“O importante é continuarmos a ter um serviço diferenciado, com o máximo de qualidade e com profissionais do mais alto nível aqui nos Açores”
Rita Frias

“O importante é continuarmos a ter um serviço diferenciado, com o máximo de qualidade e com profissionais do mais alto nível aqui nos Açores”

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O jovem terceirense é conhecido como “o barbeiro dos jogadores”

Natural da freguesia da Agualva, Concelho da Praia da Vitória, João Rocha é um caso de sucesso aos 36 anos de idade. É barbeiro de profissão, mas até a tal chega, a sua vida pessoal e profissional passou por várias fases. Aos 17 anos, indeciso se ingressaria no ensino superior, acabou por não o fazer após arranjar emprego numa agência funerária, onde esteve durante 7 anos. Após isso, abriu o seu primeiro negócio, um stand motos, “numa altura em que tudo se vendia”. No entanto, com a crise financeira que abalou o país em 2008, encerrou a actividade. Admite ter sido “uma fase complicada”. Chegou a fazer animação de rua e a trabalhar no ramo da construção civil. Quis o destino, segundo o jovem barbeiro, tirar o curso nesta área em que se encontra a trabalhar actualmente, algo que nunca havia pensado fazer. Abriu o seu primeiro espaço na vila das Lajes, na ilha Terceira, em 2014, tendo depois se fixado em Ponta Delgada. 

 

Diário dos Açores - Porque decidiu enveredar pela profissão de barbeiro?
João Rocha - Por coincidência ou destino - eu prefiro acreditar que estava destinado - fui ao continente. Estava à espera da minha esposa numa escola de estética e beleza e conheci um senhor que era cabeleireiro e professor nessa escola. Numa troca de palavras, perguntou-me porque é que eu não tirava o curso de barbeiro. Na altura, apenas me ri porque era algo que nunca tinha feito ou experimentado nem nunca tinha pensado nisso sequer, e também porque era uma profissão quase em vias de extinção. Mas as palavras dele ficaram na minha cabeça. Fiz contas à vida e por sorte, tinha mesmo apenas o valor certo para esse curso e sem dizer nada a ninguém pensei: “porque não?!”. E decidi arriscar. Mas só percebi que era mesmo isto que queria fazer para o resto da minha vida quando, na escola, atendi o primeiro cliente/modelo porque foi o facto de perceber que o meu trabalho tinha mexido com a autoestima daquela pessoa que me encheu a alma e me fez querer aprender mais e mais para poder dar a cada pessoa a sua melhor imagem possível.

Com duas barbearias no arquipélago, pretende abrir mais alguma, noutra ilha, por exemplo? Ou mesmo fora do arquipélago?
JR - O número de barbearias ou de barbeiros, para mim, não é o importante. O importante é continuarmos a ter um serviço diferenciado, com o máximo de qualidade e com profissionais do mais alto nível aqui nos Açores. O nosso foco é dar a quem nos procura o máximo de atenção possível porque o valor que o cliente nos paga é um investimento na sua imagem e nós levamos isso muito a sério. É pra isso que trabalhamos todos os dias e que investimos muito na nossa formação constante. 
Neste momento, temos duas barbearias, uma na Terceira e uma em São Miguel, porque para nós faz sentido que assim seja. A nível financeiro e empresarial, se calhar, até fazia sentido abrirmos uma em cada ilha e até mais do que uma na Terceira e São Miguel, mas esse não é o nosso foco. Queremos manter a qualidade ou, se possível, ir acrescentando qualidade aos poucos. Por isso, adorávamos poder chegar a todos os açorianos, mas sabemos que não conseguimos e não queremos nos tornar numa cadeia “fastfood” porque isso seria enganar os nossos clientes que nos conhecem e sabem que amamos esta arte e trabalhamos com o coração. O mesmo aplica-se a várias propostas que tenho tido para abertura na baixa do Porto e de Lisboa. Até mesmo quando estive no Dubai, tive, e continuo a receber, mensagens deles para abrir pelo menos uma no Dubai, mas como disse fico grato por isso, mas não faz parte dos nossos planos.

Com quantos colaboradores conta no total?
JR - Neste momento, sou eu, Leandro Ribeiro, Emanuel Lourenço, Paulo Filipe, Pedro Alves, Vítor Salgado, Ana Conchinha, Catalino Tattoos e a Sara. São profissionais que fui encontrando ao longo da carreira com quem me identificava em vários pontos e que eles também se identificavam com as minhas ideias de trabalho, evolução, colaboração, união e juntamos o útil ao agradável. Tenho total confiança e orgulho na equipa que temos hoje em dia: um grupo fantástico, uma segunda família que se apoia e trabalha em prol do mesmo. E também já temos um estúdio de tatuagens e piercings aqui em Ponta Delgada, algo que complementa bem o nosso estilo de vida.

Como é a afluência nas duas barbearias?
JR - Graças a deus, e ao nosso trabalho, temos tido sempre muita procura, já desde o tempo em que eu trabalhava sozinho na ilha Terceira. Na altura, que era por ordem de chegada, as pessoas iam às vezes de manhã para serem atendidas à tarde. Hoje em dia, com a evolução dos nossos serviços, trabalhamos de forma muito mais organizada, tanto para nós como para o cliente e, por isso, já não acontece assim. Mas continuamos a ter de rejeitar algumas pessoas pela agenda estar cheia.

É o primeiro barbeiro português a ser nomeado para o prémio “Barber of the year”. Qual o sentimento perante esta nomeação?
JR - Foi uma enorme surpresa quando recebi a notícia. Esperei pela confirmação para anunciar porque até tinha receio que fosse algum erro ou brincadeira. Depois, caí em mim e fiquei emocionado porque percebi que aquilo era o pagamento do esforço todo e do investimento que fiz em mim ao longo dos anos. Sinto-me grato também aos meus clientes e a todas as pessoas que me ajudaram a evoluir, a todos os açorianos pela força constante e pela motivação.

Tem percorrido o mundo em virtude das masterclasses administradas por si, bem como a participação como júri em várias competições. Como têm sido estas experiências?
JR - Ao fim de algum tempo a investir em mim, a ir várias vezes ao estrangeiro tirar formações, participar em concursos e batalhas, vamos conhecendo pessoas e as pessoas vão começando a ver o meu trabalho e, também graças às redes sociais, o meu trabalho sempre foi partilhado lá fora. Isso fez com que atraísse algumas marcas, patrocinadores e promotores de eventos. Então, ao fim de três anos, nesta área, já estava a ser chamado para dar uma formação em Itália. Correu bem e depois disso, tem surgido sempre todos os anos convites para eventos e formações. Além de Milão, já estive em Las Vegas, Nova Iorque, Edimburgo, Madrid, Granada, Genebra, Moçambique e Dubai. Aprender as culturas e costumes de cada país é muito importante. Por vezes, é bom estar a participar, mas também é muito bom estar do outro lado a avaliar. Também é muito bom ir tirar uma formação, mas também aprendo muito quando sou eu a dar formação aos outros. Então, tudo faz parte do processo. Além da parte profissional, que é muito bom, também consigo conhecer o mundo, um sonho desde criança: viajar pelo mundo todo e aos poucos, vou conseguindo.

Falemos do confinamento imposto na Primavera de 2020. Como foi esta fase? E ao regressar ao trabalho, qual foi o sentimento?
JR - Foi um dos momentos mais estranhos que passei na vida, tanto a nível pessoal como profissional. Muita incerteza sobre o que se estava a passar: quanto tempo íamos estar naquela situação?! Será que se ia agravar?! Que vírus é esse?! Muitos medos, muitas questões, mas fomos mantendo a calma, fazendo algumas chamadas em grupo pra sabermos se a equipa estava toda bem e para nos apoiarmos uns aos outros. De qualquer forma, não baixámos os braços e fomos estudando, planeando algumas coisas para o futuro e até fazendo algumas remodelações, já que tínhamos tempo livre. Espero não termos de passar por algo semelhante novamente na vida.

Seria uma falácia dizer que a profissão de barbeiro está em vias de extinção, pelo contrário. É uma profissão antiga, mas que tem vindo a acompanhar a evolução da sociedade...
JR - Não está… mas esteve. Quando comecei em 2014, contavam-se pelos dedos das mãos, as barbearias nos Açores. Neste momento, são mais de 60. Ou seja, em 7 anos, passou de meia dúzia de barbearias com uma média de idades já elevada, para um renascimento renovado da barbearia, com imensos jovens a apostarem nesta profissão, que é das mais antigas do mundo. Somos uns privilegiados em poder exercer esta profissão e em passar de geração em geração esta arte.

Faz questão de estar sempre a par das tendências, certamente.
JR - É fundamental. Hoje em dia, os acessos às redes sociais facilitam e aceleram o processo das tendências, ou seja, há uns anos, a moda demorava a chegar cá. Hoje em dia, assim que sai algo novo, em meia hora, já deu a volta ao mundo e temos de estar a par disso porque os nossos clientes são exigentes e informados. E também porque gostamos de estar sempre a par das novidades.

É conhecido como o “barbeiro dos jogadores”. Fale-nos sobre isto.
JR - Aconteceu assim de repente, sem eu esperar, e contra todas as probabilidades porque eu não tratava de nenhum jogador na altura e ainda estava na Terceira. Logo, nada fazia prever que um dia eu fosse cortar a um jogador da primeira liga ou muito menos de um grande clube. Mas quando gostamos do que fazemos e tentamos dar sempre o nosso melhor, as coisas as vezes acontecem como consequência do nosso empenho. E então, esse dia chegou: recebi mensagem de um jogador do Futebol Clube do Porto - na altura, ele nem fazia ideia que eu era dos Açores - apenas viu o meu trabalho nas redes sociais, gostou e queria que eu tratasse da imagem dele. Foi assim que tudo começou. Depois, atrás dele, vieram outros, e de outras equipas também. Quando abri em Ponta Delgada, comecei também a tratar do plantel do Santa Clara quase todo. Volta e meia, saía notícias sobre eu a tratar desses jogadores e foi aí que comecei a ficar conhecido também pelo “barbeiro dos jogadores”.

Já agora: qual o seu clube?
JR - (Risos) A questão de “um milhão de euros” ...estou a brincar. Todos sabem e eu não escondo: é o Futebol Clube do Porto. É a cidade dos meus avós e da minha mãe, e onde ainda tenho tios e primos. Desde criança que ia para o Porto nas férias e ganhei um carinho especial pela cidade e pelo clube. Agora, costumo dizer que sou do FCP e do CD Santa Clara porque é o clube que representa os Açores e porque trato da imagem deles. Por isso, o sucesso deles é o meu sucesso.

Encontra-se em São Miguel há vários anos. Já se sente um filho da terra?
JR - Na verdade, acho que qualquer açoriano se sente filho da terra em qualquer ilha que vá. Sentimos sempre que isto é nosso. Mas obviamente que Ponta Delgada andava a “namorar-me” há uns anos. Sempre que vinha cá dar aulas de cabeleireiro, passeava pela cidade e sentia um desejo de viver nesta ilha, o que acabou mesmo por acontecer. E neste momento, a minha vida passa por aqui e não me imagino noutro lugar. Adoro ir à Terceira sempre que posso, até porque temos a nossa barbearia lá e os meus amigos. Mas neste momento, estar aqui faz todo o sentido e sinto-me muito acarinhado por todos os micaelenses. Afinal de contas, somos todos açorianos, todos irmãos e filhos da mesma terra.
 

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