Debates de Abril

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Quase se pode dizer que é crónico trazer a debate nestes dias, em cada ano, o magno problema da paternidade do 25 de Abril. O assunto por isso já fatiga um pouco, mas não é possível fugir a ele, deixando que continuem a circular versões sectárias, que acabam empobrecendo o significado deveras histórico da Revolução.
O levantamento militar, destinado a derrubar o regime autoritário e a implantar a democracia, foi obra do Movimento das Forças Armadas, maioritariamente composto por oficiais subalternos, na linguagem da época, que não sei se ainda se usa, daí a designação dos Capitães de Abril. Os generais que na noite desse dia apareceram a dar a cara, como membros da Junta de Salvação Nacional, tinham-se mantido e tinham sido mantidos à margem da preparação e realização das operações em causa.
O mérito pois do derrube da Ditadura cabe integralmente ao MFA! E o Programa pelo mesmo apresentado ao País incluía a restauração das liberdades cívicas, a realização de eleições para a Assembleia Constituinte, a descolonização e o fim da guerra em curso em três frentes, e a adopção de medidas urgentes para lançar o desenvolvimento económico e social do nosso País. O Povo aderiu em massa a esses propósitos programáticos e assim se viu nas manifestações do Primeiro de Maio seguinte, aliás realizadas em diversos lugares e também nas nossas Ilhas dos Açores.
Desde o princípio ficou claro que um regime aberto e democrático tinha de ser de todos e para todos. Dele foram excluídos, por legislação extraordinária e por um prazo fixo, os altos responsáveis do regime deposto e os que com o mesmo estavam comprometidos. Mas não faltavam vontades de participação em toda a roda de Portugal, despertadas pela dinâmica democrática, muito para além das elites mais empenhadas na Oposição tradicional.
O Presidente da República, no seu magistral discurso perante o Parlamento, na sessão solene habitual, elogiou os Capitães de Abril, alguns dos quais lá presentes, mas lembrou que o compromisso por eles mesmos assumido era de que nem eles próprios seriam os donos do 25 de Abril, que é pertença do Povo Português. 
Daí passou o Presidente Marcelo a lembrar que os famosos Capitães de Abril não tinham surgido do nada para fazer História, mas sim das duras comissões militares, com a experiência directa da guerrilha nos sertões africanos, combatendo os movimentos de libertação desses territórios e povos, então apodados pela propaganda do regime de terroristas. E adiantou, muito oportunamente, que não se pode julgar o passado com os critérios hoje vigentes, mas é preciso reconhecer nele o bom e o mau, aceitando que nunca existiu, nem existirá, acrescento eu, um Portugal perfeito.
O propósito declarado de alguns partidos, ditos de esquerda, sob a liderança do PCP, de reclamarem para si o 25 de Abril, como se tivessem sido os autores responsáveis do mesmo,  tem sido a razão do afastamento de muitas pessoas e correntes políticas das celebrações populares usualmente organizadas. Mas a este erro não se deve responder com outro erro, que seria deixar o campo livre às ditas cujas forças políticas comunistas ou aliadas.
Como ainda recentemente aqui lembrei, sempre me opus a tal atitude. E nunca alinhei com a alergia do PSD nacional, a partir de certa altura, até aos próprios cravos vermelhos de Abril, mantendo sempre o costume de o trazer na lapela nas cerimónias parlamentares desse dia. Com verdadeira pena verifiquei, ao voltar à Assembleia da República, após o tempo de Presidente do Governo da Região Autónoma dos Açores, ser o único, ou um dos poucos, a ostentar o símbolo festivo da Revolução nas bancadas do PSD, onde aliás era costume verificar ostensivas ausências.
 Mas afinal porque haveria o PSD de dar sinais de assumir as dores dos derrubados pelo 25 de Abril? Os fundadores do Partido tinham sido todos eles Deputados à Assembleia Nacional, mas nela marcaram posição de desconformidade com os princípios e as orientações do regime, lutando, com iniciativas e declarações concretas, pela prevalência das liberdade públicas e pela implantação da democracia. Nos últimos dias antes da Revolução, eu próprio tinha defendido a independência do então designado Ultramar, recusando votar uma moção de apoio à manutenção da guerra. O contributo de pedagogia democrática da chamada Ala Liberal também se inscreve no código genético do 25 de Abril. E a actuação dos Deputados do PSD, então sob a sigla PPD, mas sempre inspirados pelo ideário da Social-democracia,  na Assembleia Constituinte, foi fundamental para a criação do Estado de Direito Democrático em que vivemos e no qual avulta, como realidade incontornável , a Autonomia Político-Administrativa dos Açores e da Madeira.  
Considero desejável que a Revolução do 25 de Abril, mesmo com as euforias e até desvarios inegáveis mas explicáveis, seja reconhecida como o momento histórico fundador de uma nova fase da  História de Portugal e da vivência do Povo Português. E como tal se celebre em verdadeiro espírito de festa popular, como nos primeiros tempos se fazia, e de unidade democrática, sem fracturas sectárias ou de tipo tribal, como no Canadá o 1 de Julho, nos Estados Unidos da América o 4 de Julho, e em França o 14 de Julho.

(Por convicção pessoal, o Autor não respeita o assim chamado Acordo Ortográfico.)  
 

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