Praça Gonçalo Velho. Uma pedrada no charco
Teresa Nóbrega

Praça Gonçalo Velho. Uma pedrada no charco

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A zona antiga das cidades, mais conhecidas pela designação de centros históricos, correspondendo geralmente ao local onde os burgos tiveram origem, pelas suas características arquitectónicas e materiais de construção conferem identidade às cidades e recordam a história das suas gentes. 
Com a reabilitação dos centros históricos pretende-se preservar a identidade da cidade, contrariando a degradação do edificado da zona histórica e a sua desertificação. A reabilitação obedece sempre a determinados critérios, um dos quais é a selecção dos materiais de construção historicamente utilizados. Os materiais pesados, como a pedra, por razões óbvias, foram sempre provenientes das pedreiras existentes na região. Este é um dos princípios basilares de qualquer reabilitação urbana. Ignorar isso é tirar a alma da cidade e a sua identidade.
No projecto de reabilitação da Praça Gonçalo Velho Cabral, a zona mais emblemática do centro histórico de Ponta Delgada, onde ficam as Portas da Cidade, apresentado no dia do 475.º aniversário da cidade, continua-se a persistir na utilização do calcário, um material importado e totalmente estranho à nossa realidade geológica, violando deste modo uma das regras fundamentais da reabilitação de qualquer centro histórico. Reabilitar sim, mas sem adulterar a nossa identidade. 
Copiar a calçada lisboeta foi um erro de que muitas cidades e vilas portuguesas já se começaram a redimir com a remoção dessa calçada, que de tão divulgada por todo o país até tomou o nome de calçada portuguesa. A cidade pioneira desse movimento de redescoberta da identidade perdida foi o Porto com a sua prestigiada Faculdade de Arquitectura.
Entre as muitas cidades que já começaram a reconciliar-se com a sua história destaca-se nos Açores a cidade da Ribeira Grande, onde os passeios do seu centro histórico foram reabilitados com o nosso basalto serrado, indústria importante naquele concelho. 
Em Ponta Delgada a última obra de destaque no centro da cidade, a reabilitação do Largo do Colégio, já obedeceu a esse critério. Idêntica preocupação está patente no projecto de requalificação do Mercado da Graça. Não se entende, portanto, por que razão o projecto apresentado para a zona das Portas da Cidade contrarie a normalização das regras de reabilitação dos centros históricos.
O que resta dos antigos passeios de Ponta Delgada são dois pequenos troços na Rua Ernesto do Canto, um deles junto ao Tribunal de Contas. Esta a dimensão da destruição da nossa identidade perpetrada por sucessivas vereações durante um século.
Em ano de eleições autárquicas é tempo de debater que cidade queremos e fazer o levantamento dos erros do passado para melhor construir o futuro e nos reconciliarmos com a nossa história. Decididamente não é tempo de lançar uma obra polémica projectada sobre o joelho só para se deixar um nome gravado numa placa inaugural.


*Jornalista
(A autora escreve segundo a antiga ortografia)

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