25 de Abril e corrupção
Mário Abrantes

25 de Abril e corrupção

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A causa próxima do heroico golpe militar dos capitães em 25 de Abril de 1974 foi sem dúvida a revolta contra o desenvolvimento, pelo regime fascista de Salazar, de uma guerra injusta, a guerra colonial, onde, só do lado português, 10.000 jovens morreram e 45.000 ficaram feridos ou estropiados, para não falar dos milhares de traumatizados e de famílias destruídas.
Mas a causa remota, que conduziria sempre ao fim do fascismo português, foi a resistência popular contra o regime, que durou tanto quanto ele, 48 anos, apesar de ser objeto constante de perseguições, tortura e até de mortes a cargo da polícia política (PVIDE, depois PIDE e depois DGS). Resistência popular contra uma ditadura que assentava no domínio económico do país por 6 grupos (Mello, Champalimaud, Espírito Santo, Borges e Irmão, Banco Português do Atlântico e Banco Nacional Ultramarino) enquanto a esmagadora maioria do povo passava profundas necessidades. Uma ditadura profundamente corruptora onde pontificava a promiscuidade político/económica. Por exemplo em 1958 mais de 42 ministros e ex-ministros e 8 altos funcionários salazaristas ocupavam 116 lugares na administração das principais empresas em Portugal. 
Salazar enriquecia algumas elites, que por sua vez o sustentavam à frente do país. Fazia isso à custa do que roubava aos pobres e com a ajuda da alta taxa de analfabetismo, da censura, do culto do obscurantismo e do medo. Enquanto o povo, condenado à resignação, à pobreza e ao conformismo, sofria a fome e a miséria, uma classe privilegiada e promíscua dava largas à luxúria e à ostentação, e livrava os seus filhos da guerra colonial, tudo à sombra do ditador. A juventude era atirada para as praças de jorna, para o mundo do trabalho desregrado e da exploração, e por fim convertida em carne para canhão ou condenada à emigração (um milhão e meio de portugueses desde 1961). 
A “família cristã tradicional” modelada pelo falso moralismo salazarista não passava de uma farsa carregada de mortalidade infantil, e de crianças desnutridas, raquíticas e com paralisia infantil, a viver sem água canalizada, eletricidade ou saneamento básico. As mulheres não tinham direitos e os abusos sexuais, a prostituição e a pedofilia eram comuns, envolvendo familiares, as elites político/económicas ou os “favores”cobrados por patrões.
O passar dos anos diluiu na consciência das novas gerações os tempos negros da ditadura e acentuou imperfeições no funcionamento do sistema democrático facilitando tentativas para restaurar hoje, como positivos, os abjetos valores do salazarismo. Essas tentativas surgem pela mão de gente hipócrita que, invocando com insistência o combate à corrupção e a degradação do “sistema político”, elege como principal inimigo a nossa Constituição, isto é, a essência das Liberdades e da Democracia alcançadas com a revolução de Abril.
Essa mesma gente esconde, por exemplo, que nos tempos imediatamente seguintes à revolução de há 47 anos, a corrupção, durante tantos anos sólido pilar da ditadura, foi desarticulada e, em paralelo, a justiça social registou avanços históricos. Esconde que a corrupção só ressurgiu após os herdeiros dos salazaristas “donos disto tudo” terem recuperado o poder económico, por via das sucessivas privatizações e da perda de controlo estatal de setores estratégicos da economia, proporcionados pelos progenitores políticos dos neofascistas, o PSD e o CDS, com o consenso repetido do PS, e incentivados pelo ultraliberalismo da União Europeia. 
Em paralelo com tal caminho de retrocesso económico, seguramente não por acaso, registou-se um assinalável aumento da pobreza e das desigualdades sociais. Seguramente não foi também por acaso que ao longo de vários anos e legislaturas, as sucessivas propostas do PCP para criminalizar o enriquecimento injustificado contaram sempre com os votos contra do PS, do PSD e do CDS...
 

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