“Qualquer espaço público beneficia de uma arte feita à mão”
Rita Frias

“Qualquer espaço público beneficia de uma arte feita à mão”

Previous Article Previous Article Sábado, 24 de Abril de 2021
Next Article SATA no mercado para emitir 49,5 milhões de euros em papel comercial SATA no mercado para emitir 49,5 milhões de euros em papel comercial

O lettering é considerado a expressão moderna da escrita

Raquel Bradford é licenciada em Ciências da Nutrição, área que se encontra a exercer, mas a par do seu trabalho tem estado a desenvolver um projecto: letters.by_rachel. A jovem micaelense desenvolveu o gosto pelo desenho desde criança, algo que nunca deixou de o fazer mesmo até em tempos de universidade e enquanto trabalhava a tempo inteiro. No entanto, o “desenhar” da nutricionista incide-se no lettering, uma arte que tem vindo a ganhar maior tendência nos últimos tempos. Numa época em que admite que se encontrava menos motivada, viu no lettering uma motivação e uma maneira de expandir esta área no arquipélago visto que ainda não existe muito mercado.

Diário dos Açores - Para começar: o que é o lettering?
Raquel Bradford -
O lettering é a arte de desenhar letras. Não é escrever uma frase e não é caligrafia. São coisas diferentes: a caligrafia consiste em usar um instrumento específico para se escrever de forma bonita; o lettering consiste em desenhar cada letra de raiz, e, como tal, são utilizados os materiais que se usariam num desenho comum (lápis e borracha), podendo, tal como num desenho, ser finalizado com qualquer material (lápis de cor, aguarela, canetas, marcadores, etc.), ou até mesmo ser finalizado num meio digital. Instrumentos caligráficos também podem ser utilizados em lettering. No entanto, continua a ser diferente de caligrafia, uma vez que se “brinca” mais com as letras, variando nos seus tamanhos ou exagerando algumas formas, por exemplo. Portanto, resumidamente, lettering é desenhar, e é, por isso, um trabalho feito à mão. E, ao fazê-lo, há que saber combinar e dispor as diferentes palavras da frase de uma forma coerente, equilibrada, harmoniosa, apelativa e com sentido, utilizando estilos de letra, cores e elementos decorativos adequados à frase e à mensagem que se pretende transmitir. É como se fosse uma ilustração composta por letras (uma palavra ou frase).

E como surgiu o gosto pelo lettering?
RB
- Surgiu pouco depois de ter “esbarrado” com o termo “lettering” no Instagram. Conheci-o através de páginas de artistas (de lettering) brasileiras, cujos trabalhos se resumiam a quadros com frases desenhadas. Foi algo que achei muito giro, apelativo, diferente. Mas nunca me passou pela cabeça que o pudesse aprender e que, aliás, fosse algo possível de se aprender. Achei que era algo que tivesse a ver com “jeito”, “dom”, ou “olho” para a coisa. Uma vez, pouco depois de ter deixado o meu emprego a tempo inteiro, estava bastante desanimada e comecei a ver um vídeo de uma dessas artistas que falava sobre motivação. No vídeo, ela disse algo como: “Qual é o teu objetivo? Ser o maior artista de lettering da tua região?”. E isso fez um “clique” na minha cabeça. Pensei, na altura, em como não existia – pelo menos que eu tivesse conhecimento – nenhum artista de lettering nos Açores e que, aliás, imensos açorianos não deviam, sequer, saber o que era lettering, tal como eu não sabia. No dia a seguir, estava já a procurar por cursos online em que pudesse, realmente, aprender essa arte e poder começar a fazer aquele tipo de trabalhos que as artistas que eu admirava faziam. E, realmente, encontrei alguns cursos, e vi que era possível aprender. Quanto mais aprendia e quanto mais fazia, mais gostava desta arte. E isso manteve-se até hoje pois ainda hoje continuo a aprender, a testar e a praticar, e, fazendo isso, o gosto só cresce cada vez mais.

Já desenhava em criança. Era algo que imaginava estar a fazer hoje?
RB -
Sempre imaginei que a arte faria sempre parte da minha vida, mas apenas como um hóbi. Sempre pensei que a par de um emprego a tempo inteiro, poderia continuar a desenhar, mas só como actividade de tempos livres. Mas, apesar disso, sempre tive o sonho de trabalhar em algo relacionado com arte e que estimulasse a minha imaginação e criatividade. No entanto, nunca soube o que poderia vir a fazer, para além de ter sido um pouco desencorajada a enveredar pela área artística - por ser um meio difícil em termos de empregabilidade. Por isso, nunca imaginei que, depois de estar licenciada, estaria a aprender algo novo relacionado com arte e que criaria um projecto próprio. Muito menos que as pessoas quisessem adquirir coisas feitas por mim, o que é uma sensação incrível!

Que tipo de trabalhos costuma fazer?
RB
- Letras e frases podem ser desenhadas nos mais diversos objectos e superfícies. Faço-o essencialmente no papel (criando quadros decorativos com frase) e em canecas (este, actualmente, tem sido o artigo com mais procura), mas também já o fiz em madeira (em caixinhas de chá e de bijuteria, e em rodelas (pendentes) decorativas), em vidro (chávenas) e num prato para decoração. Também já fiz um trabalho para ser aplicado numa parede, que foi, depois de desenhado no papel, finalizado em meio digital e posteriormente impresso. Existem imensas possibilidades de trabalho para um artista de lettering e eu tenho imensos planos nesse sentido, imensos materiais e superfícies que gostaria de testar, e, portanto, imensos artigos que gostaria de lançar e serviços que gostaria de prestar. Para além do lettering, também faço ilustrações personalizadas tendo feito já dois “retratos” no meu estilo de desenho próprio.

E como surge a inspiração?
RB -
A inspiração vem de qualquer lado! E, por vezes, quando menos se espera! Nos livros, na música e nos filmes, por exemplo, já me saltam à vista possíveis frases que posso vir a desenhar. Mas os próprios elementos visuais (a capa de um livro, ou as cores e os cenários de um filme, por exemplo) são também tão inspiradores. O simples facto de alterar o meu lugar de trabalho, fazer algo fora da minha rotina habitual ou ler um novo livro, uma nova publicação ou texto nas redes sociais também é capaz de estimular a criatividade e de me dar ideias novas. Tudo o que nos rodeia consegue trazer algum tipo de inspiração. Às vezes, a minha própria forma de pensar e a minha jornada até hoje também me dão algumas ideias. E, claro, também me inspiro muito no trabalho dos artistas que admiro.

É uma área em que para além da prática, é necessário estar a par de tendências e ter também alguma formação.
RB -
A prática é, sem dúvida, fundamental e quando se quer começar, é sempre bom aprender com quem está mais “por dentro do assunto” e que trabalha no ramo. Pode parecer que o lettering é só “escrever uma frase” ou “fazer letras” quase de forma aleatória, mas existem bases e existe teoria por trás. E há sempre coisas novas para se aprender. Em relação a tendências, não creio que existam nesta área. Nos dias de hoje, podem, de facto, existir mais objectos decorativos com frases ou letras, mas as letras e as palavras sempre estiveram presentes em todo o lado – em cartazes, embalagens, montras, posters, capas de livros, etc. –, e vão continuar a estar. Estes trabalhos podem, sim, ser executados por um artista de lettering. Por isso, acho que o lettering não é uma moda e não é algo passageiro, mas sim uma forma de arte que veio para ficar e que é muito reconhecida e valorizada nalguns países (acredito que chegará o dia em que, em Portugal, aconteça o mesmo). Como disse, existem inúmeros trabalhos que um artista de lettering pode desenvolver, tanto para clientes particulares, como para empresas, negócios e espaços e estabelecimentos públicos, ou mesmo em eventos. Existem inúmeros objectos onde se podem desenhar letras, bem como inúmeras superfícies e materiais a serem explorados. Cabe a qualquer artista, a par de desenvolver o seu estilo próprio, descobrir com que trabalhos, superfícies e materiais se identifica mais e se sente mais confortável.

Já podemos encontrar algum trabalho seu na rua?
RB –
Sim. Recentemente, desenvolvi um trabalho para uma parede do quiosque da B’Doces, uma loja de brigadeiros no Solmar Avenida Center. A fundadora da marca pediu-me que desenhasse uma frase da sua autoria, alusiva ao negócio. Foi um trabalho muito desafiante, mas muito gratificante e que adorei realizar. Até agora, foi o único (todos os outros trabalhos que desenvolvi foram para clientes particulares), mas gostava de vir a fazer muitos mais! Acho que qualquer espaço público beneficia imenso de uma arte feita à mão, pensada para aquele cliente em específico, e que transmite não só a missão, a essência e os valores do negócio, mas também sentimento.

Actualmente está a trabalhar como nutricionista, ao mesmo tempo que vai desenvolvendo este seu projecto...
RB
- Sim, desenvolvo trabalhos enquanto nutricionista, para uma empresa de restauração, a Servicater, e também dou consultas de nutrição na Clínica Yin Yang, em Ponta Delgada. No entanto, em ambas as entidades, não trabalho como nutricionista a tempo inteiro, mas sim em regime de prestação de serviços, o que também me permite desenvolver este meu projecto artístico paralelamente.

Como é que as pessoas podem chegar até a si? Faz trabalhos somente por encomenda ou já podemos encontra-los à venda em algum lugar?
RB
- Podem encontrar-me no Instagram ou no Facebook. Em ambas, publico trabalhos que desenvolvi para algum cliente ou trabalhos que fiz para mim mesma com o intuito de praticar, mostrar algo novo ou dar a conhecer mais de mim e do meu trabalho. Não tenho artigos para entrega imediata, por isso, sim, todos os trabalhos são feitos por encomenda. Elaboro artigos (quadros, canecas, caixinhas, etc., como referi antes) personalizados, ou seja, cada pessoa escolhe a frase, palavra ou desenho que gostaria de ver no artigo, bem como as cores, os estilos e a disposição das letras e palavras (geralmente apresento, no mínimo, quatro opções diferentes em termos de disposição das palavras da frase e estilos de letra, e a pessoa escolhe a que mais gosta). Para isso, só tem que me contactar via mensagem privada nas redes sociais ou por e-mail dizendo-me a sua ideia. Aliás, nas redes sociais costumo, por vezes, partilhar uma série de ideias com que as pessoas podem personalizar um artigo. Já fiz, inclusive, algumas colecções temáticas de canecas, nomeadamente para o dia dos namorados e para o dia do pai, pensando nas pessoas que poderiam não saber com que personalizar um artigo para oferecer. Gostaria de, no futuro, vir a criar mais colecções deste género e não apenas para dias específicos. E, talvez, venha a criar uma série de artigos para entrega imediata para ver como corre. Não tenho, portanto, nada à venda num espaço físico, mas gostaria de criar uma loja online para facilitar o processo de encomenda e para que as pessoas percebessem melhor o tipo de trabalhos que realizo.

Estes tempos de confinamento também deram oportunidade de desenvolver mais o seu trabalho...
RB
- Sem dúvida! Para a maior parte das pessoas, o confinamento foi um período terrível e complicado. O ano de 2020 foi no geral, e para muita gente, um ano considerado perdido, um ano horrível. Mas, no meu caso, eu não teria feito tudo o que fiz e não teria investido tanto neste projecto se o confinamento não tivesse existido. Fiz muito mais nesse ano e nesse período estranho do que num ano “normal”, e não teria feito tudo o que fiz se, lá está, tivesse sido um ano “normal”. Antes do confinamento, eu estava desempregada e sufocada por aquela ansiedade de ter que arranjar trabalho ou arriscar trabalhar por conta própria. Quando fomos obrigados a ficar em casa, essa ansiedade começou a desvanecer-se, porque não havia nada que eu pudesse fazer nesse sentido. Não podia procurar emprego num mundo que estava “em pausa” e que, portanto, nem sequer tinha empregos para oferecer e também achei que não fazia sentido iniciar actividade por conta própria. Por isso, virei a minha atenção para outras coisas que realmente me importam e me apaixonam. Foi como se, finalmente, pudesse ser a pessoa que quisesse, pudesse fazer o que quisesse. Foi um período que me permitiu olhar para dentro, focar-me em mim própria, reflectir (inclusive sobre o que realmente quero), reencontrar-me e reconectar-me com quem realmente sou. Olhando para trás, penso que também poderia ter aproveitado melhor esse período para, no que toca ao meu trabalho, evoluir mais e aprender coisas novas. Sinto que fiz pouco nesse sentido, mas por outro lado, dediquei-me muito mais a este projecto, que foi criado no final de 2018, mas ao qual não dava a devida atenção, dadas as circunstâncias. Não deixei de notar evolução e crescimento, ainda que morosos, coisas que não teriam acontecido caso o mundo não tivesse sido forçado a parar.  

O lettering está na moda no que se refere à decoração de interiores, sobretudo? 
RB
- Como disse, não acho que o lettering seja uma moda ou algo temporário, mas sim uma forma de arte que cada vez ganha mais adeptos e reconhecimento, e que veio para ficar. Acontece que, ultimamente, vêem-se cada vez mais objectos decorativos com frases ou palavras, entre eles os quadros, especialmente em grandes superfícies/lojas de decoração. No entanto, há que salientar que, no caso dessas grandes lojas, aquilo que vemos não é considerado lettering. Tal como expliquei, o lettering é o desenho de letras, é um produto elaborado à mão. Nessas lojas e, por vezes, em negócios ou empresas de personalização de artigos, o que acontece é que a frase que vemos aplicada no objecto foi escrita e montada a computador, e não desenhada, e estampada nesses objectos ou impressa, em vez de pintada directamente sobre eles. Comprar um artigo decorativo de um artista de lettering é muito diferente de comprar um artigo com uma frase numa loja. Para além de elaborar a arte à mão, o artista de lettering deposita sentimento naquela arte e cria algo que vai de encontro ao gosto do cliente e que é pensado exclusivamente para ele; cria uma peça única no mundo inteiro, que mais ninguém terá igual. Mas não é só na decoração de interiores que o lettering ganha cada vez mais reconhecimento. É também em empresas, espaços públicos, eventos. O lettering pode ser aplicado numa parede ou numa montra, por exemplo, para informar as pessoas sobre o que pode encontrar no interior de um estabelecimento, para transmitir os valores e a missão de um negócio, ou simplesmente para tornar um local de trabalho mais acolhedor e mais colorido, para dotá-lo de personalidade ou embelezar um espaço e atrair mais pessoas ao local. Pode ser usado para transmitir, de forma mais apelativa, o menu de um estabelecimento de restauração, para personalizar embalagens ou convites para eventos (casamentos, por exemplo). Pode, inclusive, ser criado e desenhado à mão, finalizado em meio digital e ser replicado em vários objectos como capas de cadernos ou peças de roupa. Existem inúmeras possibilidades.

Vê-se a trabalhar somente nesta área no futuro?
RB
- O meu futuro de sonho seria, de facto, poder viver apenas da minha arte. E o que me motiva e que me dá alento nesse sentido é ver artistas que me inspiram a viver esse tipo de vida que eu gostaria de ter, e pensar “Se essa pessoa consegue, então por que não hei-de conseguir também?”. Sim, é um caminho difícil, trabalhoso, “instável” e “não convencional”, mas não quer dizer que seja impossível. Pode não ser possível agora e já, mas, um dia, lá chegarei. É isso que me motiva a trabalhar e a querer aprender mais e continuar a evoluir, todos os dias. 
jornal@diariodosacores.pt

Share

Print
Ordem da notícia37

Theme picker