intelectual, feita de cafés e tertúlias e simbolizada, por exemplo, numa funda vocação jornalística. O dado ainda é um motivo de espanto. Por isso, recordo, mais uma vez, que o mais antigo jornal português em circulação chama-se Açoriano Oriental - que também é um dos dez mais antigos de todo o mundo a ser publicado de forma contínua e regular. Nunca é demais fazer um sublinhado: est representa, desde há muito, uma urbe com forte tradição em várias artes, dos mais distintas raízes, e tem-se vindo a afirmar, com cada vez mais força, como um sítio de vivos eventos culturais que vão da música às artes visuais, passando pela literatura, pela dança e pelo teatro. Encontros estes que aliam práticas ancestrais e contemporaneidade. Costume e experiência.
A caminho dos seus cinco séculos de existência, Ponta Delgada é, hoje, uma cidade plural, destinada a ser renovada no seu centro histórico, para se tornar um lugar com menos carros e uma respiração mais aberta. Uma cidade de conventos e galerias de arte. De livrarias e de lojas de bijuteria. De bailes de debutantes e concertos em lojas de roupa. De bifes com massa de malagueta e menus vegetarianos. De centros comerciais e mercados municipais. De grandes marinas e jardins românticos. De lojas de discos e tabacarias. De grupos corais e rappers. E de múltiplos equipamentos, que lhe permitem acolher eventos das mais diversas áreas artísticas e culturais.
Ah, declaração de interesses. Faço parte da equipa da candidatura. E o leitor, caso o queira, também.

Share

Print

Theme picker