Os Açores são ingovernáveis?
Osvaldo Cabral

Os Açores são ingovernáveis?

Previous Article Previous Article Açores obrigados a devolverem 2 milhões de euros de fundos comunitários por incumprimento do anterior Governo
Next Article Calendário Festivo de Arrifes: Outono Calendário Festivo de Arrifes: Outono

Diário inconveniente

Um amigo lembrou-me há poucos dias, a propósito de outras circunstâncias, a famosa Lei de Murphy: Se é possível uma coisa correr mal, vai mesmo correr. Corolário: E isso acontecerá no pior momento possível.
O que estamos a assistir por estes dias é exactamente o corolário da fraqueza da solução encontrada para esta coligação, que, por sua vez, tem muito a ver com a mediocridade da qualificação política de alguns dos seus protagonistas.
A questão da formação ou qualificação dos políticos aparece pouco no debate das agendas políticas, mas ela existe e é reflexo de um problema muito mais profundo que afecta a nossa sociedade.
É dela que quero falar, não da crise política.
Na semana que se passou ocorreu um evento em Ponta Delgada onde a questão das qualificações foi abordada e que deixou, certamente, preocupados os que estavam presentes.
Trata-se do Fórum Regional da Qualificação Profissional, uma excelente iniciativa da secretaria de Duarte Freitas.
Por lá passaram vários especialistas e vozes plurais, com mensagens muito fortes sobre a importância da qualificação e o quanto andamos atrasados face ao país e aos restantes da Europa.
Uma sala cheia de formandos, formadores e alguns populares absorveu atentamente os dias de reflexão, sendo notória a ausência de empresários e outros parceiros sociais, o que, só por si, já reflecte, também, a fraca qualificação do nosso tecido económico e social.
De todas as intervenções, a do Professor e Investigador Francisco Simões foi a mais assustadora, no sentido em que os seus alertas deviam ser ouvidos pelos responsáveis políticos e parceiros sociais da nossa região.
O orador não disse nada que já não fosse conhecido nas suas inúmeras intervenções públicas ou em publicações científicas, mas ao focar-se no problema da educação nos Açores ficou claro que cerca de um quarto dos jovens açorianos não trabalha nem estuda.
É uma taxa escandalosa, que se torna ainda mais grave quando é sabido que ela está a baixar no país, convergindo com a União Europeia, quando nós, aqui na região, andamos ao contrário.
Esta fragilidade estrutural reflecte-se em tudo das nossas vidas, incluindo na qualidade da governação.
A nossa região está a transformar-se, há alguns anos, numa espécie de fábrica de gente pobre e desqualificada.
Os especialistas bem que nos chamam a atenção: temos baixas qualificações, uma taxa enorme de abandono escolar precoce, taxas de gravidez precoce fora do comum e monoparentalidade, acrescentando-se a tudo isso a liderança no acrónimo NEEF, jovens sem emprego e sem estarem integrados nos sistemas de Educação e Formação.
Estamos a criar na região uma bomba social que é preciso inverter rapidamente.
Os políticos falam tanto no PPR, nas Agendas Mobilizadoras, no novo quadro comunitário, mas referem-se pouco aos desafios da Educação e da Formação, provavelmente porque dão poucos votos.
O diagnóstico está mais do que feito e o Conselho Nacional de Educação acaba de fazer mais um : trata-se do relatório “Educação em Tempo de Pandemia”, em que ouviu directores, professores e outros intervenientes das escolas do país, incluindo das Regiões Autónomas.
Os resultados, mais uma vez, são assustadores no que toca à nossa região.
Por exemplo, ficamos a saber que,  nos Açores, um quarto das escolas tem, pelo menos, 64% dos alunos provenientes de contextos desfavorecidos, que somos a região com mais alunos abrangidos pela Acção Social Escolar e que 76% dos professores açorianos qualificaram o aumento das desigualdades sociais como aspetos “graves” ou “muito graves”.
Mas há mais: ficamos ainda a saber que, no que respeita aos alunos e famílias, as dificuldades foram transversais às várias regiões de Portugal, embora de forma mais acentuada na Região Autónoma dos Açores, no Oeste e no Alto Tâmega.
Nestas três regiões, a fragilidade das competências dos alunos e das famílias terá comprometido muito o ensino e a aprendizagem no contexto de ensino remoto de emergência.
Temos as piores taxas, os piores números do insucesso da qualificação e uma taxa elevadíssima de jovens que partem e não regressam, não sabendo reter talentos.
As novas gerações que vão tomar conta da nossa região, em várias áreas, fá-lo-ão com que competências?
Percebem, agora, quando olhamos para grande parte dos nossos representantes na política, muitos são o espelho daquilo que andamos a formar nestes últimos anos?
Percebem, agora, a fraqueza da nossa política e dos nossos políticos?

Share

Print

Theme picker