Sem dinheiro era assim, com dinheiro é assado!? Para meditar
Mário Moura

Sem dinheiro era assim, com dinheiro é assado!? Para meditar

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Afinal o grito de alerta ‘Salvemos o Porto de Santa Iria!,’ lançado em Dezembro de 1949 por Tavares Barbosa, ’ foi ouvido. Manuel Francisco Tavares Barbosa casa na Ribeirinha com uma senhora viúva. Está na freguesia já na década de 30. É um autodidacta, escreve para os jornais e é autor de peças de teatro. Laureano Almeida lembra-se bem de o ouvir e a outros discutir obras de Eça de Queirós. Acabou por ir para a Ilha Terceira onde faleceu. Era aparentado ao José Barbosa, homem do Teatro, jornalista, que morou na Fajã de Baixo. Tavares Barbosa, não sei se ainda residia na Ribeirinha, conseguiu que o Comandante do Posto Fiscal da Ribeirinha Gil Soares Paulino não só ouvisse o seu apelo como passasse à acção. O amigo e mestre nas coisas da Ribeirinha e que será mestre nas do aeroporto de Santana, chamou-me a atenção para um artigo de Gil Paulino que explica o que se passou. Muito obrigado ao amigo e à sua esposa. Vindo a suceder ao Sr. Ezequiel Miranda, segundo ele próprio nos diz, Gil Paulino chegou ao Posto Fiscal da Ribeirinha em Junho de 1950.  Era filho de Mestre Amaro, um tanoeiro que tinha tenda na rua do Melo em Ponta Delgada. Gil estudara na Escola Industrial e tinha imenso jeito para o desenho. Na Ribeirinha ainda existem casas projectadas por ele. É provável que Gil tenha lido o artigo de Tavares Barbosa. Mas se o não lesse, bastaria olhar para o porto quando chegou em Junho de 1950. (1) Ou falar com as pessoas da terra. Ou mesmo com Barbosa. Gil, que passou a residir na Ribeirinha, encontrou o porto, ‘seriamente danificado sendo já quase impossível a varação das quatro embarcações existentes.’ (2)   Tal como havia descrito Tavares Barbosa. E falou com quem usava as embarcações: ‘Os pescadores com grande mágoa iam vendo desaparecer este porto, que tanta vez lhes salvara a vida.’
Não ficando de braços parados, começou a mexer os cordelinhos certos. Conta-o de forma humilde, quase se fazendo desaparecer da cena: ‘Após várias diligências junto das entidades competentes levadas a cabo pelo activo e prestigioso Capitão do Porto - Tenente António Ferreira de Oliveira, vieram a este porto em visita técnica o ilustre Engenheiro da Junta Autónoma dos Portos de Ponta Delgada Sr. Abel Férin Coutinho que era acompanhado pelo sr. Carlos Horta, zeloso chefe dos serviços daquela Junta, que verificaram a extrema necessidade das obras a efectuar neste porto.’
Medite-se nisso: no tempo em que mal havia dinheiro para fazer cantar um cego por muito tempo, a entidade que tutelava o porto de Santa Iria, em gritante contraste com os dias de hoje, onde há dinheiro a rodos e técnicos a bater com um pau, veio de imediato ver o que se passava e fez a obra necessária: ‘Após esta visita começaram as obras que constaram dum varadouro novo e reconstrução de muralhas.’ Veja-se bem: Gil Paulino entrou ao serviço em Junho de 1950 e estas obras foram ‘concluídas em Setembro de 1951.’ Bravo. Vergonha para os de hoje que já vão ‘engonhando e engonhando’ há mais de uma dúzia de anos. Desculpas atrás de desculpas. Não nos tomem por tolos. Estarão por certo à espera que o problema se resolva por si: seja esquecido. Estarão mal enganados, pois se há terra que nada esquece é a Ribeira Grande.
Escreve Paulino: ‘Concluídas estas obras em 1951, que muito se faziam sentir, beneficiando a vida do porto de Santa Iria, pois que
As obras não só fizeram com que as quatro embarcações existentes se mantivessem no porto de Santa Iria como lograram atrair outras quatro de outros pontos da ilha. Oiçamo-lo: ‘Já foram, por nossa sugestão, adquiridas mais quatro novas embarcações completamente apetrechadas.’  Vejam lá de onde veio a primeiro e qual a sua função: ‘sendo a primeira de António Bernardo Barbosa, vinda do Porto Formoso em Maio de 1951, encontrando-se atualmente [4 de Agosto de 1952], a fim de fazer percursos mais longos e rebocar barcos de menor tonelagem e ainda para socorros desta área.’ Ainda decorriam as obras e já havia novas embarcações. Porquê? Porque o porto melhorara e havia grande necessidade ao redor da ilha de encontrar novos portos. O barco de António Barbosa apostara em mais do que a pesca. Barbosa trocara o Porto Formoso, ali ao lado, pela Ribeirinha.
E continua, já depois de concluídas as obras, ‘sendo a segunda de Gabriel Furtado Tachinha, vinda do porto da Calheta, em Julho de 1951, denominada S. João de Brito.’ Ainda as obras não haviam findado e consegue interessar um pescador da costa sul, da Cidade de Ponta Delgada, ao ponto de o trazer para Santa Iria, na costa norte.    Outra da costa Sul: ‘Terceira de António Marieta vinda do Porto de Água de Pau em Dezembro de 1951, denominada de Santo Cristo.’ E, por fim, do Norte, oriunda de um local que já estava em contacto com Santa Iria desde o século XVI, a ‘Quarta embarcação de Eduíno Furtado de Medeiros, vinda do porto da Achada, em Janeiro de 1951, denominada Estrela do Mar.’ (3) Como vimos em artigos anteriores, os trigos dos irmãos Pedro e António Rodrigues da Câmara das suas terras da Achada vinham do porto da Achada para o porto de Santa Iria no século XVI, e terão sido uma das causas principais da ‘construção’ daquele porto de Santa Iria ou a adaptação ‘rudimentar’ daquele primitivo calhau. Porquê ali? Pela proximidade às propriedades dos ditos senhores e porque reconheceram ser aquele ponto o melhor ancoradouro das redondezas.
 A acção de Gil Paulino não ficou por aí, pois, ‘havendo como é natural um mais movimentado tráfego, fazia-se sentir a falta de um guincho, para varação (p.7) dos rspectivos barcos, o que a nosso pedido se verificou pouco depois.’ (4) Sendo necessário dar mais e melhores condições ao porto, ‘Pedindo ao Excelentíssimo Senhor Capitão do Porto em Novembro de 1951 a beneficiação do Porto de Santa Iria,’ veja-se que o pedido acontece apenas dois meses após a conclusão das obras do varadouro e da muralha. E veja-se o resultado: ‘Quis sua Excelência comunicar-se com a Junta Geral do Distrito, cujas obras ficaram concluídas,’ corem de vergonha os actuais responsáveis, ‘em Março de 1952.’ (5)  Ou seja, foram necessários três meses para pedir e ver as obras feitas. Que foi feito naqueles três meses? Veja-se: ‘fazendo parte a reconstrução do Ramal de acesso a este porto,’ e remata, ‘ficando assim uma obra de grande utilidade.’ (6)  Há anos que se vem pedindo a simples consolidação de um troço das arribas de acesso ao porto e há anos que a gente desespera sentados! Acrescentando-se, entretanto, a ruína de um enorme troço da muralha e da total destruição do primitivo varadouro.
Mas as obras do tempo de Gil Paulino não ficaram por aí: ‘Havendo ainda necessidade de canalizar água potável, para uso dos pescadores deste porto, e ainda para os pescadores de outros portos, que aqui vêm encher os seus barris, tendo para isso, de percorrer, uma distância de cerca de um quilómetro, já mos foi prometida a realização da útil como benemérita obra.’ Foi cumprida a promessa? Existe água potável no porto, desconheço desde quando. Gil havia chegado à Ribeirinha há pouco menos de dois anos.
Gil, após ter começado o artigo com um historial do Porto, referindo a baleação, a pesca, o comércio da laranja, termina com uma visão actual e de futuro do mesmo porto: ‘Por aqui se vê que, o antigo Porto de Santa Iria, de antigas e honrosas tradições voltará em breve a ter o prestígio de outrora.’  Após agradecer ao capitão do Porto, conclui: ‘por todas as razões expostas, esperamos que o porto de Santa Iria continue em progresso, para o bom nome duma terra que quer e pode, devido às suas boas vontades, marcar um lugar de destaque nesta terra.’ (7)
Se no tempo das vacas magras do pobre Distrito composto por duas ilhas e pouco mais dos tempos de Salazar era assim, neste da Autonomia das nove ilhas das gordas maquias de Bruxelas é assado?! Porquê? Santa Iria deixou de prestar? O mar do Norte já não presta? Haja vergonha! Cumpram a palavra dada!! Vejam com olhos de ver o potencial daquele porto!!


(1) Numa segunda fase, dever-se-ia indagar da existência de relatórios e outros documentos nos arquivos da GNR ou da Guarda Fiscal. Bem como procede à recolha de histórias junto a uma comunidade que viu desaparecer os seus pescadores. Seria também seguir o exemplo da investigadora canadiana Alison Nilson em ‘Uma Mão Cheia de Vida: visões dos Açores,’ 2021, e Ruben Farias em ‘Hominis Aqua: A comunidade Piscatória de Rabo de Peixe,’ 2015. Comparar estes trabalhos que retratam comunidades vivas com a memória que se foi apagando sobre Santa Iria.
(2) Paulino, Gil Soares, Porto de Santa Iria, A Ribeirinha, Edição da Junta de Freguesia da Ribeirinha, Número único, 4 de Agosto de 1952, p. 5.
(3) Idem, p. 5.
(4) Idem, pp. 5, 7.
(5) Idem, p. 7.
(6) Idem, p. 7.
(7) Idem, p. 7.

 

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