As “Comédias” dos Arrifes
Creusa Raposo

As “Comédias” dos Arrifes

Previous Article Previous Article Ilha de S. Miguel vai passar para Alto Risco
Next Article Quinta-feira, 15 de Abril de 2021 Quinta-feira, 15 de Abril de 2021

Patrimonium Nostrum

Durante várias décadas a freguesia dos Arrifes foi animada pelo Teatro Popular. Segundo A. Machado Guerreiro a ilha do Arcanjo São Miguel foi o local “(…) onde mais teatro popular se terá criado e representado (…)”em Portugal. Nos Açores era designado habitualmente por comédia, nomeadamente ao ar livre. Esta tradição terá provavelmente florescido na segunda metade do século XIX, declinando durante a década de quarenta do século XX, na freguesia em estudo.

“Quem esta história ler
Verá o que lhe atraí
E o que custa a sofrer
A falta de mãe e pai.”
(Victorino Raposo In Verdadeira História de Alfredo e Sarafina)

Da representação faziam parte geralmente o aviso, a embaixada, a entrada, a lôa, o vilão, o drama propriamente dito e a despedida, podendo algumas comédias não incluir todas estas etapas. Eram representadas ao ar livre sem cenário. Optavam por um local “amplo com uma bonita paisagem para montarem um pequeno palco”. Geralmente no adro da igreja ou próximo deste, numa praça ou terreiro. Todos os papéis eram desempenhados por homens, alguns vestidos de mulher, nomeadamente os mais jovens.
As peças eram redigidas, ensaiadas e exibidas pela camada mais baixa da sociedade. A grande maioria quer dos actores, quer dos autores era analfabeta. Os actores decoravam ouvindo pacientemente a leitura do texto e repetindo.
Tal como em toda a ilha, o teatro popular teve grande aceitação por parte do público na freguesia, de tal forma que gerou vários actores amadores e autores de comédia popular, sendo possível identificar três arrifenses: Jacinto de Farias, Daniel de Arruda e Victorino Raposo.
Jacinto de Farias surge como um dos autores das duas variantes micaelenses do “Drama de Inês de Castro”, que Maria do Bom Sucesso afirma ser umas das peças mais queridas e frequentemente representada. O poeta popular conta ainda com uma obra editada, intitulada: Grande Comédia da Vida de D. Ignez de Castro de 1917. Curiosamente a freguesia vizinha da Relva reclama a sua naturalidade, através da obra: Monografia da Relva, da própria junta de freguesia. Alega-se que o poeta nasceu em 1871 junto ao Canto da Pia na Estrada Regional. A freguesia prestou-lhe homenagem, descerrando uma lápide na casa onde nasceu e atribuiu-lhe o diploma de mérito pessoal em 2005. As fontes orais apontam o poeta como o “Gil Vicente dos Arrifes”, o que nos leva a pensar se estaremos perante a mesma pessoa.
 A Daniel de Arruda é atribuída uma comédia popular: Drama de João de Calais. A sua peça foi passada a escrito por Manuel da Costa, por o autor ser analfabeto, no entanto, era mais conhecido pelas quadras repentinas do que pelas ditas comédias.

“O pobre do Jacinto Pedro
Mercador na Ribeirinha
Vigiava a sua esposa
Como o Melro na couvinha
(…)

Estava a pensar nestas coisas
Quando passava o brasileiro
- Vem cá querido José
Meu amante verdadeiro
(…)
As coisas que eu adivinhava
Igualmente aconteceram
Estavam na brincadeira
Quando à porta bateram
(…)”
(Victorino Raposo In Verdadeira História de Jacinto Pedro)

Quanto a Victorino Raposo cabe-lhe a autoria de várias obras, entre quais: Drama de Norberto e Elvira; Verdadeira História de Jacinto Pedro; História de Jacinto Farias; A Verdadeira História de Dona Baptista; Verdadeira História de Alfredo e Sarafina; Verdadeira História de João de Calais; Drama do Segredo Terrível e Drama de Santa Genoveva (esta com cinco versões). Ainda em vida viu divulgado no jornal A Actualidade duas das suas obras. Em 1913, ano em que faleceu, foi publicado nos Estados Unidos o seu livro, intitulado: Grande Drama em Verso da Vida de Santa Genoveva. Conhecido em toda a ilha por não se limitar a representar somente na freguesia e arredores era um dos poetas preferidos no seu tempo.
Em meados do século passado o teatro popular caiu em declínio, no entanto, um dos locais que servia de palco para as cantigas ao desafio, comédia e revista, viu algo novo nascer: o Cine Arrifes. Foi fundado por iniciativa de Isabel Machado, comerciante na localidade e popularmente apelidada por “Isabelinha dos Queijos”. Inicialmente conseguiu um empréstimo de algumas máquinas do cinema da Calheta, proporcionando sessões ao ar livre. No final da década de cinquenta do século XX, teve lugar a construção de um edifício destinado à sétima arte. Alguns filmes de maior sucesso foram: Samson and Delilah (1949); Quo Vadis (1951); Salomé (1953); L’angelo Bianco (1955); Ben Hur (1959) e A Vida de Jesus Cristo (1971). Os camarotes e a plateia esgotavam frequentemente, inclusive com pessoas de fora da localidade, em sessões e matinés durante o fim-de-semana. O cinema contava ainda com uma bilheteira exterior, um bar, um vigilante e um vendedor de pipocas.
Após o falecimento da Sr.ª Isabel, na década de oitenta do século passado, o edifício foi vendido e actualmente corresponde a uma sucursal bancária. As televisões domésticas e o aluguer de filmes levaramao declínio deste cinema de freguesia, que tal como as comédias ao ar livre, foi um dos poucos meios de entretenimento partilhado pelos vários membros das famílias arrifenses.
Para mais informações note-se as obras: “São Miguel: Fonte de Teatro Popular” de A. Machado Guerreiro; “O Teatro Popular em São Miguel” de Maria do Bom Sucesso Franco; “O Mês de Sonho” de Leite de Vasconcelos; “Victorino Raposo: um poeta popular dos Arrifes” e “Arrifes: Detentores de Património Cultural?”.

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

*Licenciada em Património Cultural e mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento pela Universidade dos Açores/ SIAA.

Share

Print

Theme picker