É na ilha do Pico que se encontra o mais jovem produtor de vinho da Região
Rita Frias

É na ilha do Pico que se encontra o mais jovem produtor de vinho da Região

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Lançou recentemente os seus três primeiros vinhos, estando para breve a sua venda por várias ilhas do arquipélago

Em Agosto de 2020, Lucas Amaral, natural da ilha do Pico, abriu a sua própria adega, aos 19 anos de idade, no concelho da Madalena. Cresceu no “meio” das vinhas da sua família, tendo ido estudar para Trás-os-Montes com o objectivo de aprofundar conhecimentos na área de vitivinícola. No início deste ano, o jovem picoense recebeu o Prémio de Mérito e Excelência da Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Carvalhais/Mirandela, escola onde se formou. Através do seu empreendimento, não só pretende aumentar a capacidade de produção no Pico, mas também inovar o mercado regional e produzir vinhos distintos. Sendo uma adega em que “o trabalho é praticamente feito à moda antiga”, é algo que a diferencia e que quem a visita, gosta. A Adega Vitivinícola de Lucas Lopes Amaral, assim designada, é também um projecto de família, a quem o jovem agricultor agradece, com especial destaque para os seus pais.

 

Diário dos Açores - Saiu com apenas 16 anos de idade da ilha para estudar em Trás-os-Montes. Fale-nos um pouco sobre esta experiência e principalmente como surgiu o gosto pela área da vitivinícola. 
Lucas Amaral -
Fui criado nos “currais de vinha” da minha família e desde muito cedo, percebi a “aspereza” da vitivinicultura da ilha do Pico. Mas isso não me demoveu e quis saber mais e complementar a experiência prática transmitida pelos meus pais com conhecimento técnico e científico. A ida para Trás-os-Montes para ingressar na Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Carvalhais/Mirandela no Curso de Vitivinícola prendeu-se basicamente por esses motivos que citei a cima e como não tinha, na altura, nenhuma escola nos Açores com este curso, decidi procurar mais além. A experiência foi óptima. Aprendi novas técnicas. A direcção da escola, os funcionários, os colegas e sobretudo os professores, sempre me apoiaram e ajudaram em tudo o que precisei. Em Mirandela, em vez de me chamarem pelo meu nome, chamavam-me “o Açoriano”, e claro que para mim era motivo de orgulho de ser chamado, carinhosamente, assim. Fiz imensos amigos e estou eternamente grato à EPA Carvalhais/Mirandela pela minha formação porque foi essa que me fez chegar até onde estou hoje. 

Porque decidiu criar a adega? Qual a história por detrás deste investimento vitivinícola?
LA
- As razões foram essencialmente porque era este o meu sonho e também pela falta de capacidade por parte das nossas adegas para laborar todas as uvas produzidas na ilha. Mais uma adega é sempre uma mais-valia para uma ilha como o Pico (a ilha das vinhas) e também foi um modo de ajudar os produtores a escoar as suas uvas. Foi difícil porque não tive nenhuma ajuda governamental. O financiamento foi feito pelos meus pais, que apostaram em mim. Tive também a ajuda dos meus avós, do meu tio Jorge Amaral, da minha tia Nélia Amaral e de algumas entidades locais.

Podemos dizer que é um projecto de família.
LA
- Os meus familiares têm-me ajudado neste projecto. Os meus pais têm sido fundamentais. Porém, se tudo correr como estou prevendo, devo precisar de contratar já este ano. Até porque também fiz sem simultâneo um projeto vitis, cerca de 100 alqueires, e arrendei cerca de 100 alqueires de vinha. Vou necessitar de mão-de-obra para fazer a manutenção dessas vinhas.

Quais são as castas utilizadas?
LA
- As brancas são o Fernão Pires, o Arinto dos Açores e o Verdelho. As tintas são o Merlot, o Syrah, o Cabernet e a Agronómica.

Onde podemos encontrar os vinhos produzidos? E para quando estão previstas as vendas em São Miguel?
LA
- Na ilha do Pico, os vinhos poderão ser encontrados na Adega, em alguns comércios e sobretudo na Restauração. Na Ilha do Faial neste momento podem ser encontrados no Cantinho das Provas. Nas outras ilhas, como em São Miguel, posso adiantar que tenho recebido muitos contatos de distribuidores. Estamos a analisar as propostas e brevemente iremos nos associar exclusivamente a um deles como é evidente.

O mercado regional é a grande aposta? E a nível nacional?
LA
- Tendo em conta a reduzida dimensão da Adega é evidente que o Mercado Regional é a nossa grande aposta, até porque a nossa produção é limitada em comparação com as outras Adegas do Pico. Contudo, também já tivemos contatos de distribuidores nacionais que demonstraram bastante interesse em colocar o meu vinho além-mar.

E qual é o público-alvo?
LA
- O público-alvo é sem dúvida os apreciadores de um bom vinho produzido na ilha do Pico com as características que só o nosso vinho tem.

Relativamente aos terrenos a serem preparados para as vinhas, como é feito todo este processo? 
LA -
A reabilitação e reestruturação das vinhas do Pico são feitas em terrenos que, embora outrora fossem totalmente plantados de vinha, actualmente encontram-se repletos de arvoredo. Assim sendo, há que fazer a sua devida limpeza. Para isso, todas as árvores, conhecidas na ilha do Pico, como faias e incensos, são cortadas com um motosserra, colocadas em um amontoado e posteriormente queimadas. Em seguida, temos que refazer os famosos currais de pedra que, devido às intempéries e aos sismos que se fazem sentir nas ilhas, estão totalmente ou parcialmente destruídos. Esta arquitectura tem como objectivo proteger as videiras dos ventos fortes e da maresia. Finalmente, fazemos a plantação das plantas de vinha com as castas que mais se adequam ao tipo de terreno. Reabilitar e reestruturar as vinhas da ilha do Pico é um processo excessivamente trabalhoso, associado a um esgotamento físico extremo. Contudo, após finalizarmos os trabalhos a satisfação de dever cumprido é extraordinária.

Como se podem atrair produtores e mão-de-obra mais jovem para este sector?
LA
- Sinceramente, é difícil. Isto é uma daquelas coisas que tem que se gostar muito de fazer. É um trabalho árduo que requer muita força braçal. Não se pode utilizar máquinas nas vinhas de currais. Temos que fazer tudo com as nossas mãos. 

O vinho é certamente um promotor turístico da ilha do Pico...
LA
- Sem dúvida alguma. Cada vez mais os turistas que nos visitam procuram conhecer as nossas Adegas, as nossas vinhas e instruir-se sobre todo o trabalho que está por detrás dos nossos excelentes vinhos.

Para quem se deslocar ao Pico, que vinhos sugere? 
LA -
Devo-lhe dizer que todas as Adegas que estão, neste momento, a produzir vinhos no Pico, e do Pico, tem excelentes vinhos. Cada um com as suas características que os diferenciam, mas todos eles excelentes. Se me pedir para sugerir um vinho produzido no Pico, totalmente diferente dos que a ilha estava habituada a produzir, sugiro o meu CADMARVOR – Fernão Pires IG Açores que é o único vinho produzido nos Açores somente com a casta Fernão Pires. É um vinho diferente que prima pela qualidade.

Considera as redes sociais uma grande aposta no que se refere a estratégia de marketing? Como será feita a promoção da Adega?
LA
- Sem dúvida. Tenho feito a promoção da Adega e dos vinhos através das redes sociais, partilhando a página da Adega e todas as suas actividades em grupos relacionados com vinhos e também em grupos de promoção dos Açores. Como neste momento, não consigo contratar uma empresa de marketing, tenho que promover e publicitar a Adega e os meus vinhos desta forma. Também tenho um site de vendas online que deverá estar em pleno funcionamento dentro de poucos dias.

A adega abriu em tempos de pandemia, neste caso, no primeiro ano. Tem sido um desafio? 
LA -
Tive imensas visitas durante as últimas vindimas. Como é uma Adega pequena e todo o trabalho é praticamente feito “à moda antiga” sem maquinaria, os turistas que visitaram acharam interessante e completamente diferente do que viam nas outras Adegas maiores e mais mecanizadas.
Todas as pessoas podem visitar a Adega. Mas como é óbvio, com todos os cuidados que são impostos derivado ao Covid-19, tomando todas as medidas de higiene e segurança que às quais a lei obriga. 

Que balanço fazes ao fim destes meses? E perspectivas para o futuro?
LA
- Estou extremamente satisfeito pelos meus vinhos terem sido certificados pela CVR Açores com pontuações que considero notáveis, tendo em conta que são os meus primeiros vinhos e que nem sequer consegui adquirir um sistema de frio, essencial para os vinhos brancos. 
Desde que coloquei os meus vinhos no mercado, na semana passada, todos têm tido imensa procura. Tenho tido um ótimo feedback de todos aqueles que têm provado. Em relação ao futuro, espero continuar com este projecto e continuar a inovar e a colocar vinhos do Pico diferentes e de enorme qualidade no mercado.

Há alguma novidade que esteja reservada para breve?
LA
- Sim. No início do próximo mês, pretendo lançar no mercado o primeiro vinho Branco de Uvas Tintas dos Açores. Tal como o nome diz, é um vinho branco feito com uvas de castas tintas europeias. É, tal como o Fernão Pires, um vinho diferente daquele que habitualmente é produzido cá. Contudo, decidi apostar nestes dois vinhos porque tenho a certeza que os apreciadores de vinho vão gostar imenso e também porque quero inovar o mercado dos vinhos dos Açores, bem como produzir vinhos distintos.
 

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