Recordando lutas antigas em defesa dos interesses dos Açores

Recordando lutas antigas em defesa dos interesses dos Açores

Previous Article Previous Article Pescadores pedem ao parlamento regional apoios para a “longa e grave crise” no sector
Next Article Câmara do Nordeste assinala Dia  Internacional para a Eliminação  da Violência Contra as Mulheres Câmara do Nordeste assinala Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres

A recente inauguração de importantes melhoramentos no Centro de Controle do Tráfego Aéreo em Santa Maria trouxe-me à memória o que penámos, lá pelos anos 80 e 90 do século passado, para travar a transferência de tal serviço para Lisboa, urdida pelo pessoal da entidade que na altura dele se ocupava, com argumentos tecnocráticos bem conhecidos.
A razão invocada era que as novas tecnologias permitiam fazer todas as operações de controle do tráfego aéreo a partir de Lisboa e, a manter-se a estação de Santa Maria, seriam precisos quantiosos investimentos, cujos valores seria curial poupar. Com isso, os funcionários, muitos dos quais oriundos do território continental da República, regressariam a penates e até seria mais fácil fazer recrutamento deles por tais bandas, sem o encargo de terem de se deslocar para as nossa ilhas.
Ora, tudo isso eram afinal claros e fortes argumentos para defender a manutenção do Centro de Controle de Tráfego Aéreo em Santa Maria. Se era possível fazer todas as operações necessárias a partir de Lisboa, então também se poderia fazê-las de Madrid ou de Paris ou de qualquer outro ponto da Europa, para a qual nos encaminhávamos como membros de pleno direito das Comunidades Europeias então existentes. Na altura em que Portugal se apresentasse disposto a alterar a situação existente, estabelecida logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial, o risco de tudo perdermos em termos de controle de tráfego aéreo no Oceano Atlântico era deveras enorme, pois não faltariam interessados em disputar-nos a primazia.
Por outro lado, a existência de postos de trabalho altamente especializados, e por acaso também muito bem remunerados, era obviamente importante para Santa Maria e para os Açores no seu conjunto. Na altura em que tanto se fazia para qualificar, com avanços na educação, todos os Açorianos, em especial os mais jovens, revestia natural interesse manter essas possibilidades de acesso abertas.
Além de tudo o mais, passar para Lisboa o controle do tráfego aéreo no Atlântico Norte equivalia a riscar os Açores do mapa - e isso um Governo democrático, legítimo  representante das nossas Ilhas e do Povo Açoriano, jamais poderia consentir! Basta lembrar que a Região de Informação de Vôo de Santa Maria abrange cinco milhões e cento e oitenta mil quilómetros quadrados do Oceano Atlântico, estendendo-se desde a Irlanda até Cabo Verde e pelo mar fora até à Venezuela, Porto Rico e Terra Nova. O próprio Presidente Marcelo o referiu com admiração, e denotando surpresa, numa aula dada na nossa Universidade, quando cá veio pela primeira vez.  
Foi preciso recorrer a todas as formas legítimas de pressão para pôr travão à pulsão tecnocrática, que imperava na fase mais eufórica do consulado cavaqueano. A firme posição do Governo Regional foi desenvolvida nos seus argumentos e apresentada, com o necessário vigor, junto dos vários graus de decisão administrativa e política envolvidos na questão. Mas o Governo da República, ao mais alto nível, encontrava-se hesitante, invocando que seriam necessários muitos milhões de contos para modernizar os serviços em Santa Maria, o que até era verdade, sem dar o devido valor ao que assim se ganharia com as taxas a cobrar pela sua futura utilização.
Foi preciso ir bater as outras portas para reforçar a posição do Governo Regional. Convidou-se uma delegação especial da Assembleia da República, chefiada por um dos Vice-Presidentes da mesma, para fazer uma visita completa às nove ilhas do Arquipélago, inteirando-se dos problemas existentes e também dos progressos feitos, que eram evidentes, atento o ponto de partida em termos de carências infraestruturais gritantes. A questão de Santa Maria veio também à baila, naturalmente, e foi incluído no relatório final da visita um apoio expresso à modernização do Centro de Controle de Tráfego Aéreo, depois aprovado numa votação em sessão plenária do Parlamento.
Quando da inesquecível Presidência Aberta de Mário Soares nos Açores, em 1989, numa reunião especialmente focada sobre o tema, no Aeroporto de Santa Maria, o Ministro Ferreira do Amaral, ao tempo titular da pasta, foi apertado com argumentos irrespondíveis em favor da urgente realização do então designado Projecto NAV 2, e o próprio Presidente da República deu-nos razão e integral apoio.
Entretanto, o Ministro da República, organizava reuniões com técnicos vindos de Lisboa que explicavam aos convidados a participar nelas, inclusivamente Deputados ao Parlamento Regional, de partidos da Oposição ao Governo Regional e não só, as vantagens da desejada, por eles, transferência para Lisboa e até a impossibilidade de levar a cabo o NAV 2 em Santa Maria.
Ainda em Maio de 1995, quando se inaugurou a nova Aerogare do Aeroporto João Paulo II, em Ponta Delgada, insisti publicamente com o Ministro em causa e na presença do Primeiro Ministro, pela urgente concretização do NAV 2. Foi preciso mudar o Governo da República para se conseguir a justa pretensão açoriana, mantida pelo Governo Regional então existente, com apoio da Assembleia Regional, e pelos representantes municipais de Vila do Porto, naturalmente.
Quando Cavaco Silva veio a São Miguel, na sua campanha para as eleições presidenciais, que ganharia cá, mas perderia no conjunto do nosso País, lembrei-lhe a questão do NAV 2, sobre a qual tínhamos andada às turras durante dez anos. Articulou que sempre lhe tinham dito ser impossível... Mas tão possível era, respondi eu, que o novo Governo já tinha decidido, logo depois de tomar posse, levá-lo a efeito!
E ainda bem que assim foi! Hoje, todos nos regozijamos com os progressos em tal domínio realizados, incluindo a empresa que explora a actividade em causa e que anunciou ter já realizado investimentos no valor de mais de setenta milhões de euros para manter operacional e em permanente modernização as instalações de Santa Maria, planeando prosseguir por tal via nos tempos mais próximos  com mais  de vinte e cinco milhões de euros. Acrescente-se que pela RIV em causa passam em condições normais mais de 165 000 aviões por ano, pagando, claro, as competentes taxas pelo serviço prestado a partir de Santa Maria.
 Se por um momento sequer tivesse o Governo Regional afrouxado na sua posição, lá teria ido tudo, sem remissão, para Lisboa e assim se perderia todo esse valioso investimento e os mais  de 130 postos de trabalho do Centro de Controle Oceânico de Santa Maria. Que fique ao menos a lição, porque o centralismo dominador, para não o chamar de outra coisa, está sempre à espreita...


(Por convicção pessoal, o Autor não respeita a assim chamado
Acordo Ortográfico.)

 

Share

Print

Theme picker