Torres e torrinhas, uma casa sobre a casa
Rui Brum Ávila

Torres e torrinhas, uma casa sobre a casa

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Escritos em tempo de pandemia (XXVIII)

Ao visitar algumas das nossas ilhas, nomeadamente as do chamado triângulo composto por São Jorge, Faial e Pico, uma das características arquitetónicas que vemos, sobretudo nas suas vilas, na cidade da Horta e também em algumas freguesias, são as chamadas torres e torrinhas, construídas em madeira. Este elemento nasce a partir do telhado da casa de moradia parecendo, em algumas delas, quase uma casa em cima da outra. 
Este elemento arquitetónico apareceu nos Açores, numa primeira fase, na ilha do Faial registando-se depois no Pico e São Jorge no início do séc. XIX, com a vinda da família Dabney para a cidade da Horta, como negociantes da exportação de óleo de baleia e outros produtos. Esta família, cujo primeiro aqui a chegar foi John Dabney, que ao longo dos anos foi criando descendência, teve uma influência tremenda na vida da sociedade da altura, quer na ilha do Faial quer nas ilhas vizinhas. Terá sido esta família que, ao fixar residência na Horta, começou a construir as suas casas de moradia tendo como base e inspiração a arquitetura da sua terra natal os EUA (Estados Unidos da América) e, apesar de utilizarem para o trabalho de alvenaria canteiros da região assim como a pedra, mandaram vir da América os carpinteiros para construir todos os seus ricos interiores e exteriores onde a madeira era o principal elemento de construção para as portadas, varandas, alpendres, águas furtadas, etc. A partir daqui, todos estes elementos passaram a estar presentes nas novas construções que se iam fazendo pela cidade, e pelas vilas destas ilhas, assumindo o papel de modelo de construção.
As torres e torrinhas eram uma nova tendência no estilo construtivo, além de mais uma adição ao espaço da casa e uma amostra também de algum poder económico, pois não eram todos os que podiam construir e enriquecer as suas moradias com estes elementos já que a madeira e a mão de obra especializada nesta arte era cara, além de que a estrutura base do edifício tinha de ser sólida e ter área e robustez suficiente para se poder construir estes novos espaços.
Além da influência que teve a família Dabney na introdução destes elementos em madeira nas casas destas ilhas os próprios ilhéus, deram também um grande contributo para a expansão deste novo estilo construtivo. Isto porque os homens, sobretudo do Faial e Pico, embarcavam nas baleeiras americanas que passavam junto à costa destas ilhas para fazer a “aguada” e mesmo escala em portos como o da Horta, ao regressarem novamente à ilha depois de anos embarcados nessas baleeiras a fazer a caça, depois de passarem e viverem em cidades da chamada Nova Inglaterra, como Boston, New Bedford, Nantucket, etc, verdadeiros centros baleeiros mundiais, ficavam fascinados com um tipo de construção completamente diferente da das ilhas, onde a madeira era o principal material de construção, ao contrário dos Açores.Ao voltarem, não alteraram apenas a maneira de se construir por cá, também trouxeram consigo objetos do seu dia-a-dia nas “Américas” e modernizaram a sua maneira de viver, quer nas suas casas, hábitos e rotinas, americanizando ainda o seu vocabulário. A sua maneira de construir passou a integrar na habitação varandas, marquises, persianas e águas furtadas com trabalhados elaborados em madeira. Habituados nos EUA a uma vida em moradias de maiores dimensões e por terem guardado dinheiro, e alguns deles fazendo alguma fortuna, decidiram gastá-la modernizando e ampliando as suas moradias, optando por ampliá-las em direcção ao céu, construindo um piso superior na casa, a chamada cá na ilha de “Torre ou Torrinha” da qual se podia observar a linha do horizonte. 
Com esta casa de madeira sobre a casa original surge a expressão “uma casa sobre a casa” sendo a casa original em alvenaria de pedra, em geral de dois pisos e caiada de branco, e a “nova casa” construída de madeira com as tábuas sobrepostas em escama, ou com encaixe tipo “macho-fêmea”e geralmente pintadas de castanho, azul e verde, cores essas mais alegres e a remeter para as cores usadas nos EUA. Na frente, ou empena da torre ou torrinha, consoante a sua dimensão, poderiam ter uma, duas ou até mesmo três janelas de guilhotina ou então uma porta com uma varanda de sacada única, com varandim, também ele em madeira. Quanto mais posses tinham o proprietário, mais elementos decorativos ou de embelezamento tinham essas torres e varandas desde “frisos, pingentes, almofadas, bargebord, etc”.
Para além do novo espaço de acrescento à casa, dando maior arrumação e área útil, estas torres e torrinhas acabavam por ter de certa maneira também uma função cultural e poética. Cultural porque, tal como acontecia com as varandas de sacada corrida por altura das festas religiosas ou vinda de figuras notáveis às vilas, estas eram decoradas com colchas e flores para receber e celebrar essas ocasiões, numa vertente mais poética e espiritual regista-se o uso dessas torres com janelas e, quando viradas para o mar, em especial para o porto local como na Vila das Lajes, eram utilizadas pelas mulheres como uma espécie de vigias para olharem a entrada da barra e o horizonte para ver se avistavam ao longe os seus maridos, irmãos, noivos,  parentes ou conhecidos a chegar da faina baleeira nos botes ou canoas, depois de longas horas de ausência em que se dava a luta entre o gigante dos mares que era a baleia e a frágil embarcação com sete tripulantes. Como não bastasse, ainda tinham o mar que, muitas vezes, em escassas horas, desde a saída para a baleia e o seu regresso, se transformava de “feito chão” para “rofe” ou “bravo”, dificultando a entrada no porto com tantas vezes se verificou ao longo dos anos. Das janelas dessas torres, essas mulheres, de lenço na cabeça, face angustiada e olhar perdido no horizonte, derramaram muitas lágrimas e muitas rezas e promessas fizeram a Nossa Senhora de Lourdes, para pedir protecção, mas também para agradecer quando os seus chegavam a bom porto sãos e salvos. 
Das três ilhas deste chamado triângulo, Pico, Faial e São Jorge, é no Pico e na Vila das Lajes, talvez devido à sua pequenez e ser um aglomerado populacional mais concentrado, que podemos encontrar um maior número e variedade deste tipo de construção, desde as gateiras, trapeiras triangulares para iluminação, as mansardas e claro as torres ou torrinhas. Estes elementos acabaram por dar um ar caraterístico e peculiar a esta vila conhecida por ser a Vila Baleeira dos Açores e que em grande parte das casas possuem este tipo de pormenor arquitetónico, sendo uma imagem de marca da própria vila associada à atividade baleeira. Mesmo atualmente, nas novas construções, este elemento é ainda utilizado por muitos quando constroem as suas moradias, valorizando desta forma um aspeto arquitetónico e histórico do nosso meio. Um dos arquitetos que mais valorizou e fez renascer este tipo de construção em madeira foi o arq. Paulo Gouveia, já falecido, mas que com a sua obra do Museu dos Baleeiros em 1988, em que o uso da madeira quer nos interiores inspirando-se em elementos náuticos, quer no exterior com as torrinhas e as paredes forradas em tabuado, transformou três antigos barracões onde se guardavam os botes baleeiros numa peça de arte e de valorização cultural e arquitetónica, criando desta forma uma nova corrente na área da arquitetura a “Arquitetura Baleeira”. 
Depois disto foram muitos outros edifícios a renascer utilizando estes elementos e técnicas, como o caso da sede do Espaço Talassa, localizado a escassos metros do Museu.
Com a construção do Museu dos Baleeiros este passou também ele a servir como um novo modelo na área da arquitetura tradicional e da construção. Aliás, basta um pequeno passeio pela zona marítima das Lajes, em especial na frente que vai desde a Rua Nova até ao Largo do Cruzeiro, para quase nos sentirmos numa New Bedford insular onde a madeira, a cor e a ligação entre o mar as casas e o homem está intimamente interconectada e isso é afirmado não só pelos especialistas na matéria como também por aqueles que nos visitam e sentem esse paralelismo e esse ambiente diferente único que apenas é encontrado aqui na Vila das Lajes do Pico.
 

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