O sorriso do português
Mário Freitas

O sorriso do português

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Conversas pandémicas LIV

1.    A ASCENÇÃO DA ÁSIA
Durante toda a pandemia, e até março, a Ásia foi um continente relativamente tranquilo. Agora é o único continente com os números da COVID19 em ascensão, impulsionados principalmente pela Índia c mais de 350.000 novos casos por dia (o N real é decerto muito maior)
Também a Malásia, o Irão, o Japão, o Camboja, a Tailândia, a Indonésia, o Paquistão e vários outros têm tido um número preocupante de novos casos, ademais porque falamos de países com Serviços de Saúde públicos muito incipientes.
2.    O IMPACTO DO PESO NAPANDEMIA
Já aqui escrevi sobre o conceito de sindemia. Um artigo publicado [consultável em https://www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587(21)00089-9/fulltext], documenta um estudo de coorte prospectivo, com dados de pacientes com 20 anos ou mais, que foram registados entre 24 de janeiro de 2020 (data da primeira infecção registada no Reino Unido) e 30 de abril de 2020, com dados disponíveis do IMC. Os dados extraídos incluíram valores demográficos, clínicos e clínicos vinculados ao banco de dados de resultados positivos do teste SARS-CoV-2 da Public Health England, e certificados de óbito do Office of National Statistics. 
Entre 6.910.695 indivíduos elegíveis (com IMC médio de 26,78 kg/m2 [DP 5,59]), 13 503 (0,020%) foram internados no hospital, 1601 (0,02%) numa UCI e 5479 (0,8%) morreu após um teste positivo para SARS-CoV-2. 
Foram encontradas associações em forma de J entre o IMC e a admissão ao hospital devido à COVID-19 e morte, e uma associação linear em toda a faixa de IMC com admissão na UCI. Foi também encontrada uma interação significativa entre IMC e idade e etnia.
A interpretação destes resultados é a de que com um IMC maior do que 23 kg/m2, encontramos um aumento linear no risco de COVID-19 grave, levando à admissão no hospital e morte, e um aumento linear na admissão numa UCI em toda a faixa de IMC, que não é atribuível a riscos excessivos por outras doenças. O risco relativo devido ao aumento do IMC é particularmente notável em pessoas com menos de 40 anos e de etnia negra.

3.    A regra “2 em 3”
Máscaras? Só ao ar livre, e com distanciamento.
4.    VACINAS
Já temos evidências sólidas de que existem vacinas que nos protegem contra todas as variantes preocupantes: a B.1.351 (África do Sul), a P.1 (Brasil), a B.1.1.7 (Reino Unido), a B.1.526 (NY), a B.1.429 (CA).
Analisando as propriedades de “evasão imune”, e colocando em imagem de forma ascendente, a variante B.1.351 é a que tem a mais alta evasão imune, documentada por meio de vários estudos. Mas,é responsiva à vacina. 
Reproduzo aqui uma tabela do Dr. Eric Topol que resume as evidências. Regra geral, os estudos laboratoriais com soros de vacinados têm uma correlação estreita com os resultados clínicos.
5.    O SORRISO DO PORTUGUÊS
Consta que Isabel Bowes-Lyon (a defunta rainha-mãe de SM a rainha Isabel II),que era de origem escocesa, ao visitar África terá sido alvo de um ataque verbal de um Bóer, que à sua passagem lhe terá atirado com um “eu odeio ingleses!”.Com a elegância que a definia, Isabel Bowes-Lyon terá sentenciado, simplesmente, “eu sou escocesa”.Vem isto a propósito do episódio do “sorriso do português”, ocorrido há 1 semana, num debate livre, na RTP Açores.
O episódio em si, do “sorriso do português”, não tem importância. Foi um comentário espontâneo, de um autarca, eleito pelo povo, com a legitimidade indiscutível que tal confere, e que é reconhecido como um nome maior da vida política açoriana. Goste-se ou não, o lugar que ocupa conquistou-o, nas urnas. O comentário que fez, num qualquer debate político, não teria nada demais. E, ali, o Dr. Ricardo Rodrigues estava como autarca, político. Ponto.
O problema centra-se no que aconteceu depois deste episódio, os ataques xenófobos nas redes sociais, o resvalar para o ataque grosseiro ao Dr. Tato Borges, à sua pessoa, à sua competência, feito por aqueles que entendem opinar sobre tudo, detrás de écrans de telemóvel ou de computador, e a boleia conseguida por esses mesmos para a vanglória da vacina fora de tempo. 
Esta pandemia tem sido uma maratona, para os profissionais de Saúde Pública. Para a generalidade dos cidadãos resume-se, muitas vezes, a pequenas provas de velocidade, em que a ansiedade de sair de fases de maior contenção leva ao não cumprimento das medidas preventivas, que nos permitiriam sair dos picos pandémicos de forma mais célere. Este paradoxo, nem sempre é perceptível, encerra a mais cruel das realidades. 
Os movimentos anti-máscara, anti-RTPCR, anti-vacinas têm aproveitado para lançar permanentemente ruído, procurando discussão à volta de medidas técnicas, alicerçados que estão no conhecimento obtido em meia dúzia de leituras no FaceBook, ou, em 2 ou 3 cadeiras que tenham tido na Faculdade, ou no Liceu. A isto, mentes mais mesquinhas acrescentam umas boas doses de índole partidária.
Um especialista em Saúde Pública, como o Dr. Tato Borges, tem 6 anos de formação universitária como médico, 1 ano de internato do ano comum, e 4 anos de internato de formação especifica médica em Saúde Pública, nos quais se inclui um ano a tempo inteiro de curso especializado em Epidemiologia e políticas de saúde. É disto que falamos. Discutir-se-ia nas redes sociais a abordagem cirúrgica que um cirurgião fez num determinado doente…? A técnica utilizada…? Não!
E, ademais, não passaria pela cabeça de nenhum médico de Saúde Pública questionar a forma como um colega cirurgião realiza as suas “operações”, da mesma forma que seria ridículo ver um ortopedista ou uma cardiologista discutir em público, ou implementar em privado, por decisão em mesa de chá, medidas de Saúde Pública. Poderia sair asneira. E asneira grave. Como já pode ter acontecido.
Em Portugal a COVID-19 é uma doença em que cerca de 4% de doentes tem necessidade de internamento e cerca de 0,5% dos doentes acabarão em unidades de cuidados intensivos. A taxa de letalidade, que significa o número de mortes entre os infectados, é de 2%.Quantos mais infectados tivermos, naturalmente, mais internamentos e mortes teremos. Enquanto  não houver um tratamento eficaz, e enquanto a metrópole continental continuar a enviar para os Açores escassas quantidades de vacinas, mantém-se a necessidade de medidas comportamentais no combate à pandemia. E é preciso ser muito racional no uso das vacinas que possuímos. Uma vacina não administrada a alguém com patologias de risco poderá vir a significar a morte dessa pessoa. A prioridade é, e tem de ser, os mais frágeis. É isso que é esperado da sociedade.
Quanto à competência do Governo Regional dos Açores, na condução desta pandemia, os dados objectivos falam por si: Oito das nove ilhas numa vida, social e económica, com medidas de contenção ligeiras; uma ilha onde têm ocorrido os maiores surtos, pelas razões que (seriamente) todos sabem, mas onde, ainda assim os valores no maior pico foram cerca de metade do pico na Região autónoma da Madeira, e menos de um terço da média nacional no seu pico pandémico. 
Porquê? Pela monitorização permanente em Saúde Pública, pela tomada de decisões atempadamente decorrente do sistema de semáforos implementado, por um sistema hospitalar que monitoriza e vigia as suas capacidades, lançando alertas quando está perto do limite, por um plano de vacinação que privilegiou os mais frágeis, por um sistema de vigilância epidemiológica inexcedível, mesmo quando lhes são retirados recursos humanos a nível local.
Há que saudar, e felicitar, a RTP Açores por todos os debates construtivos. Como foi o debate da passada semana, que além do Dr. Ricardo Rodrigues e do Dr. Tato Borges, contou com a presença da Presidente da Ordem dos Médicos nos Açores, Dra Margarida Moura, e do Dr. Berto Cabral, Director-Regional da Saúde. 
Pessoalmente, sendo africano, alheio-me de discussões sobre a origem metropolitana, ou insular, de quem quer que seja. Mas, tenho de me alegrar por vivermos um tempo em que tal debate foi possível, volvida uma década do tempo em que poetas-secretários recusavam debates, se estivesse presente no mesmo um determinado interlocutor técnico responsável, condicionando assim, indiscutivelmente, os mesmos. “Ardia a bandeira…”, de tal secretário encantado.


*Médico consultor (graduado) em Saúde Pública e Delegado de Saúde
 

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