João Boavida: Uma Figura da Educação Filosófica e Didática (I)

João Boavida: Uma Figura da Educação Filosófica e Didática (I)

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A Obra e o Pensamento do Professor João Boavida, despertaram, desde cedo, o meu interesse na minha carreira académica, não apenas em termos de investigação, mas também em termos de ensino, como, aliás, deveacontecer. Tenho bem presente de me ter deslocado à Universidade do Minho para assistir ao “III Encontro Nacional de Didáticas/Metodologias, organizado pelo Departamento deEducação da Universidade do Minho, que decorreu em Braga, de 21 a 23 de setembro de 1995”, no qual só foi apresentada uma comunicação sobre “Ensino da Filosofia”, pelo Doutor João Boavida, com o título “Uma didática para o reencontro com a Filosofia” (Boavida, 1997, p. 213-232). 
No fundo a didática é assumida como condição para um reencontro com a Filosofia, o que, implicitamente, faz notar que a Filosofia, só por si, não o consegue, embora se mova nesse sentido. 
O Filósofo e Didata formula assim o seu propósito: “esboçar uma didática que possibilite aos alunos do Ensino Secundário o reencontro da Filosofia; que dê aos alunos e aos professores uma vivência real da atividade filosófica e possa constituir-se como entidade filosoficamente formadora. Para isso a filosofia necessita de uma didática específica.” (Boavida, 1997, 213). Basta saber para saber ensinar? Como desenvolver uma didática sem cair no didatismo, que esvazia o saber filosófico e o saber específico de qualquer disciplina? Tradicionalmente a Didática Geral procurava corresponder a todos os elementos para ensinar, com propriedade para o que devia ser ensinado. 
    Neste texto, terei em conta as conceções e textualidades do próprio autor, que, em si, são reveladoras e suscitam importantes questões. 
Ao referir-se à “dimensão educativa da filosofia” explicita João BoaVida: “Quando se aborda a natureza educativa da filosofia teremos que analisar com um pouco mais de cuidado a questão. Sempre se disse, e com razão, que a filosofia era educativa ou formativa. E por que o deixou de ser? Certamente porque está em causa mais do que um sentido de educação, e porque há uma questão de objetivos que não se pode tornear” (Boavida, 1997, p. 216). Já na longa tradição, algo binómica, (que deve ser problematizada) de Kant e Hegel o primeiro defendia o filosofar (“ousa pensar”), enquanto o segundo defendia a filosofia e a sua ensinabilidade (teorias, sistemas, conceitos, etc. Mas é possível outras perspetivas, entre as quais a conceção fenomenológica, que vai “do vivido ao pensado” e que ganhou grande alcance na reformativa educativa e curricular pós 1990/1991, em Portugal. O aluno e o professor passaram a ser vistos como intérpretes e sujeitos epistémicos, tendo em conta a suas vivências. 
No texto acima referido, João Boavida explicita os “objetivos” “Intelectuais” e “Afetivos” . Nos intelectuais” inclui “atitudes”,”hábitos”, “aquisições” e nos afetivos” inclui “atitudes”, “hábitos”, “exigências”. E finaliza o texto com “atitudes e procedimentos a respeitar”. Trata-se de uma certa operacionalização da didática da Filosofia. 
No seguimento deste texto, terei como referência a Obra central de João Boavida intitulada Filosofia – do Ser e do Ensinar. Pela enunciação é uma obra de Filosofia, que se desdobra numa finalidade, a da ensinabilidade da própria Filosofia. É aliás, fundamental que o Autor traga para o título o próprio conceito  de Filosofia, suscitando dois verbos, melhor, um ontoverbo – Ser – e o verbo ensinar. A Filosofia irrompe com a sua força. Por todo o lado há ser e o ser está implícito em tudo o que dizemos e fazemos, como nos faz ver Vergílio Ferreira. 
Na Obra enunciada, Filosofia – do Ser e do Ensinar, a questão da Didática assume uma grande centralidade. Afirma João Boavida: 
“Em suma, uma didática da Filosofia que implique, mais que um programa de matérias a aprender, uma vivência dela; e, quanto ao aluno, mais que um recetor de conteúdos, um adolescente que espera encontrar na Filosofia um modelo de atitude psicológica e de disciplina mental, uma resposta às suas perplexidades e um motivo para a ativação da sua capacidade intelectual disponível. Em resumo, uma conceção pedagógica para a qual os conceitos de Filosofia e de adolescência sejam elementos convergentes catalisadores de uma atividade filosófica” (Boavida, 1991, p. 11). 
Na didática da Filosofia é muito importante a Figura do Professor. 
Afirma João Boavida: 
“Há portanto, que considerar também este elemento determinante que é o professor. O seu temperamento, a sua maturidade cultural e afetiva, em suma, a sua personalidade. É elemento fundamental. Em certa medida poder-se-á dizer que a Filosofia será para os alunos aquilo que for para o professor, ou aquilo que a personalidade do professor traduzir da ação que nele terá exercido a Filosofia. “(Boavida, p. 1991, p.11).

Detenhamo-nos, um pouco, sobre a Figura do Professor. O Professor é uma Figura central. Manuel Ferreira Patrício tambémo defende, apesar da sua visão aprofundada – ou talvez por isso - do Movimento da Escola Nova, em que o aluno, o educando, acaba por estar no centro do processo pedagógico. Mas é justamente para permitir, na sua verdadeira auctoritas magistral que o professor é o garante de todo o dinamismo e de toda a dinâmica. O verdadeiro Professor cria uma comunidade de saberes e aprendizagens. Mas para além dos aspetos pedagógico e didáticos, há que tematizar as questões deontológicas, também tão caros a Manuel Ferreira Patrício. 
Considerando a degradação do ensino, em todos os níveis, ninguém deviaentrar na Profissão de Educador de Infância, de Professor do Ensino Básico e Secundário, sem fazer uma prova pública, de deontologia educacional e profissional, em que a assistência pudesse intervir e questionar os candidatos, até para aferir a solidez do percurso de deontologia educação (em vários contextos), não em termos teóricos, mas em termos teórico-práticos, tendo em conta o que fizeram de mal (de modo intencional) e de bem, considerando que qualquer ato individual entra numa coexistência. Julgo que a prova devia ser bem afirmativa, até porque já é tempo, de novo, de dar toda a atenção à Formação do Caráter. A Formação do Caráter é uma exigência do futuro e não retira, em nada, em nada, um ensino para a liberdade, para a criatividade, para a responsabilidade, para a autonomia. Neste contexto não podemos esquecer os exemplos do bullying e do ciberbullying. Não podemos conceber uma instituição educativa em que uns agentes movem perseguição e fazem mal aos outros. A Escola tem de começar a fazer a diferença. Não pode ser. Hannah Arendt fala na “banalidade do mal” mas é preciso contrapor e exigir a obrigação de fazer bem, de fazer o Bem, isto é, de colocar o Bem como elemento constituinte do humano, do cívico, do político e do jurídico. 
A Didática da Filosofia deve centrar-se sobre os saberes essenciais mas todos eles devem tornar o Homem melhor, nas suas várias dimensões. E é de salientar que apesar da operacionalização da Didática, levada a cabo por João Boavida, a Figura do Professor é valorizada, até porque, em Filosofia, a experiência de ser Professor confere uma experiência pedagógica muito peculiar, dado o sentido formativo da Filosofia. Ensinar e aprender Filosofia têm um impacto e um influxo recreativo. Mas no pensar o ensino da filosofia não pode ser um ato que implique uma relação unívoco com os conteúdos, pelo contrário, ensinar Filosofia implica pensar e interagir com todos os elementos e tornar os alunos como sujeitos ativos que ajudam a reconstruir e a repensar o ensino da Filosofia, através do seu próprio processo de aprendizagem. 
Afirma João Boavida: “Assim, perguntar pelo ensino da Filosofia sem perguntar pelos seus destinatários é deixar de fora um elemento imprescindível (Boavida, 1991, p. 26). Não se trata – não se deve tratar - da Filosofia como “disciplina constituída”. (p.27). Pelo contrário, o perguntar irrompe na sua dinâmica: 
“Atendendo a que perguntar pelo objeto da Filosofia equivale, quase inevitavelmente, a cair numa disciplina constituída, bloqueando, à partida, toda a dinâmica potencial da aprendizagem e da atividade filosófica, talvez se deva perguntar: o que deverá ser aFilosofia para os adolescentes? (…) Partindo dos adolescentes seremos obrigados a começar por uma atividade, por uma concretização de operações e tarefas, o que altera completamente as coisas. “(Boavida, 1991, p. 27) 
Quem tem experiência de lecionação da Filosofia no 10º e 11º anos, mas também no 12º ano sabe que a experiência, a problematização e o questionamento constituem fontes de aprendizagem filosófica e os conhecimentos surgem em dinâmicas de saberes constituintes. Saberes que se reconfiguram. Lembro de um texto que escrevi sobre a Didática da Filosofia antiga, mais especificamente sobre a Alegoria da Caverna de Platão e analisei e potenciei, do ponto de vista didático, a letra e música dos Delfins, Soltem os Prisioneiros, extraído do CD O Caminho da Felicidade. Como propus o acesso à Filosofia antiga? A partir do Hoje, isto é, daquilo que é vivenciado e experiencia. O texto, então publicado (1998) intitula-se assim: “A Filosofia Antiga: Um Desafio para os Jovens de Hoje”. Trata-se de um exemplo que mostra como se pode partir da atualidade para ler livros de Platão. E, curiosamente, utilizando o diálogo como método, no qual se vai para… mas também no qual se descobre algo…
A intersubjetividade está presente, por inerência, nos Diálogos de Platão. Convém aqui destacar a didática socrático-platónica. Enquanto Sócrates valoriza a oralidade, Platão promove o diálogo na forma escrita. Na Didática da Filosofia é muito enriquecedor complementar estes dois métodos. Por outro lado, vê-se como o antigo é redescoberto a partir do novo, o hoje atual leva ao antigo atuante. Em Didática também funciona e é útil a intuição, se o professor a tem e a cultiva. 
Parti da atualidade, da vivência da atualidade, para fazer uma abordagem de um texto clássico, que trata da realidade dramática da opressão do ser humano sobre o ser humano. E, desde muito cedo, na minha vida, a liberdade sempre foi uma realidade, um forte desejo e desígnio, e um valor pelo qual tenho sempre combatido. Mas a liberdade não se dá em abstrato dá-se em concreto, a liberdade é substância de ser.É preciso fazer uma didática da liberdade, que nos ajude a respeitar mas também a ser respeitados, a liberdade exige deixar ser mas exige, também, muita comunicação. Comunicar, ainda e sempre, é sempre uma realização a concretizar, a fazer, para aprendermos a viver juntos. A esta distância vejo todos estes elementos no Pensamento e Obra de João Boavida. 
E tudo isto, exige muita sensibilidade e muita pedagogia. 
O autor, João Boavida, explicita a sua finalidade que vai estar presente nos seus escritos sempre a partir de uma preocupação, devidos aos destinatários – os alunos do ensino secundário – colocam desafios educativos e formativos em reação à Filosofia, a Filosofia também é repensada na sua essência pedagógica, há, pois, uma relação entre a “Pedagogia-Filosofia-Filosofia-Pedagogia”, que importa dará destaque a partir da publicação do próprio João Boavida. 
(continua) 

*Doutorado e Agregado em Educação e na Especialidade de Filosofia da Educação 

Referências Bibliográficas: 
Boavida, João (2010).m Educação Filosófica. Sete Ensaios. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. 
Arendt, Hannah (2007). A Promessa da Política. Relógio D’Aguia Editores. Antropos. 
Boavida, João (1997). Uma Didática para o Reencontro da Filosofia. In Didáticas/Metodologias do Educação. Braga: Departamento de Metodologias da Educação. Universidade do Minho. Pp: 213-229.
Boavida, João (1993). Pedagogia-Filosofia-Filosofia-Pedagogia. Coimbra: Universidade de Coimbra. Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. pp: 349-385 (Separata). 
Boavida, João (1991) Filosofia – do Ser e do Ensinar. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. 
Medeiros, Emanuel Oliveira (1998). A Filosofia Antiga: Um Desafio Educativo para os Jovens de Hoje. Ponta Delgada: Universidade dos Açores. Revista Arquipélago, Filosofia 6. 
NOTA: Texto publicado originalmente na Revista Nova Águia – MIL -, neste 1º semestre de 2021. pp:165-170.
 

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