Da Saudade e do Regresso
Nuno Costa Santos

Da Saudade e do Regresso

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Crónicas do Corpo Santo

Vi o Santa Clara-Nacional no número 37 da Rua Ciprião de Figueiredo, Corpo Santo, Angra do Heroísmo. É essa a morada do Furão, o segundo café mais próximo aqui de casa, sítio de encontros de amigos e de visita de turistas nas diferentes estações do ano. Na Primavera a casa cresce, abre-se, ganha a banda sonora da gargalhada. A esplanada permite beber à solta uma cerveja e trocar uma palavra. Recriando, com irresponsabilidade, a sentença da figura que dá nome à rua: antes morrer ao ar livre do que em paz confinado.
Na hora do jogo pedi para ser sintonizado o canal da Sport TV que transmitia a partida. Encostado à parede do lado esquerdo, com uma mini à frente e a esperança como petisco, era a única pessoa a seguir a jogatana. A única a festejar os golos. Lembremos que foram cinco os festejos perante a equipa dos nossos irmãos madeirenses, a equipa do Cláudio, bom amigo dos primeiros anos de Direito em Lisboa. De vez em quando, aparecia alguém que espreitava a televisão para topar o resultado das equipas em confronto. Uma delas foi um rosto bem conhecido nestas ruas. Ao saber do resultado, comentou. “Está quatro a zero para o Santa Clara. Bem bom!” Um terceirense a simpatizar com um agradável resultado de uma equipa de São Miguel? Indignei-me com a ausência de qualquer sinal de bairrismo. Os desportos identitários são praticar. Mas, antes de me levantar para o refilanço com essa falta, já estava a ouvir, de forma rigorosa e com um molho de repreensão, qual o número de casos de Covid em São Miguel. Fiquei descansado. Os costumes no lugar. Estendi a mão para o pratinho. 
No final do jogo, voltei a casa. À porta do Furão, cumprimentei o Tiago, o último pescador do Corpo Santo. Está na casa dos trinta e contou-nos, um dia, dos feitos, de um tempo outro e das tribulações da pesca. E da felicidade de ver na filha o gosto pelo mar, pelas travessias no barco do pai na baía. 

Ainda a açorianidade

Devolvi à Biblioteca de Angra um batalhão de livros de Vergílio Ferreira, requisitado para escrever um artigo sobre o autor, e requisitei, escolhido nas estantes açorianas, “Teotónio Ornelas”, biografia escrita por Reis Leite sobre este nobre idealista e empenhado que aderiu ao movimento liberal do seu tempo e foi decisivo para a vitória do liberalismo no país. Está a acontecer na biblioteca uma muito recomendável exposição sobre ele. Espreitei-a, acendendo assim a curiosidade. Também trouxe para casa “A Condição de Ilhéu”, volume que compila textos de 63 autores. Uns escreveram sobre os Açores, outros sobre a Madeira, outros sobre Cabo Verde e outros ainda sobre São Tomé e Príncipe. Uma viagem.
Ao ler alguns ensaios percebi logo ser este um volume obrigatório para quem quer perceber o que é ou foi viver na ilha (para determinadas gerações) e interpretar, de modo próprio e em geral inspirado, essa vivência. Traz textos de, entre outros, Álvaro Monjardino (recém-homenageado pelo Instituto Açoriano de Cultura), Inocência Mata, Vera Duarte, João David Pinto-Correia, madeirense que pude conhecer em Ponta Delgada, durante um encontro de escritas insulares ocorrido no Centro Natália Correia. Já não estão, o David e a sua invulgar amabilidade. Fixei-me no texto de António Rego – que texto! - com um título luminoso e uma prosa vagueante: “Ilha: Palavra Inventada pelo Mar”. Um achado verbal.
Trago uma citação de um texto de Machado Pires sobre açorianidade (o dicionário digital, em registo nacionaleiro, continua a não reconhecer a palavra) e o apelo do regresso à ilha. Capturei-a noutro livro, de outro destacado Teotónio, Onésimo Teotónio Almeida (um dos coordenadores do volume citado), “Açores, Açorianos, Açorianidade”. Parece-me pertinente numa altura em que o conceito inventado por Vitorino Nemésio e aprofundado por Luís da Silva Ribeiro vai sendo questionado e discutido aqui e ali, em modalidade informal, sinal de que há bom pensamento no que toca às identidades de quem mora neste ponto do Atlântico.
A citação é esta: “A Açorianidade é a alma que se transporta quando se emigra, como também aquilo que de cada um de nós se espera quando nós vivemos fora”. Quanto à ilha de nascimento (ou de vivência significativa, acrescento) é, diz o escritor e professor universitário, um “eixo do Cosmos”, uma “pequena-pátria”, um “mundo de referências matriciais”. Para rematar, “um ponto de regresso ideal, uma Ítaca em que cada um é o Ulisses da sua própria e secreta mitologia”. O que fica sublinhado neste texto é o facto, recordando as palavras de Daniel de Sá e escolhendo outras, de ser decisivo viver fora da ilha para nascer a mais funda açorianidade ou, para ser mais plural, açorianidades. Há quem prefira outros termos e a escolha do dicionário privado não cabe a mais ninguém senão ao homem que o transporta. Cada espírito tem a sua forma de se experimentar e nomear. De um modo mais ou menos inconsciente. Nemésio e outros apenas encontraram uma palavra, na tentativa de se explicarem e também por sentido prático: o de tentar compreender e agrupar.
No meu caso, já escrevi sobre, a forma de resolver essa falta da ilha quando vivi fora foi a de insularizar a cidade, escolhendo o bairro dessa mesma cidade, sítio abstracto para quem chegou de um lugar pequeno, rodeado pelo mar que inventa a ilha, para um aconchego. Uma forma de pisar um terreno familiar, onde há um sentido comunitário. Interpreto esse gesto – sim, fi-lo à posteriori – como a procura da ilha possível no continente.
A propósito, ocorre-me que o tema do regresso, explorado nas artes, hoje e ontem, causador, já o percebi, de uma certa oposição por quem, no chão açoriano, é dado à análise ou à recensão. Para facilitar: por se considerar um clichê de quem representa a ilha. Quando o tema é trazido à conversa apelo aos clássicos, como faz António Machado Pires. E por aí me fico, em geral. Basta. O regresso é um dos mais humanos dos temas. Vontade e prática antiga que define o homem. O regresso a um sítio mitificado, por certo. Um sítio que não existe no formato e nos traços de quem o invoca mas é fundamental para a sobrevivência de cada um. E o emigrante, mesmo aquele que, por diversas circunstâncias, nunca decidiu voltar, é, muitas vezes, aquele que mais regressa.

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