“Fomos mediadoras e confidentes de muitas orações, aflições e de muita fé no Senhor Santo Cristo”
Rita Frias

“Fomos mediadoras e confidentes de muitas orações, aflições e de muita fé no Senhor Santo Cristo”

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A Congregação das Religiosas de Maria Imaculada veio para os Açores em 1954

No próximo mês de Maio, as Irmãs da Congregação das Religiosas de Maria Imaculada deixam o arquipélago. Durante décadas, esta Congregação foi a zeladora da imagem e da capela do Ecce Homo no Convento da Esperança, onde se encontrava desde 1962. A sua partida já se faz sentir perante a comunidade micaelense, sobretudo. Mediadoras entre a imagem do Senhor Santo Cristo e a comunidade, a Irmã Célia Faria, madre superiora, refere que nunca irão esquecer esta missão. Após ter estado quase 12 anos em São Miguel, rumará a Lisboa, admitindo que “ao partir fica sempre a saudade, sentido uma certa pena pelo que se deixa”. Para além da Irmã Célia Faria, encontra-se ainda no Convento da Esperança, a Irmã Margarida Pimentel. 

 

Diário dos Açores - Ao fim de quase 70 anos, a Congregação das Religiosas de Maria Imaculada está de partida. Para quando e porque motivo?
Irmã Célia Faria -
Nós vamos deixar o arquipélago daqui a um mês, aproximadamente. Esta decisão foi sendo discernida, durante bastante tempo, depois de percebermos várias mudanças na sociedade, entre as quais: a diminuição da procura de alojamento, concretamente dos nossos serviços; as famílias começaram a fazer outras escolhas, a ter outras prioridades, o que nos levou a fechar, há três anos, a nossa residência de jovens estudantes e trabalhadoras. Depois de outras actividades e experiências “de saída”: colaboração na catequese; grupo de jovens; trabalho em rede com o “Projeto S. Lucas”, do Centro Social da Paróquia de S. José; integração na Equipa de Pastoral Juvenil da Diocese, consideramos que a nossa missão e carisma, por estas lindas terras açorianas, deixou de ser tão significativa como foi há alguns anos atrás, sendo mais necessária a nossa presença noutras cidades e comunidades que temos. Já a nossa Fundadora, Santa Vicenta Maria, consciente dos grandes desafios e dificuldades que iam surgindo, para levar a cabo a nossa missão, dizia que a Congregação deveria procurar os meios que fossem necessários para dar resposta às possíveis novas situações e necessidades de cada tempo. Entendemos que, neste momento, será unir recursos onde é mais necessário.

Portanto, em virtude da mudança dos tempos, a vossa missão deixou de ser significativa.
ICF
- Sim, precisamente por isso, decidimos sair, como referi anteriormente. Quando viemos [a Congregação] para São Miguel, há 66 anos atrás, viemos com a missão de dar continuidade e, também fazer crescer ainda mais, uma obra já iniciada pelo Patronato de São Miguel, de acolhimento e formação de adolescentes e jovens de famílias mais pobres: a chamada secção das “Filhas de Maria”. Mais tarde, também assumimos a secção do jardim de infância. Tivemos uma escola noturna que chegou a contar com 120 alunas, com aulas de corte e costura, bordados, dactilografia, francês, inglês e português e cultura geral para adultos. Fizemos acompanhamento a um grande grupo de jovens e mulheres do serviço doméstico e suas patroas, procurando ser suas mediadoras, zelando pelos seus direitos e deveres. Aos Domingos à tarde, oferecíamos sempre actividades recreativas de teatro, formação religiosa e momentos de oração. 
Os tempos mudaram, a sociedade civil foi oferecendo, bem outras respostas e nós vamos também vendo onde e como podemos e devemos estar mais presentes.

Já se fazem sentir reacções à vossa partida. É sinal de que marcaram a vida de muitas pessoas.
ICF -
É verdade. Já vamos recebendo várias manifestações de carinho e gratidão e também algumas reacções de tristeza e nostalgia. Sentimo-nos gratas e contentes por perceber que fomos deixando marca. Procuramos ser um verdadeiro lar para muitas adolescentes e jovens que estavam fora das suas famílias, por diversas razões, contribuindo para o seu crescimento humano e cristão. Hoje, já mães e avós, algumas religiosas também, recordam, sobretudo, o convívio, a amizade, o sentido de protecção e várias aprendizagens. Algumas delas, só mais tarde, é que conseguem ver isso.

Relativamente à imagem do Senhor Santo Cristo: era considerada a vossa maior missão, sendo as suas guardiãs.
ICF
- A nossa primeira casa, em São Miguel, foi na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada. Passados oito anos, viemos [a Congregação] para o Convento da Esperança porque reunia melhores condições: era maior para receber as jovens residentes e ter a funcionar mais espaços para a escola e outros encontros. Foi então que nos foi pedido e confiado o cuidado de zelar pela imagem do Senhor Santo Cristo: tudo o que se referisse ao seu culto e devoção e também o de colaborar nos vários serviços do Santuário, no acolhimento a todos os peregrinos. Várias Irmãs foram assumindo com o maior empenho possível esta missão, mas queria recordar novamente a Ir. Beatriz, que por ter sido à volta de quarenta anos e também pela sua forma de ser, foi uma referência para o povo açoriano. Nunca esqueceremos esta missão, fomos mediadoras e confidentes de muitas orações, aflições e de muita fé no Senhor Santo Cristo.

Referiu numa entrevista que a maioria das irmãs portuguesasda Congregação são açorianas. Porquê este fenómeno?
ICF
- A maioria das Irmãs portuguesas, na nossa Congregação, são realmente açorianas. Na minha opinião, penso em algumas causas possíveis, mas poderão haver outras: o contexto familiar de vivência religiosa, algumas famílias ainda numerosas e o contexto social com muitos valores cristãos.

Falemos do último ano. A pandemia fez aumentar a procura de ajuda ao Convento? Como foi a vida dentro do Convento?
ICF -
Sim, sem dúvida! Várias pessoas aflitas por comida, por serem escutadas e muitos pedidos de oração. Nós partilhamos o pouco que temos, procuramos escutar quem bate à porta e rezamos sempre por todas as intenções que nos são confiadas, também por telefone.
A vida dentro do convento também ficou afetada com a pandemia: deixamos de receber os grupos que vinham para encontros de oração ou formação. Sentimos um maior vazio, mas não deixamos de procurar aproveitar e acompanhar as várias iniciativas online de oração e formação, conscientes da importância e necessidade de conhecer e estar também no digital.

Regressou em Setembro de 2019 com uma nova missão, após ter estado fora 7 anos. Que balanço faz deste último ano e meio?
ICF
- É verdade. Passados 7 anos, voltei à ilha, ao Convento da Esperança. Este ano e meio, primeiro foi de adaptação a uma nova realidade, muito diferente da que tinha deixado há 7 anos atrás, até pelo simples facto de já não termos a nossa residência de jovens, na qual eu estava mais implicada. Como responsável da comunidade, assumi novos desafios. Fiz o que pude e sabia. Sinto que é muito importante querermos sempre ajudar e aprender uns com os outros! Foi um tempo atípico, difícil, como para toda a gente, pelas razões relacionadas com a pandemia.

Já havia estado em São Miguel entre 2003 e 2012.
ICF
- Sim. Estive 9 anos com as jovens da residência e colaborei na catequese paroquial de S. José, aqui mesmo ao lado, e também a nível diocesano, acompanhei um grupo de jovens: tínhamos os nossos encontros mensais, faziam Exercícios Espirituais, Campos de Férias no Verão, e eles também colaboraram com o “Projeto S. Lucas”, da Paróquia de S. José, em actividades de férias de Natal, Páscoa e Verão, para crianças mais carenciadas.

Podemos dizer que os Açores, em especial, a ilha de São Miguel, terá um lugar especial no seu coração. Como se sente em virtude desta partida?
ICF -
Sempre terá um lugar especial no meu coração porque aqui recebi muito, na minha plena juventude, e pude oferecer também o melhor de mim. Ficaram laços fortes de amizade e de crescimento, experiências belas de fé e de convívio. Ao partir, fica sempre a saudade. Sinto uma certa pena pelo que se deixa, mas consciente de viver em missão seja em que lugar nós estivermos. Por isso, é uma partida em missão, é o desejo de continuar a servir, é o desprendimento que gera liberdade, é o amor que não tem fronteiras, é o agradecimento pelo bem semeado e recebido!

Para onde irá? Qual a sua próxima missão?
ICF -
Irei para a nossa comunidade de Lisboa, apoiar a nossa residência com capacidade para 55 jovens, integrando uma comunidade de 6 Irmãs.

 

 

A origem da Congregação

A Congregação das Religiosas de Maria Imaculada teve origem em Espanha, mais precisamente em Madrid. A sua fundadora, Santa Vicenta Maria Lopez y Vicuña, nasceu em 1847, e criou a Congregação inicialmente para dar uma resposta à necessidade da época que era muito evidente para ela e que era uma obra que já tinha sido iniciada pelos seus tios. Vicenta Maria tinha uns tios que dedicavam muito tempo das suas vidas a tentar orientar e preparar jovens que vinham dos campos para a grande cidade, Madrid, trabalhar. Não sabiam ler nem escrever. Essas jovens que trabalhavam como domésticas sofriam abusos por parte dos patrões, contraíam doenças e iam parar ao hospital. A tia de Vicenta Maria ia fazer visitas ao hospital e acompanhava estas jovens, sentindo que poderia fazer algo mais. Abriu uma casa, inicialmente com 3 jovens, que era conhecida como “La Casita”, por ser tão pequena. Como eram de outra zona e não tinham para onde ir, dava-lhes esse acolhimento. Ainda jovem, Vicenta Maria acompanhava a sua tia, começando a perceber a necessidade que havia e foi-se identificando com o desejo, daquilo que sabia, de transmitir a essas jovens. Continuou essa obra e para ajudar estas jovens, acabaria por fundar a Congregação a 11 de Junho de 1876. Esta encontra-se presente em todos os continentes, com excepção da Oceânia, espalhada em 21 países. 

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