A “ressurreição” de Côrtes-Rodrigues
Vasco Rosa

A “ressurreição” de Côrtes-Rodrigues

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Centenário de Pedro da Silveira (1922-2022), IV

Nada melhor que fazer coincidir com o festival Arquipélago de Escritores — que lucidamente sempre valorizou o convívio de gerações literárias — a revelação deste artigo de Pedro da Silveira sobre o ambiente cultural açoriano de meados do século passado, um período refundador, se assim podemos dizer, que discutia a existência duma «literatura açoriana».
Esquecido num jornal do Porto desde há 50 anos, ajuda-nos também na necessária aproximação à figura de Armando Côrtes-Rodrigues, tema de dois livros muito recentes que todavia o ignoraram.
Merece ser lido (e debatido...) tendo em mente um outro depoimento do florentino, recolhido por Onésimo Almeida (Subsídios para a história da literatura açoriana, 1985), e eventualmenete o artigo na revista Grotta, n.º 5, de muito próxima impressão, em que apresento cartas entre os dois poetas que 31 anos afastavam — formalmente — nos respectivos bilhetes de identidade.
Estas duas páginas de jornal são já uma enorme dádiva, mas não deixam margem para outros comentários, que o texto e o assunto manifestamente justificam.

                                         Vasco Rosa
                  
             *
         Ao jeito de Memórias...

Lembrando-me que o poeta
Armando Côrtes-Rodrigues
entrou nos oitentas

Ao despertar para o culto da literatura, e avaliado o passado próximo dos Açores, a minha geração não achou quase nada que admirar, que tomar como exemplo ou guia de acção.
A desactualização, traduzida em amadorismos pífios, cobria todo o panorama enxergado: a um ponto tal, que escritores velhos como Florêncio Terra e Nunes da Rosa, daí a pouco falecidos, podiam fazer — e faziam mesmo! — figura de muito jovens quando comparados os seus escritos mais recentes às obras dos de menos de 50 anos.
E se da literatura passávamos às artes plásticas, ou à música, no século XIX e ainda no começo do XX servidas com notável desenvoltura, a mesma desolação à nossa volta víamos. (Canto da Maya vivia longe, em Paris, e Álvares Cabral, se ainda era vivo, já não pintava; Francisco de Lacerda morrera em 1934, incompreendido, sem deixar discípulos.) Restos de saúde, só no sector da erudição, congregado na Sociedade Afonso Chaves, a qual, ano a ano, naturalmente com sacrifício, editava um magro mas decente número da revista Açoriana (300 exemplares? 200? menos ainda?).
Futurismo, Modernismo, Surrealismo, etc., eram, de Ponta Delgada à Horta, palavras sem sentido ou de todo estrangeiras: não ouvidas nem lidas ou, se sim, carregadas de broncas ou safadas desfigurações (no estilo Arnaldo Ressano Garcia ou Agostinho de Campos, senão pior).
E se às livrarias insulares chegava uma novidade mais ousada, de Lisboa ou, através daí, de Paris, de duas uma: não lograva comprador ou a custo o tinha (um tanto a ocultas, por causa da reputação social).
Até Vitorino Nemésio, única voz de poeta verdadeiramente viva na literatura açoriana daquele então (com Voyelle Promise, O Bicho Harmonioso e Eu, Comovido a Oeste, livros saídos de 1935 a 1940), era voz sem auditório lá onde mais deveria tê-lo. Se dele por acaso falavam os bem-pensantes, era só para lamentarem que não houvesse continuado no «bom caminho», isto é, tal-qual fora no Canto Matinal (de 1916, quando tinha quinze ou dezasseis anos!).
Vá que lhe aceitavam as obras de ficção: mas com graves-solenes reticências (que ainda hoje me fazem rir). E não posso esquecer-me aqui do seu ensaio sobre Roberto de Mesquita («O poeta e o isolamento: Roberto de Mesquita», na Revista de Portugal, 1939) nem do que consagrou ao «pintor europeu das Ilhas» António Dacosta (na Variante, 1942).
Aquele valeu como um terramoto para o santo sono dos «poetisos», que entre si distribuíam, muito proprietários, brinca que brinca aos académicos, os cadeirões do bolorento Parnaso insulano. Pois quê! Antero de Quental (um grande talento, mas... um suicida!) e logo o autor das Almas Cativas (que nem doutor tinha sido!...), os maiores, os mais açorianos!?... E às claras ou sibilinos, propondo esquecidos-ofendidos nomes «egrégios», até vieram com suas prosas para os jornais (em Ponta Delgada e na Horta, que nestas duas cidades do arquipélago é que ao tempo vicejavam as mais pomposas flores do póstumo romantismo-parnasianismo indígena). Seguidamente, se os literatos-para-consumo-distrital (ou de-uma-ilha só) alguma vez se viam forçados a citar o poeta d’«A Vaga Verde», não perdiam o ensejo de lhe colarem — sempre vingativos, como todos os medíocres — uma classificação interditora: por exemplo, hermético.
Quanto ao caso Dacosta, porque os não atingia directamente a eles literatos, ou só muito pelas ourelas, limitavam-se a grunhir, folheada a Variante ao balcão das livrarias: «Pintura?... Arte?... Ora, ora!... picassices!»
Lentamente embora, as dúvidas iam nascendo, crescendo.
O espírito anti-rotina a pouco e pouco tomava corpo, voz. E não importa que os da primeira vaga não botassem manifesto, que a sua contestação se processasse nos termos da máxima urbanidade: nos poemas já sob o signo presencista de Maduro Dias (também pintor, quase desconhecido, e escultor), nos contos e prosas poéticas, da mesma tendência, de Diogo Ivens, nos escassos poemas, afins do Neo-Realismo, de Armando Rocha — que estes foram os pioneiros da reactualização, os dois primeiros após terem sacrificado uns anos nos altares do conformismo, de 1940-41 em diante.
O que importa — e muito! — é verificar que finalmente apareciam, nas páginas de alguns jornais açorianos, produções de poetas e de prosadores que nas Ilhas reerguiam o estandarte vanguardista, cujo último portador tinha sido, nos anos imediatamente anteriores à primeira Grande Guerra, Luís-Francisco Bicudo (1884-1918), poeta vitalista, ensaísta de pendor sociológico e tradutor-comentador do Manifesto do Futurismo de F.-T. Marinetti (no Diário dos Açores, Ponta Delgada, 5 de Agosto de 1909; após, somente, cinco meses e meio da publicação no Figaro, e caso único na imprensa de língua portuguesa).
E também valerá a pena referir que entretanto, lá fora, em Coimbra e em Lisboa, alguns jovens açorianos já alinhavam nas hostes renovadoras, o que nos anos 20 e 30 não tinha sucedido (salvo, como se sabe, o caso de Nemésio): em 1942, Julião Soares de Azevedo, a quem a morte prematura cortaria um futuro de porventura grande historiador, era o director, em Lisboa, do quinzenário Horizonte, com importância no afirmar do Neo-Realismo; pela mesma data, António Dacosta revelava-se, além de pintor, poeta surrealista; pouco depois, Manuel Barbosa, Sousa Oliveira e Jorge Ramiro Machado (Ruy Pinto) achavam-se entre os colaboradores de Vértice, enquanto Manuel de Sousa Tavares, hoje um bom especialista de teatro, mas ainda, na altura, sem ter publicado fosse o que fosse, nos ia trazendo, ao vir de férias, preciosos elementos de actualização estética e cultural.
Os do «barulho», dispostos à luta aberta, um tanto agressivos — por vezes contra moinhos-de-vento... — só desde 1944 foram presença mais constante, sobretudo dispondo, como tribuna de combate, do semanário A Ilha, de Ponta Delgada, que José Barbosa dirigia.
... Mas, o que mais me importava referir era a «ressurreição» dum poeta, que em 1915 tinha sido dos de Orpheu: Armando Côrtes-Rodrigues.
E se digo «ressurreição», é porque duma verdadeira ressurreição se tratou (em poesia, pois não esqueço a outra face literária do autor: a do dramaturgo, com O Milhafre e Quando o Mar Galgou a Terra, onde ele, embora sem propósitos inovadores, se salvava airosamente, retomando a lição do realismo-naturalismo de pendor regionalista — porventura sensível ao exemplo do Manuel António Lino d’Os Ratos). Realmente, nos Cantares da Noite seguidos dos Poemas de Orfeu, saídos em 1942, deparava-se-nos um poeta que, de comum com o de Em Louvor da Humanidade (1924) e do Cântico das Fontes (1934), quase se diria não ter senão a identidade civil ou, melhor dito, a homonimia.
Este podia ter sido um epígono do saudosismo-nacionalismo d’A Águia (onde colaborara, aliás, em 1913); mas aquele, o ressuscitado de 1942, era bem outra coisa: o elo, que supúnhamos faltar-nos, entre o Simbolismo do fim de Oitocentos (com Fernando de Sousa, Duarte Bruno, os irmãos Carlos e Roberto de Mesquita, Humberto de Bettencourt e os prosadores Manuel da Câmara, Marcelino Lima, Nunes da Rosa, Jacinto Gago, Alfredo Mesquita, etc.), o seguinte Vitalismo (Luís-Francisco Bicudo e Miguel de Sousa Alvim) e a modernidade açorianíssima de Nemésio.
Não vou pôr-me agora a catar se o poeta dos Cantares da Noite e do Horto Fechado (1955) exerceu alguma influência, ou se tanta como Nemésio (e o cabo-verdiano Barbosa, cujo Ambiente lemos e relemos), nas gerações de poetas açorianos surgidas dos primeiros anos 40 para cá.
Teria interesse, sem dúvida — e essa influência parece-me fácil de demonstrar em, por exemplo, Eduíno de Jesus e Jacinto Soares de Albergaria —, mas desdobra os propósitos, mais memorativos, deste escrito.
 Para o que pretendo, pois, interessa, isso sim!, dizer que o exemplo (a «ressurreição») de Côrtes-Rodrigues foi de grande peso a favor de quantos nos Açores jogámos, em literatura, vai a caminho de trinta anos, na carta do Modernismo. Porventura, foi mesmo de maior peso que o de Nemésio: porque este vivia lá fora; enquanto Côrtes-Rodrigues era uma rebeldia ali presente-em-carne-e-osso, ali escrevendo, ali publicando.
Realmente, o facto de haver entre os modernistas açorianos (ou de momento a viver nos Açores: Joel Serrão, Egito Gonçalves, Silva Duarte, Virgílio Filipe, pintor Moniz Pereira, etc.) um que, pela sua idade, prestígio intelectual e posição social, não podia apodar-se de rapazelho malcriado e sedento de dar nas vistas, foi-nos de grande ajuda.
E não só ajuda digamos moral, mais ou menos abstracta...
Para os quixotes-às-avessas de revelhas podres dulcineias literário-artísticas, o ataque aos modernistas, havendo Côrtes-Rodrigues, tornou-se um tanto difícil; os seus «tiros», não o querendo eles atingir, pelo menos directamente, cada vez mais perdiam eficiência no ânimo público.
Argumentos como o de associar (à maneira do citado Resano Garcia) literatura e arte de vanguarda a intenções de subversão social e política, revelavam-se inoperantes — ou só serviam, ainda assim malmente, para este ou aquele caso pessoal, muito concreto.
Claro que chamar a Armando Côrtes-Rodrigues moscovita ou cúmplice de tais — não podia ser; dizer que ele era modernista (ou futurista, pois este designativo se reeditava, na confusão ignorantona) porque incapaz de ser outra coisa — também não, vistas as provas que dera.
E, a pouco e pouco, os inimigos açorianos do Modernismo foram acuando, se não de todo convencidos da sua derrota, ao menos resignados a aceitar a presença duma outra fauna literária.
No fundo, pendo a crer, sentiam-se mesmo derrotados — botados de galhas ao ar, como se lá diz.
Pois se até houve, e dos mais entronizados, soneteiros a metro cúbico e orador de torcidos e tremidos, que, sob pseudónimos, deu em publicar umas coisas — realmente «prosas às escadinhas», como Agostinho de Campos dizia da poesia versilibrista — que lá ele imaginava muito hodiernas para depois as comentar, pondo-se inocente: «Poetas modernos, como este, que eu não sei quem seja, entendo e aceito»!...
Ora bem. Levei todo o tempo a quase nem falar, como me propusera, de Armando Côrtes-Rodrigues; a recordar, sobretudo, o que eu e outros vivemos nuns anos sobre que já correram muitas águas e ventos.
Não sei, mas afinal talvez fosse, subconsciente, pela razão de considerar o poeta dos Cantares da Noite e do Horto Fechado — o que tinha sido dos de Orpheu em 1915 e foi dos nossos, modernista açorianizante, nos anos 40 (agora, desde 28 de Fevereiro, com 80 anos e, salvo Joaquim de Almeara — nascido em 1879 — o mais velhos dos poetas portugueses) – como uma camada da mesma geração: que às vezes de facto o era em juventude mental, uma juventude que a nós nos deixava fazendo o papel de... velhões.
A findar, conto um caso acontecido naquele tempo (mais ou menos 1947), em que Côrtes-Rodrigues foi protagonista decisivo.
Um dia, dois moços poetas, ainda alunos do liceu de Ponta Delgada, procuraram-no em sua casa, pedindo-lhe opinião sobre os poemas que escreviam.
Iam vestidos com toda a solenidade, ostentavam cabeleiras «à poeta», punham no porte a gravidade literária julgada própria. Côrtes-Rodrigues recebeu-os, ouviu-lhes o intróito, «gramou» os poemas, disse-lhes bem um (pouco) e mal (muito).
No fim, mirou-os de alto a baixo, considerou-lhes indumentárias e cabeleiras, e rematou, seco:
— Os poetas, para serem poetas, não precisam de andar fardados. Ponham-se a andar, vão cortar o cabelo, lavem-se, vistam-se de gente. Depois pensem pelas próprias cabeças e façam poesia da vossa idade, nem que seja malcriada.
E vão lá chamar mestre ao diabo que os carregue! — (porque eles tinham-lho chamado, com maiúscula na voz...).
Os dois é que me contaram isto.
E sei que a sarabanda lhes foi de proveito — ao menos durante algum tempo. E sei também, por notícias de longe em longe, que os oitenta que lá vai, não mudaram o poeta. Voltou a ser dos de Orpheu — e continua!

Pedro da Silveira
O Comércio do Porto, 12 de Outubro de 1971
Com reprodução do retrato a óleo de AC-R por Vítor Câmara

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