Assinalam-se hoje os 47 anos do 25 de Abril
Rita Frias

Assinalam-se hoje os 47 anos do 25 de Abril

Previous Article Previous Article A História da Revolução de Abril como liberdade do povo português
Next Article Vai ser efectuada auditoria ao molhe norte da Horta pela “perspectiva pouco séria e atabalhoada” do projecto Vai ser efectuada auditoria ao molhe norte da Horta pela “perspectiva pouco séria e atabalhoada” do projecto

Às 22h55 do dia 24 de Abril de 1974, soava o primeiro sinal para o que viria ser o término da ditadura, com a saída das tropas dos quartéis. Que sinal foi este? A música “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, transmitida na Rádio Alfabeta dos Emissores. Uma hora e meia depois, a Rádio Renascença emitia o segundo sinal com a mítica canção “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso, então proibida pelo regime. A partir daqui, foi um desenrolar de acontecimentos pela madrugada fora que daria origem à Revolução dos Cravos. O Movimento das Forças Armadas terminaria com a opressão que o país sofria há décadas. Estivemos à conversa com duas gerações para falar sobre esta data comemorativa para Portugal: uma que viveu durante a ditadura, tendo inclusive ido para o Ultramar e outra que já nasceu no pós 25 de Abril, tendo aprendido e sabido sobre esta parte da história através de relatos e do que aprendeu na escola.

 

José Salgado Martins, natural do distrito de Vila Real, frequentou a Academia Militar. Aos 78 anos, encontra-se a residir nos Açores há mais de 50 anos após ter conhecido a sua esposa, açoriana de raiz, na década de 60, aquando da sua colocação na Bateria de Artilharia de Guarnição n. º1, em Belém, na cidade de Ponta Delgada. Casaram-se em 1969, mas pouco depois viria a “cumprir uma comissão de serviço em Angola, seguida de outra na Guiné”. Foi aqui neste território que teve conhecimento do 25 de Abril, já no dia seguinte, “com um misto de alegria e de tristeza. Alegria de poder regressar à paz e a casa, e tristeza pelos sacrifícios passados e pelos nossos camaradas de armas africanos que valentemente se bateram por Portugal e ficaram para trás”, revela. “A verdade é que não houve um 25 de Abril, houve vários conforme cada um o viveu.”
Há um facto que muitos antigos combatentes concordam e já fizeram questão de admitir: é “que o poder político devia ter começado a preparar a descolonização” anos antes, enquanto tinha as Forças Armadas coesas. O antigo combatente só regressou ao país em Setembro de 1974, “na véspera da revolução silenciosa de 28 de Setembro. Não querendo mais confusões”, no dia anterior veio para os Açores, onde fez toda a sua carreira militar na ilha de São Miguel.
Relativamente ao ambiente que se vivia na década de 60, José Salgado Martins refere que “o ambiente que se vivia em Ponta Delgada na década de sessenta e dos grandes centros urbanos do Continente era diferente. Mas muito semelhante ao estilo de vida que se levava numa pequena cidade do interior, como Vila Real. Esta condicionada pela interioridade e a de Ponta Delgada pela insularidade.” No entanto, “de realçar uma certa desconfiança pelas intenções dos militares, vestígios das malfeitorias feitas às raparigas locais por alguns expedicionários da II Guerra Mundial”.
E o que mudou nestes últimos 47 anos? “Tudo. O modelo de governação, o acesso à educação e à saúde, melhores infraestruturas de todo o tipo, melhor apoio social, entre outras coisas. Esta melhoria exponencial da vida dos portugueses foi uma consequência de Portugal redireccionar as suas ligações à Europa em detrimento de Africa, que culminou com a adesão à Comunidade Europeia em 1985.”
Para o antigo combatente do Ultramar, “esta guerra era inevitável”, exemplificando outras ocorrências da história: “veja-se a Inglaterra que no século XVIII travou uma guerra de 5 anos contra as suas colónias americanas e perdeu; a França lutou durante largos anos na Indochina e na Argélia; a Espanha combateu em Marrocos, em Cuba e na América do Sul; e os Belgas no Congo Belga.”
Conforme explica José Salgado Martins, as Forças Armadas começaram a combater em 1954. “Normalmente, esquece-se o conflito do chamado Estado da Índia Portuguesa começado neste ano, com o declarado propósito de dar tempo ao governo português de conseguir uma solução política sobre o Ultramar, pois sabiam perfeitamente que uma guerra subversiva não se resolve apenas pela via militar. Este tempo em 1974 tinha-se esgotado e leva directamente ao pronunciamento militar de 25 de Abril de 1974. A revolução, ou melhor, as revoluções, começaram após esta data.”
Sendo de uma geração que viveu antes e depois do 25 de Abril, refere que os jovens “não têm nenhuma visão sobre o 25 de Abril e da Guerra do Ultramar e sinceramente não manifestam interesse em ter. Se não fossem as comemorações da data e as lembranças dos mais velhos, seria mais acontecimento histórico perdido na memória da História. Para os jovens dos dias de hoje, o 25 de Abril, que ocorreu há quase 50 anos, tem o mesmo significado que tinha para mim a implantação de República em 1910 quando eu tinha a idade deles, e que era nenhum. Era mais uma data que tínhamos de memorizar na disciplina de História. No entanto, a Guerra Ultramarina e o 25 de Abril, como factos que são do domínio da nossa História, quando for ensinada aos jovens neste âmbito, deve ser feito com o maior rigor possível, despedido de preconceitos ideológicos, como se pressente nos dias de hoje quando se verifica a tentativa de reescrever a história, esquecendo intencionalmente o contexto em que ocorreram”, explica.
Com o fim da ditadura, veio a democracia. Mas para o antigo militar, esta “está doente. Os episódios de corrupção que ocorrem com frequência e a todos os níveis, os interesses dos partidos políticos em detrimento dos nacionais, o mau funcionamento da justiça, entre outros aspectos, levam os cidadãos a estarem cada vez mais descrentes e a afastarem-se das instituições democráticas.”

Pelos olhos de uma geração mais nova

Aos 27 anos, António Machado diz que o 25 de Abril teve, desde que se lembra, um significado muito especial: “cresci a estudar e a ouvir a importância dos valores que advieram da revolução do dia 25 de Abril de 1974. Mostrou-me e mostra-me que pela luta podemos alcançar direitos fundamentais como a Liberdade e Democracia.” Para o jovem, não há dúvida de que “no meio escolar, há um peso fundamental na formação de um futuro cidadão que pode e deve ser um agende preservador, não só da memória, como da prática daquilo que a ‘Revolução dos Cravos’ nos proporcionou até aos dias de hoje.” Mas acrescenta também que cabe a todos nós, “a tarefa de preservar e perpetuar os valores que Abril nos trouxe”, seja na escola, na família, no café, no trabalho ou na política.
A leccionar a disciplina de História a alunos do 9.º e 10.º anos de escolaridade, refere que nota “algum ‘afastamento temporal’, natural de uma data cada vez mais distante, mas ao mesmo tempo vejo uma larga margem de manobra de sensibilização dos mais ‘novos’ para aquilo que foi o 25 de Abril de 1974 e da sua importância que se prolonga até aos dias de hoje, e é aqui que o professor seja ele da disciplina de História ou não, tem um papel fundamental na transmissão tanto do conhecimento histórico como desses valores e na sua aplicação nos dias de hoje, devemos isso aqueles que deram a vida pela Liberdade e Democracia que hoje vivemos.”
Como professor, sabe como era o ensino, bem o ambiente vivido na ditadura, como o uso de farda, o rezar antes das aulas, inclusive as reguadas nas mãos, de acordo com relatos de quem passou por tais situações. Para o jovem professor, o ensino desta época “é uma ideia que não deve ser só dos professores de História, mas sim de todos, uma luta que todos devemos abraçar para acabar com a falácia que muitos debitam, em que ´no tempo de Salazar é que era bom´. Não, não era. O acesso ao ensino era reduzido e destinado a uma pequena minoria, as taxas de analfabetismo eram elevadíssimas e claro a miséria fazia parte do quotidiano de uma larga maioria da sociedade portuguesa, numa época em que se registou a maior onda de emigração da História de Portugal”, acrescenta.
Um facto que se verifica é que para muitos jovens, o 25 de Abril é simplesmente um dia para descansar, podendo inclusive nem saberem o porquê do seu significado, o porquê de ser feriado. Mas como explica António Machado, para as gerações mais novas, “a consciência de que o 25 de Abril é uma das datas mais importantes da História de Portugal pode vir de uma simples aula de História, de uma conversa entre colegas através de pesquisa autónoma, do visionamento de vídeo, de uma música ou até uma simples conversa de café. Cabe aos que já adquiriram e reconheceram os valores de Abril transmitir a todos os outros que ainda não o fizeram.”
Passado quase meio século da Revolução dos Cravos, há que “explicar de forma mais sucinta possível o tipo de regime que se vivia antes do 25 de Abril, o que foi a Revolução e quais os seus propósitos”, na óptica do jovem, visto ser “a data mais importante da História Contemporânea Portuguesa”.  Acrescenta ainda que “fazem-se encenações do Natal, São Martinho...porque não fazer do 25 de Abril?” (risos)
António Machado vê “uma democracia fragilizada um pouco por todo o mundo com o crescimento da extrema-direita e do populismo, facto que não há como negar”. Acrescenta também que verifica a existência de “uma sociedade frustrada e zangada com um sistema que continua sem dar resposta às suas necessidades, e como nos vários exemplos que a História nos dá, é nos momentos em que as pessoas se encontram mais frágeis e desprotegidas que surgem fenómenos como aquele que também estamos a assistir em Portugal com o crescimento da extrema-direita. Ao mesmo tempo a História também nos dá exemplos em que a luta e resistência prosperaram, acredito que se tivermos cidadãos mais esclarecidos e informados a Democracia estará protegida, mas não podemos deixar essa luta por mãos alheias. No fundo, os valores de Abril devem vir pelas convicções e pelos princípios, e depois a cabeça arruma como é que as convicções e princípios de concretizam, acho que é assim, acho que deve ser assim, para ser algo verdadeiramente humano”, conclui.

jornal@diariodosacores.pt

Share

Print
Ordem da notícia45

Theme picker