O que nasce torto...
Osvaldo Cabral

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Diário Inconveniente

O processo de vacinação em S. Miguel, no passado fim de semana, foi simplesmente deplorável.
Pretendia-se que houvesse uma vacinação massiva para equilibrar a estatística, mas não se pedia que o processo fosse descontrolado e completamente desigual.
Como é que pessoas sem qualquer comorbilidade e com menos de 60 anos foram vacinadas?
Como é que tanta gente foi vacinada sem agendamento?
E os que agendaram a toma da vacina no portal da Autoridade de Saúde e continuam à espera de serem chamados?
Se a Unidade de Saúde da Ilha de S. Miguel não tinha recursos suficientes para montar uma operação desta envergadura, com o devido e justo controlo, devia ter avisado e planeado com mais tempo.
O que se passou em S. Miguel foi muito feio e mais feio ficou quando algumas pessoas, sem critério de vacinação, vieram a público se vangloriar de terem sido vacinadas, passando à frente de outros concidadãos mais prioritários.
O processo de vacinação nos Açores começou torto, com relatos de abusos e aberturas de inquéritos no início do ano a Misericórdias e Hospital de Ponta Delgada, mas até agora não se conhecem resultados.
Mandar abrir mais um inquérito sem que se conheçam os resultados do primeiro, não é lá muito confiante.
A vacinação veio demonstrar, para além da impreparação de algumas unidades de saúde, que há muita gente egoísta nesta terra, sem interesse nenhum pelo semelhante e onde a palavra de ordem é salve-se quem puder.
Há milhares de micaelenses e açorianos em geral que agendaram, há vários meses, a sua toma da vacina.
Nunca foram contactados e ver agora muita gente a ser vacinada sem qualquer tipo de agendamento é revoltante e demonstrativo de que o processo relativo a S. Miguel foi descurado pela Autoridade de Saúde, por negligência ou incompetência.
Querem mais do que isso para que os cidadãos deixem de confiar na Autoridade de Saúde?
Organizem-se!

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AINDA O PICO - Outra operação que nasceu torta e mantém-se torta é a do processo de ampliação da pista do Pico.
Há vários anos que junto a minha voz a tantas outras em defesa do destino com mais potencial turístico do nosso arquipélago que é o triângulo formado por Faial, Pico e S. Jorge.
Se há aposta que a nossa Região deve fazer, com toda a prioridade de investimento público, é a acessibilidade aérea numa daquelas ilhas, sem qualquer tipo de penalização para os aviões de médio curso.
O estudo encomendado pelo governo anterior e revelado pelo “Diário dos Açores” na semana passada tem duas soluções que até nem oneram os cofres da região, sabendo-se que um investimento desta natureza tem financiamento garantido com fundos europeus.
A ampliação do aeroporto do Faial é importante, mas está fora da nossa gestão e sempre dependente da boa vontade da República e da empresa que  o gere.
Apostar na ampliação da pista do Pico é uma prioridade absoluta da Região, se queremos criar um destino com enorme potencial, com todos os benefícios que isso irá trazer para o triângulo, desde logo mais riqueza, mais empregos e uma forma de contrariar a perda de população.
Os números são claros: antes da pandemia, em 2019, este triângulo insular totalizou mais de 422 mil dormidas. 
É o segundo destino a seguir a S. Miguel, sendo que S. Jorge (+18,8%), Pico (+14,3%) e Faial (+8,2%) obtiveram crescimentos significativos em termos homólogos.
O Pico tem uma estada média das mais altas da Região (3 noites) e todos sabemos das potencialidades turísticas desta ilha para crescer muito mais.
Se é assim com um aeroporto penalizante para os aviões que ali operam, imagine-se com uma pista sem restrições para os aviões de referência, permitindo receber voos de Madrid, Londres ou Paris...
O estudo aponta para esta solução, mas este governo, à semelhança do anterior, parece querer remeter os papéis para a gaveta do esquecimento.
Bastou ver a hipocrisia dos nossos deputados, os que votarem contra o projecto no parlamento, quando tinham feito disso bandeira na campanha eleitoral, e os que apresentaram a proposta, porque enquanto foram governo também tinham votado contra a proposta.
Quando temos aqui um projecto potenciador para valorizar três ilhas em particular e os Açores em geral, não se percebe porque não se aproveita a “bazuca” europeia para resolver um problema de tão fácil resolução.
Haja vontade.
E alguma esperança.

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