Calendário Festivo de Arrifes: Outono
Creusa Raposo

Calendário Festivo de Arrifes: Outono

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Patrimonium Nostrum

O dia 1 de Novembro celebra a festa de Todos-os-Santos, mas todo o mês de uma forma geral, era dedicado aos que já partiram.
Na localidade em estudo esta iniciativa teve como principal dinamizador o sacerdote Pe. Adriano Furtado Mendonça, que realizava missas todos os dias, por vezes de madrugada.
O cemitério enchia-se de pessoas que cuidavam das campas e jazigos de familiares, incluindo o dedicado aos antigos combatentes do Ultramar. Ao longo do ano, mas principalmente nesta altura, o cemitério dos Arrifes reflectia a atitude do ser humano perante a morte, transmitindo a memória de determinada família, do seu pensamento ideológico ou a sua ostentação. Também as eucaristias por alma dos entes queridos intensificam-se.
É importante destacar que no mês de Novembro existiam pequenas edificações que se destacavam: as sinalizações de alminhas.
A sinalização de Alminhas difundiu-se em Portugal a partir do século XVII, como fruto de um culto religioso fundamentado na clemência erudita e popular, que acreditava no Purgatório como uma forma de estar mais próximo de Deus.
Olinda Rodrigues afirma que uma perfeita conjugação permitiu esta difusão:

“(…) uma fé extrema no seio das populações urbanas, que ao beber sofregamente as doutrinas saídas do concilio de Trento em consequência da Reforma Católica, prontamente aplicaram na pratica como profissão de fé o recém proclamado dogma do Purgatório e a sua representação plástica, alternando com a respectiva validação do sufrágio às almas que penavam nesse mesmo lugar.”

As Alminhas são no fundo pequenos e singelos oratórios, em forma de nichos ou de cruzes latinas, erigidos em locais estratégicos de passagem.
Os antropólogos que abordaram o assunto, Leite Vasconcelos ou Virgílio Correia, colocam a possibilidade das origens em cultos pagãos e romanos. É sabido que o templum romano dedicado às divindades, era apenas frequentado pelas elites e que como alternativa surgiram os lares compitales e os lares viales, como protectores das encruzilhadas e das vias de passagem.
Luís Chaves contextualizou as Alminhas como uma “expressão popular do culto dos mortos” e Flávio Gonçalves apresentou um contexto histórico inserido na Contra Reforma .
Um documento papal do século XIV, a Bula Sabatina do papa João XXII defendia dois princípios fundamentais para a dimensão futura, que estas edificações singelas atingiriam. O princípio da salvação das almas do Purgatório e o dos confrades do Santo Escapulário.
O povo português devoto e intimamente ligado às tradições, perpetuou o culto fora do controlo da Igreja, pois o termo “alminhas” foi aplicado pela acção popular, que rezava frequentemente pelas almas do Purgatório, representado nas singelas edificações. Para além de representarem as almas em fase de purificação, faziam menção aos entes queridos, falecidos no local ou próximo da singela edificação. A mortalidade entre os mais pobres era muito elevada, pois a nutrição deficiente e a ausência de cuidados básicos de saúde e higiene propagavam a miséria.
O povo português em geral e o açoriano em particular encontraram vários nomes, como forma de justificar o sucedido, ao possível motivo que vitimava os indivíduos. O micaelense católico acreditava que depois da morte existia o Purgatório, para expiar os pecados, e só depois poderia alcançar o Paraíso. São frequentes estórias sobre estas “almas” como o caso que se apresenta:
“Havia uma criada de servir que estava sem trabalho e sem dinheiro. Não tinha ninguém que a ajudasse, mas era muito devota das almas do purgatório. Com os últimos trocados que tinha, mandou rezar uma missa pela sua devoção e no final da eucaristia viu um homem de casaco escuro e chapéu, que lhe disse que na casa x estariam a precisar de uma criada de servir. Ela agradeceu e logo procurou a tal residência. Quando chegou foi atendida pela dona da casa. Disse a que vinha e a senhora muito admirada perguntou-lhe como sabia, pois, tinha acabado de despedir a sua empregada. A criada de servir contou-lhe o sucedido na igreja e reparou num retrato, exposto na parede, apontou dizendo que tinha sido aquele homem. A senhora da casa logo entrou num pranto de lágrimas, dizendo que aquele retrato pertencia ao filho falecido há um ano.”
São contos como este, que passaram de geração em geração, contribuindo para que a devoção às almas do purgatório fosse bastante difundida nos Arrifes.
Quanto à comunidade de Arrifes as sinalizações de Alminhas existiam com abundância e espalhadas por diversas ruas, mas estas pequenas edificações quase sempre estavam incorporadas em edifícios que acabaram por ser demolidos, perdendo-se estas composições populares como em seguida se demonstra.
São de uma forma geral constituídos de pedra tosca e em formato de cruzes, marcando presença por ruas, atalhos, largos ou em moradias. Dentro do pequeno nicho via-se com frequência moedas destinadas aos que sentiam necessidade extrema de pão ou peixe.
Aquando da pesquisa elaborada foi possível averiguar a existência de Alminhas na Rua da Saúde e na Rua da Piedade.
Na Rua da Saúde houve uma edificação num muro de pedra solta que circundava terras de milho. O oratório era constituído por um elemento rectangular com um pequeno quadro em azulejo alusivo às almas do purgatório. Era encimado por uma cruz latina.
Na Rua da Piedade encontra-se em razoável estado de conservação, uma sinalização dedicada às almas do Purgatório, sem datação, incorporada num muro de pedra. Rebocada e caiada está pintada de bege e cinzento. De forma triangular o nicho abriga uma pequena imaginária do século XX dedicada a Nossa Senhora de Fátima. É protegida por um vidro e por ferro forjado. No topo possui uma cruz latina a emoldurá-la.
Quando o povo passava por estas edificações destapavam-se e murmuravam preces.
São no fundo composições que pretendem despertar a fé. São um clamor e um convite à oração, mas são sobretudo mais uma prova da intensa religiosidade do povo português.

 

In “ARRIFES: DETENTORES DE PATRIMÓNIO CULTURAL?”.

 

Este texto não segue o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

 

* Licenciada em Património Cultural e mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento pela Universidade dos Açores/ Sociedade Ibero-Americana de Antropologia Aplicada

 

 

 

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