Igreja de Nossa Senhora da Piedade
Creusa Raposo

Igreja de Nossa Senhora da Piedade

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Patrimonium Nostrum

A primitiva ermida seria constituída por quatro paredes com um pórtico modesto. Uma pequena torre sineira com um arco simples, talhado numa só pedra, erguia-se da parede lateral. No topo da fachada ostentava-se a cruz de Cristo. Do lado esquerdo existia uma singela sacristia e um arco ao fundo enobrecia o altar.
O templo sofreu alterações em 1791, data que se encontra no frontispício, junto à cruz latina. Por esta altura pretendeu-se erguer uma torre na lateral direita do templo, mas possivelmente terão faltado os recursos financeiros.Foram acrescentados o coro-alto e a sacristia à esquerda. O templo adquiriu então capacidade para albergar cerca de 250 fiéis.
O frontal do altar-mor foi revestido por azulejos e foi construído o tecto do corpo principal do templo em abóbada de berço, tal como o da capela-mor.É referido por Luís Bernardo Leite de Athaíde que o frontal seria da primitiva ermida, no entanto, ele apresenta características típicas dos princípios do século XVIII. É um frontal de sete por quinze azulejos de pintura azul, que segundo Santos Simões, é mais um exemplar da copiosa série micaelense. O autor acrescenta ainda que, neste painel, oculta-se a intenção de reproduzir os frontais de tecido, e se legitimam inquietações, que derivam da visão escultórica. O pintor do azulejo teve a intenção de reproduzir um baixo-relevo para sarcófago, com o enquadramento moldado por decoração vegetalista, por vezes insinuando concheados e fundo marmoreado. A decoração rococó envolve a cartela central, onde está a Pietá rodeada por anjos de tamanho inteiro, que seguram a moldura, apoiando-se em volutas e emblemas do martírio: martelo e turquês. Este exemplar que traz consigo a marca das preocupações estéticas de cerca de 1755, estabelece o elo de ligação entre os frontais ainda presos à moda do tecido, e os que acompanhando a mesma tendência, utilizam as plásticas tridimensionais, próprias da última fase do barroco.
A fachada da igreja corresponde à nave principal evidenciando características barrocas apesar da sua simplicidade. A sua fachada é típica do século XVIII época em que seria considerada uma ermida rica.
No século XX foi objecto de várias alterações. Em 1969 foram adquiridos dois alqueires de terra atrás da igreja que se destinavam à construção de um novo templo em honra de Nossa Senhora da Piedade. Em 1975 realizaram-se obras que modificaram o traçado do edifício. Na altura o sacerdote responsável pela paróquia era o Pe. Benjamim Pacheco Raposo, que ignorou a aquisição feita pelo seu antecessor, e abandonou o projecto de construção da nova igreja. Decidiu aumentar o templo existente, construindo uma torre, um salão e ampliando a sacristia. O retábulo foi destruído sem que se colocasse a hipótese de restauro. Nas décadas seguintes realizaram-se outras obras no templo co  foco no altar-mor, construção de nichos, entre outras.
 Quanto aos aspectos arquitectónicos o primitivo templo assemelha-se a outros da Região com planta compacta, que tendia a inscrever-se num quadrado e sem cúpula. Com as remodelações e ampliações, a sacristia e salão foram anexadas ao corpo do edifício. A torre encontra-se do lado direito, encimada por uma balaustrada de pedra, que por sua vez suporta quatro pequenos pináculos. Anteriormente à cornija estão as cavidades em forma de arco de volta perfeita que resguardam os sinos. Abaixo da cornija, o corpo da torre é iluminado por duas janelas, viradas para a fachada e mais duas para a direita.
À primeira vista podemos julgar que são da mesma época, mas um olhar mais atento estranharia tanta iluminação. Na verdade, como anteriormente foi referido, a torre só foi acrescentada em 1974, embora houvesse a preocupação de enquadrá-la no conjunto. Estas alterações são prova da intensa propaganda do Estado Novo, que ainda se fazia sentir, em preservar o que era antigo e em completar os edifícios, com elementos que nem sempre haviam existido, alegando serem componentes característicos de um certo estilo ou época. No projecto para a elevação da torre manteve-se os pináculos, mas na prática eles foram ora substituídos (à esquerda), ora destituídos (à direita) do conjunto arquitectónico.
A fachada é delimitada por pilares de pedra rematadas por pináculos. O frontão de forma triangular, sustém no topo a cruz latina e as suas aletas são recortadas, adquirindo formas curvilíneas um pouco rígidas. A delimitar o primeiro andar do rés-do-chão ergue-se a cornija encimada por um pequeno óculo. Ladeando este óculo encontram-se duas urnas. As ilhargas do frontão são rematadas por pequenas volutas. Abaixo da cornija eleva-se uma janela quadrangular e em guilhotina que corresponde ao coro-alto. A preceder a janela surge o portal.
O projecto de 1975 incluía uma nova janela à esquerda da porta da sacristia, substituindo o lugar da antiga sineira, o que acabou por não ser seguido à risca. Do lado do Evangelho subsiste uma porta com ligação ao corpo da igreja. Do lado da Epístola existe a porta de acesso ao salão que seguiu o projecto de ampliação.
No interior da igreja a capela apresenta-se ao fundo antecedida por um arco de volta perfeita que assenta em pilares, fazendo a separação entre o corpo da igreja e a própria capela.
O retábulo foi substituído por uma espécie de nicho, que se apresenta também em arco de volta inteira, suportando a imagem da padroeira. É emoldurado por um painel de azulejos de 2016.
Ao centro exibe um sacrário ofertado por um emigrante no início do século XXI, em prata e prata dourada, coroado por uma cruz latina e com motivos eucarísticos na porta. Mais à frente exibe o altar da celebração. As paredes laterais da capela apresentam painéis de azulejos de 2001 com o nascimento de Jesus e a sua Ressurreição.
O mobiliário é composto por cadeirão e tamboretes em madeira dourada e veludo encarnado. Possui ainda uma credência em madeira de acácia, no lado da Epístola, para apoio durante a Eucaristia. Do lado esquerdo, já no corpo do templo, existe um pequeno nicho de pedra onde está colocada a imagem de Santo António recentemente adquirida, e à direita um nicho com as mesmas caraterísticas, que sustém um Cristo Eucarístico do início do milénio.
A sacristia possui um arcaz em madeira de acácia com armários e gavetas.

 

In “ARRIFES: DETENTORES DE PATRIMÓNIO CULTURAL?”.

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

* Licenciada em Património Cultural e mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento pela Universidade dos Açores/ Sociedade Ibero-Americana de Antropologia Aplicada

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