Filipe de Edimburgo nos Açores

Filipe de Edimburgo nos Açores

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O falecimento do Príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, marido da Rainha Isabel II, a poucos meses de completar 100 anos, permite-me evocar a sua estadia nos Açores, em data que não consigo precisar, mas que deve ter sido nos finais da década de 80 ou começos da de 90 do século passado.
Julgo que as nossas ilhas seriam então um dos poucos lugares do planeta Terra ainda não visitados pelo Príncipe Filipe. Marinheiro de profissão, participante em acções  de combate na II Guerra Mundial, quando a Royal Navy ainda andava perto de dominar os mares, conheceu muitos portos e passou por muitas terras, um pouco por todo o Mundo, ainda antes do seu casamento com a herdeira da coroa do Império Britânico e mesmo depois, enquanto se manteve ao serviço.
Com a subida ao trono e posterior coroação da Rainha, teve de abandonar a sua carreira, que aliás se afigurava promissora, mas nem por isso passou a viajar menos, correndo a partir de então, sempre dois passos atrás da Soberana ou sozinho, os territórios do antigo Império, agora convertido em Commonwealth, que se estendem pelos cinco continentes, e os inúmeros países amigos  e aliados do Reino Unido, em visitas de Estado e semi-oficiais, que a presença de uma tão Alta Entidade nunca se pode qualificar de estritamente privada.
Foi nestes últimos termos que se verificou a visita do Duque de Edimburgo aos Açores. Alguns anos antes tinha vindo  um dos filhos, o Duque de York, em viagem de núpcias, aterrando os recém-casados nas Lajes em vôo directo desde Londres, para logo embarcarem no iate real Britannia, para um cruzeiro pelo Arquipélago. Antes da viagem de regresso, despediram-se das Autoridades Regionais e agradeceram o acolhimento com um jantar a bordo, no termo do qual nos ofereceram fotografias autografadas. Tive a minha em exposição no Palácio de Sant’Ana, até que o casal se desfez.
O Príncipe Filipe veio discretamente, esteve hospedado nas instalações, na Terceira, do Ministro da República, cargo ao tempo ainda existente, e percorreu algumas das nossas ilhas em passeios turísticos, sem grandes burburinhos, tanto quanto me lembro. O último dia da sua estadia ficou reservado a São Miguel e aí é que se acumularam alguns problemas, levados por todos os intervenientes com a melhor disposição e até com o sentido de humor tipicamente britânico, isso da parte do nosso visitante.
Organizei, como Presidente do Governo, um almoço em honra do Duque de Edimburgo, nas Furnas, no palacete do Parque Terra Nostra, então acabado de restaurar pela empresa dona do hotel e do belo jardim. Naturalmente, todos os intervenientes se esmeraram para que a ocasião permitisse saborear o melhor que há na nossa Ilha de São Miguel.
Aconteceu, porém, que nessa mesma manhã ocorria a sessão de encerramento do Congresso da Juventude Social Democrata e eu estava escalado para discursar no final dos trabalhos. Tudo se passava no Hotel Baía Palace, em Água d’Alto, portanto a meio caminho para as Furnas, prevendo-se não haver problemas de horários. Mas, fosse por demora na contagem dos votos do acto eleitoral dos novos órgãos dirigentes da organização, fosse por ter sido tomado muito a sério o cerimonial de empossamento dos mesmos, fosse por os oradores que me antecederam terem preparado discursos muito compridos, ainda por cima interrompidos por aplausos entusiásticos e frequentes, o certo é que o tempo ia passando e aquilo nunca mais acabava...
Não havia então ainda telemóveis, mas as linhas ferviam com mensagens lancinantes provenientes do hotel das Furnas,  que me eram logo feitas chegar à Mesa, anunciando que o Duque e os demais convidados já estavam à minha espera, já tinham feito o passeio completo do parque, já tinham até tomado os aperitivos e só se aguardava a minha chegada para se dar início ao almoço. Todos os meus colaboradores envolvidos na preparação da recepção ao Príncipe Filipe estavam horrorizados com a tremenda falha de protocolo, e eu mais do que todos eles. Ainda sugeri que fossem almoçando e que eu acabaria por chegar quando chegasse, mas isso o  Duque de Edimburgo não consentiu!
Finalmente, despachei o discurso que tinha escrito para o Congresso e fomos pela estrada fora na máxima velocidade consentida pelas bem conhecidas curvas e contra curvas, que não é possível evitar. O resultado foi chegar ao destino tonto e meio nauseado, de tanto balanço apanhado no banco de trás do automóvel, o experiente motorista branco como a cal da parede...
Desfiz-me em desculpas, quanto pude, e passámos logo para a mesa, lastimando as iguarias semi requentadas, que tinham sido preparadas para bastante tempo antes. Para começo de conversa perguntei ao Príncipe se tinha gostado de ver as árvores exóticas do Parque; numa das suas habituais tiradas, disse que não tinha visto nenhuma que já não conhecesse no seu habitat próprio, o que é natural para quem tinha viajado pelo inteiro globo terrestre. O diálogo prosseguiu, amavelmente e sem qualquer azedume e não faltou o tradicional brinde, à inglesa, pela Rainha. 

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)   
 

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