Uma inquietante espera
Mário Freitas

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Conversas pandémicas (82)

“Sabemos que alguém infectado, num ambiente fechado, infecta mais gente numa sala de aula cheia de crianças do que num escritório cheio de adultos. Porquê? Porque o número de pessoas totalmente vacinadas é menor nas crianças.”

 

1. Alertas da OMS

Anteontem, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que a variante Delta, a mais contagiosa das variantes de sarscov2, e que é dominante em todo o mundo, reduziu a eficácia das vacinas contra a transmissão da infeção.
“Há dados que sugerem que antes da chegada da variante Delta as vacinas reduziam a transmissão em cerca de 60%, com a Delta caiu para 40%”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Numa pessoa vacinada há menor risco de contrair formas graves da doença ou morrer, mas continua a existir o perigo de se infectarem ou infectarem outros”, recordando a importância de se manterem as medidas de proteção, como o uso de máscaras, a distância física e a ventilação de espaços fechados.
A OMS atribui o aumento de contágios na Europa à “falsa sensação de segurança” transmitida pelas vacinas. “Muitos pensam que a pandemia acabou com as vacinas e que os vacinados não têm que tomar precauções”, lamentou Tedros Adhanom Ghebreyesus, advertindo que os sistemas de saúde europeus voltam a estar sob pressão.

A Europa, segundo a OMS, poderá sofrer 700 mil mortos até à Primavera.

2.    Onde e quando é mais provável ser infectado?

Um estudo japonês confirmou que “a probabilidade de um caso primário transmitir a covid-19 num ambiente fechado é 18,7 vezes maior, em comparação com o ar livre”.

Uma das vias de transmissão mais importantes é a propagação de partículas virais através de aerossóis e gotículas — pequenas partículas transportadas pelo ar, que uma pessoa infectada emite ao respirar, conversar ou tossir.
O Instituto Max Planck de Química elaborou até uma calculadora que permite definir vários parâmetros que determinam o nível de risco de contrair covid-19, se uma pessoa estiver infectada no mesmo local — entre as variáveis estão o volume com que a pessoa se expressa, o quanto fala e o facto de a sala estar, ou não, arejada. Os cálculos são baseados num estudo sobre transmissão de aerossóis e risco de infeção, publicado no International Journal of Environmental Research and Public Health.
Um dos cenários com a maior taxa de infeção é um ensaio de coro: quanto mais alto uma pessoa que esteja infectada vocaliza, maior a concentração de gotículas que produz. Cantar alto projecta gotículas a maior distância.
Para evitar um novo ciclo de encerramento das escolas há vários fatores a ter em conta.
Sabemos que alguém infectado, num ambiente fechado, infecta mais gente numa sala de aula cheia de crianças do que num escritório cheio de adultos. Porquê? Porque o número de pessoas totalmente vacinadas é menor nas crianças.
Uma máscara PFF2 (N95, KN95 ou P2) pode reduzir o risco de infecção 20 vezes, e as máscaras PFF3 podem reduzir o risco 100 vezes para quem as usa. No entanto, isso não torna as outras medidas desnecessárias. Antes são cumulativos.

3.    Novas medidas na Alemanha

Preparam-se novas regras para conter a pandemia, na Alemanha.
O Plano inclui o regresso dos testes gratuitos.
A medida esteve em vigor quase todo o ano de 2021, com os Estados federais a pagarem a empresas privadas para realizarem os testes. Tal foi suspenso no início de outubro, uma medida que foi um erro.
O projeto de lei inclui também testes diários obrigatórios a funcionários e visitantes de lares de idosos, independentemente de estarem vacinados ou não, e prevê a reintrodução da “taxa de coronavírus” paga pelo Estado aos hospitais que mantêm algumas das suas camas de cuidados intensivos livres, para pacientes com covid-19.
Além disso, os médicos devem prescrever a todos os seus pacientes idosos a recomendação de uma dose de reforço da vacina contra a covid-19. O projecto de lei quer ainda que os pais tenham direito a licença adicional no trabalho caso os seus filhos contraiam o vírus, tenham que ficar em quarentena ou se as creches forem forçadas a fechar devido a infecções.

4.    Novas medidas em Espanha?

O Ministério da Saúde e das comunidades vai avançar com um novo semáforo covid, documento com os indicadores de risco actualizados para avaliar a evolução da epidemia.
A Comissão de Saúde Pública aprovou na passada  terça-feira uma atualização dos limites de risco. Assim, os indicadores ficam mais flexíveis: o parâmetro de baixo risco de transmissão passa de 50 para 100 casos por cada 100.000 habitantes mas outros permanecem inalterados, como a proporção de ocupação de camas em enfermaria e na UCI.
Em Espanha a incidência está crescente, e já é de 139 casos por 100.000 habitantes —nível de transmissão médio— , mas o semáforo covid avalia o nível de alerta combinando vários indicadores: além de uma alta incidência e uma alta positividade, para haver um agravamento é necessário um aumento da pressão nos hospitais. Neste caso, os níveis de ocupação hospitalar ainda estão contidos, o que mantém o país em baixo risco.
No entanto, alguns especialistas alertam para a necessidade de novas medidas e indicadores. Para Alberto Infante, professor emérito de Saúde Internacional da Escola Nacional de Saúde do Instituto Carlos III de Saúde, “o que há a fazer é tomar medidas agora… como sejam a limitação de horários ou de lotação, porque a curva da epidemia está em crescendo. Se nada for feito, teremos muitos internamentos em hospitais e UCIs. Não chegaremos aos extremos das outras ondas, mas vão aumentar ”, avisa. O impacto, como sempre, será em vidas humanas.

Nesta pandemia já percebemos, definitivamente, isto: uma pequena medida numa fase inicial de uma onda tem um impacto muito importante na redução de mortes, numa fase posterior.

Infelizmente o ruído insistente em múltiplas áreas da saúde, nomeadamente na gestão da pandemia, associado ao facto de em muitas circunstâncias não estarmos a ser conduzidos por quem é mais competente, tem levado a mortes evitáveis, quer por COVID19, quer por outras doenças, “deixadas para trás”, por gestão inadequada dos serviços de saúde.

 

* Médico graduado em Saúde Pública e Delegado de Saúde

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