A natureza das coisas…
Mário Abrantes

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Independentemente do desfecho do debate parlamentar sobre o Plano e Orçamento dos Açores para o ano de 2022, merece desde logo algumas considerações críticas o comportamento em todo este processo de uma força política de extrema-direita, “instalada” recentemente nos Açores, a quem foi dada mão pelo PSD, o CDS e o PPM para se arvorar em principal orientador estratégico do governo açoriano a partir de Lisboa.
Arreliado com o seu progenitor e orientador político, o PSD, e de peito cheio pelos carinhos sistemáticos de toda a comunicação social portuguesa, um partido de extrema-direita com representação parlamentar de um deputado na Assembleia da República, pensou de uma penada riscar do mapa constitucional português a Autonomia dos Açores e tentou decidir unilateralmente sobre o futuro dum governo que, para conseguir sê-lo, se fingiu distraído e lhe deu a mão. Faz lembrar a conhecida fábula de Esopo sobre o sapo e o escorpião que atravessava o rio às suas costas, é da natureza deste último!
Relativamente ao PSD, ao CDS e ao PPM, que se dizem partidos democráticos, torna-se preocupante constatar que 48 anos de ditadura centralista em Portugal parece não terem sido suficientes para se convencerem da natureza antidemocrática e anti autonomista da extrema-direita. Das duas uma, ou foram vítimas duma vontade cega de formar governo a qualquer preço, ou na sua própria natureza subsistem genes antidemocráticos e centralistas.
Por mim, pouco importa agora averiguar qual dos dois motivos está por trás do entendimento havido entre as direitas e a extrema-direita nos Açores. Eles lá saberão. Mais importante é constatar os prejuízos que a Região, os açorianos e a autonomia constitucional já estão a ter com isso, e certamente outros que ainda virão a constatar-se.
No quadro do nosso sistema autonómico, na incapacidade de assegurar uma maioria parlamentar de suporte ao Plano e Orçamento anuais, em lugar de procurar negociar objetivos estratégicos abstrusos e propostas indignas e humilhantes da cidadania plena, compete antes a um governo democrático, ou governar por duodécimos, até apresentação de nova versão desses documentos essenciais, ou propor uma moção de confiança ao parlamento que, em caso de chumbo, implicaria a sua queda.
Entretanto, por terras do Tio Sam continuam imparáveisos sucessivos atentados violentos à segurança pública e à integridade física de cidadãos anónimos. Desta vez foi, num desfile natalício no estado de Wisconsin, um atropelamento intencional que matou cinco pessoas e feriu quarenta e oito, no domingo passado.
Como se vem tornando habitual, na altura em que a notícia foi dada pela primeira vez, ela terminava com a repetida lengalenga, típica de países como os EUA ou da União Europeia: “As autoridades estão a investigar se se tratou ou não de um atentado terrorista…”
Ora que eu saiba qualquer atentado violento e intencional à segurança pública e à integridade física de cidadãos inocentes é por natureza um atentado terrorista, dispensando sumariamente qualquer análise ao seu caráter.
Mas nestes países, ditos democráticos, não racistas e laicos, afinal parece que um ato violento contra a segurança pública só assume definitivamente o caráter de ato terrorista (e isso é que, pelos vistos, carece de ser atestado) se for praticado por um muçulmano ou por um qualquer fundamentalista islâmico, especialmente quando, durante a execução do ato, grita: “Alá é grande!”

 

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