A «minha» rua há 89 anos!
Rubens Pavão

A «minha» rua há 89 anos!

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Recordando...

“Quando podia percorria-a a pé, numa identificação silenciosa a um passado que me tocava o coração; e, então, num diálogo íntimo relembrava amizades, companheirismo, aprendizagens, enfim o primeiro encontro de vida, sempre tão patente na vivência do dia-a-dia com as generosas pessoas que aí residiam, nas profissões que desempenhavam e na forma discreta como procuravam contribuir para cada um viver melhor.”

 

 Tenho recordado o que era a  «minha» Rua  dos Capas há 89 anos, isto porque uma das muitas   viroses  que andam por aí,  apanhou –me de surpresa, deixando-me tão debilitado que, quando despertei para  recomeçar a normal caminhada, repeti aquele belo e muito significativo gesto que a minha Mãe ( e tantas outras  também o  fizeram) sempre que um acontecimento de alegria ou de  dificuldade atingia a família: ir à Igreja da Senhora da Esperança para agradecer a graça recebida.
A ainda hoje, ao olhar aquele Cristo ao mesmo tempo sofredor, mas continuamente a transparecer acolhimento e esperança, igualmente evoco a minha primeira «visita» ao Senhor Santo Cristo, a qual remonta àquele distante mês de Novembro de 1932, quando este primeiro rebento duma família jovem que na freguesia de S. José se constituiu, o «apresentou» no Templo, repetindo o gesto Jesus  pela mão de Sua Mãe, Maria…
É que pandemia tinha interrompido – há cerca de 3 anos-  a minha visita cíclica  ao Santuário; contudo, ao fixar de novo o rosto do Senhor da Esperança, vi e senti que mantinha, como sempre, aquela aproximação muito doce e muito serena que nos inspira paz e não desiste de nos dizer «não tenhais medo, mas confia no meu olhar»!.
Quando saí, olhei o Camo de S. Francisco naquele seu aspecto outonal tão característico com as folhas amarelecidas das copa das árvores que o envolvem; e também recordei aquelas tardes em que a banda militar nos brindava com um concerto, onde os jovens quase sempre aproveitavam para fixar os primeiros olhares no grupo de colegas que um mês antes passaram a frequentar o Liceu…
Mas, como não podia deixar de ser, também lancei um outro olhar saudoso para a minha rua – que foi todo o «meu» mundo durante 50 anos!
Quando podia percorria-a a pé, numa identificação silenciosa a um passado que me tocava o coração; e, então, num diálogo íntimo relembrava amizades, companheirismo, aprendizagens, enfim o primeiro encontro de vida, sempre tão patente na vivência do dia-a-dia com as generosas pessoas que aí residiam, nas profissões que desempenhavam e na forma discreta como procuravam contribuir para cada um viver melhor.
E, ao relembrar casa por casa, família por família, ainda hoje posso concluir que tudo assim aconteceu porque a através dos anos a comunidade que se ali se estabelecera era por muitos e continuados anos.
Talvez que já passados 80 anos, a mesma Rua dos Capas talvez começasse a ser como um barco vazio, a navegar em noutras rotas, e os novos inquilinos em nada me prendia à minha infância e juventude.
O meu trisavô materno, que nascera em 1853 na Rua da Alegria, comprou essa nova residência em 1921, porque a família foi crescendo e era preciso acomodar filhos e, anos depois, o primeiro bisneto, que já não conheceu, mas que a neta mais velha já o sentia no seu seio.
Pela sua configuração arquitectónica, a maioria das casas – que eram foreiras – deviam ter sido construídas nos fins do século XVIII, princípios do século XIX, algumas só de rés-do-chão com uma um duas janelas; outras com primeiro andar.
O rebordo das portas e janelas eram de pedra lavrada, mas sempre caiadas com as cores regionais. E, se havia um primeiro andar, este era apoiado em arcarias também pedra lavrada que seguravam toda a estrutura e permitiam haver espaços para arrecadação.
É curioso que os dois grandes quartos de entrada eram revestidos de barro e caliça, mas os outros eram divididos por espaços em madeira que cada um ia remodelando de outras formas.
 As cozinhas possuíam forno e poial, o que permitia que algumas vizinhas coziam pão e massa sovada e a maioria – nas festas religiosas - apetitosas iguarias em carne e peixe, sem esquecer as galinhas criadas nos «pátios» próprios.
Poucas vezes ouvi referir o bacalhau…
Às vezes também havia uma matança de porco, este criado na própria casa, o que era um dia de festa para os mais novos, que se juntavam em animada partilha comunitária.
Até casar passei ai, conjuntamente com as minhas irmãs, uma boa e feliz parte da nossa juventude, tal como também ocorreu a tantos outros vizinhos que ainda viram crescer os netos.
A Rua dos Capas era perto de tudo … e, num repente, estávamos no centro da cidade, tal como da escola primária de S. José, do Liceu, da Igreja de S. José, do Coliseu e do Campo de S. Francisco
O Largo 2 de Março tinha de tudo: mercearias, cafés, tabernas, uma ou outra escondida «casa de pasto» e a farmácia Garcia – um ponto de referência sempre muito solicitada – porquanto o senhor Manuel Raposo com a sua natural experiência - nunca se eximia «em receitar» alguma família mais aflita que não tinha dinheiro para consultar um médico… e tudo acabava em bem!
Passamos a «ressaca» da 2ª grande guerra e os anos que se seguiram até praticamente ao princípio da década de cinquenta. Foram tempos difíceis para a maioria das famílias, pois era um tempo em que as mulheres ainda não tinham acesso ao trabalhos, que não doméstico.
Mas esse tempo foi muito a favor da minha geração e da que se seguiu, porquanto as mães e as avós estavam sempre a acompanhar-nos no dia-a-dia e até nas horas vagas levavam-nos a conhecer a cidade e o comércio tradicional tudo contribuindo para que a casa fosse a primeira escola
Anos depois – eu, os familiares, os vizinhos e os amigos seguiram os seus naturais destinos, constituindo família, mas os tempos passaram a ser diferentes pelo trabalho e pelas novas condições que a vida nos foi proporcionando.
Assim hoje a Rua dos Capas de há 89 anos passou ser – para mim e para «duas resistentes»  que felizmente ainda restam  do meu tempo - um lugar  de contínua saudade e de evocação  para os  que partiram para sempre…
Neste tempo que passa, agradeço a Deus a possibilidade que me tem dado em continuar esse diálogo de amizade com ao meus conterrâneos, com a minha terra e as suas gentes, sobretudo através dum conjunto de «Memorias» que este Jornal – a minha segunda grande escola de vida - me tem proporcionado, até que o engenho me continue a despertar…
E, parafraseando o Cardeal Tolentino de Mendonça: «um coração amadurecido sabe que a vida não se consuma em campos necessariamente alternativos, mas espera de nós a capacidade de desenhar complementaridades… pois na percepção dos nossos limites aprendemos a conhecer não apenas a impotência, mas também possibilidades que não víamos. É na noite que a aurora começa!».

 

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