A habitação secular dos Picarotos
Rui Brum Ávila

A habitação secular dos Picarotos

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Escritos em tempo de pandemia (XXVII)

Desde o início da humanidade que o homem teve sempre a necessidade de um abrigo ou protecção das intempéries, assim como de protecção e segurança da própria vida e dos seus pertences. Começou por procurar refúgio em cavernas e grutas, depois elaboraram construções de madeira e mais tarde utilizaram a pedra na construção de estruturas mais sólidas e seguras.
Nos Açores, e mais concretamente no Pico, também a evolução da construção das habitações seguiu o mesmo percurso.
Sendo assim, os primeiros povoadores que aqui chegaram num primeiro momento tiveram de improvisar abrigos e um deles foi em pequenas grutas que existiam um pouco por todo o lado às quais chamavam “cafuas”. Contudo, logo que começaram a desbravar o terreno e ricas matas constituídas por grandes árvores de madeira de cedro, teixo, pau branco, urze e outras, construíram abrigos em madeira e mais tarde em pedra conjugando os dois materiais na qual a ilha era rica.
Eram construções simples, geralmente com o formato rectangular de uma só divisão, feitas em pedra seca recolhida em tufos de rochas, cobertas de colmo e mais tarde com a palha de trigo e com uma porta de entrada e outras vezes com uma pequena abertura tipo janela para a entrada da luz do dia.
Com o passar dos anos, essas construções foram sendo mais elaboradas e construídas já com algum ordenamento e propósito. As paredes de pedra basáltica foram sendo melhor trabalhadas e talhadas assim como as madeiras. Com o reforço dessas paredes na sua largura a casa também passou, em muitos casos para aqueles que tinham mais algumas posses, a ter dois pisos: o rés-do-chão e o primeiro piso. Com o aparecimento da cal e do barro, as paredes passaram a ser caiadas solidificando assim a estrutura e melhorando a barreira ao frio. Os tectos que eram de colmo ou palha passaram a usar a telha de barro.
E assim, esta tipologia de casa manteve-se durante séculos para a maior parte da população à excepção das famílias abastadas e nobres que tinham grandes residências: os solares e casas solarengas.
Sendo assim, podemos dizer pela prevalência da tipologia desta casa ao longo dos séculos que esta era a casa típica do Pico que até ao final do século passado era comum encontrar em quase todas as freguesias e lugares da ilha.
Uma casa de pedra crua ou caiada, em geral de dois pisos. O piso térreo era em geral de terra e onde muitas vezes eram guardados os animais de uso doméstico como cabras, ovelhas ou alguma vaquinha de leite. Também podiam encontrar-se vasilhames para guardar os cereais e atafonas de mão ou puxadas por algum animal de tração como o boi, burro ou cavalo, embora também se registem algumas casas com um pequeno edifício à parte também chamado de atafona onde eram guardados esses animais e os engenhos.
O piso superior da habitação consistia em geral de três divisões, num formato mais simples: a cozinha, a sala de fora e o quarto de cama. Tratando-se de uma família numerosa, a muito custo acrescentava-se mais uma divisão um novo quarto onde os filhos dormiam todos e os pais em outra. Dormiam no chão ou camas de ferro e mais tarde de madeira em colchões de palha de trigo ou folha de milho.
A sala de fora era onde se passavam os serões à luz da candeia de óleo de baleia e mais tarde lamparinas de petróleo. Esta sala de fora às vezes tinha acesso ao exterior com uma porta que dava para um balcão de entrada. As senhoras ocupavam-se aí fazendo a costura ou as rendas e bordados. Os senhores, esses, conversavam sobre as suas lides da terra e do mar, ou jogavam jogos tradicionais de cartas (sueca, pidro, truco,…).
Finalmente a cozinha, a principal divisão da casa que podia ser ligada à casa ou separada por causa do medo do risco de incêndios. Isto porque às vezes essas cozinhas não tinham chaminé. De qualquer das formas, nessa cozinha existia o forno, estrutura importante para se fazer o pão, o lar onde se cozinhava em potes de ferro e a amassadeira. O chão, ou piso, era de terra batida. Nesta mesma divisão existia ainda o pote de madeira de cedro ou o talhão de barro onde se guardava a água,um pequeno louceiro onde se guardavam as poucas louças que existiam em barro e uma mesa de madeira e bancos corridos.
Ao redor desta casa ainda poderia haver o tanque da água, que podia estar inserido no próprio edifício ou numa construção exterior. Além disso, fora também havia a retrete para as necessidades e o curral do porco.
Nas últimas décadas, com a construção de novas edificações anti-sísmicas, muitas destas antigas casas foram abandonadas e outras entraram em ruínas. Felizmente, nos últimos anos, com o incremento do turismo, grande parte delas tem sido recuperada para o chamado turismo rural, salvaguardando assim todo um património histórico e cultural.
 

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