O que faço eu: crónicas  ou spoilers?
Patrícia Carreiro

O que faço eu: crónicas ou spoilers?

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“Disse-lhe que não devia ter pressa de publicar e que, para ser escritora,
teria de ler muito primeiro. Respondeu-me esta pérola:
«Só que eu não gosto de ler, eu gosto é de escrever».”

Não me considero uma infoexcluída, mas, admito, que há certos termos que me passam ao lado. E, num belo dia, alguém me falou em spoilers e eu, que na altura não sabia o que significava, nunca mais esqueci esta palavra!
Nas crónicas que aqui tenho feito, quase semanalmente, sinto o prazer de partilhar o que leio e o que sinto nestas mesmas leituras.
Por vezes, posso revelar demais, é verdade, mas a ânsia de mostrar o poder dos livros que leio é tão grande que posso mesmo cair no erro de fazer os famosos spoilers!
Seja como for, e porque escrevo crónica, seja ela de que estilo for, gosto muito de ler, naturalmente, outras crónicas de autores e escritores que muito nos têm a dizer, mesmo que com poucas palavras.
O livro Adeus, futuro, de Maria do Rosário Pedreira, numa edição da Quetzal, já foi mim lido há alguns meses, mas, depois de crónicas tão boas, como se faz uma crónica sobre um livro destes?
Pois, destaca-se os temas indeléveis e tão reais que a Maria do Rosário nos foi trazendo na sua coluna com o mesmo nome, publicada no Diário de Notícias.
A leveza da escrita e a realidade tão pura e crua que se sente nestas crónicas fazem-nos rir, pensar, refletir e, por vezes, limpar os olhos um bocadinho. Os grandes escritores têm este poder, independentemente do estilo em que escrevam.
Às tantas, a autora, que também editora, diz-nos que “hoje em dia, não é assim tão raro termos de soletrar o nome de um autor (mesmo conhecido) para o funcionário da livraria ou introduzir no computador e nos dizer se, afinal, tem ou não o livro que procuramos”.Naturalmente que esta citação me toca com especial ênfase, ou não trabalhasse eu numa livraria.
No entanto, os temas sucedem-se e eu gosto de ler livros de crónicas de uma só vez, pois, apesar de serem textos isolados, quando juntos parecem contar uma única história e isso é, para mim, algo impressionante.
Fui mãe apenas aos 31 anos e sinto o peso de assumir esta responsabilidade já numa outra idade, por isso, quando a autora nos diz que “há meio século, era-se pai de família com vinte e poucos anos” e, “hoje, com a mesma idade, é-se frequentemente um estudante a receber mesada”, paro e penso: qual é a melhor altura para crescermos e sermos independentes?
E depois há outras coisas com as quais me identifico muito com a escrita e a crónica da Maria do Rosário, ou mesmo com ela. Seja disso exemplo sermos como as sardinhas: pequeninas! “Os baixos – aprendi já adulta, porque a adolescência foi difícil – chegam aonde chegam os altos, desde que munidos de bancos e escadotes, que estão quase sempre ao alcance da mão.”
Quando o livro saiu, estava no auge a pandemia e tudo o que ela acarreta e, também neste momento caricato da História do Homem, a Maria do Rosário tinha uma opinião e muito, muito válida, pois, aquando das máscaras que vieram para ficar, diz-nos ela que “há sempre uns espertos que se chegam à frente em tempos de crise – e não, não falo de contrabando, mas de marcas de alta costura que vendiam online (e venderão ainda, suponho) máscaras em versão chique e de várias cores e padrões, a condizer com a toilette  de cada dia. Doente, sim, mas com estilo!”. Depois disso, é impossível não rir da própria realidade que o nosso mundo vive; isso para não chorar!
Maria do Rosário fala ainda dos difíceis tempos de isolamento, daqueles momentos que nos sentimos tão sós e tão rodeados – apenas – do nosso núcleo familiar; o que – nem sempre – é suficiente; e perdoem-me as famílias, mas, há tempos, disse-me uma cliente que as famílias não foram feitas para viverem 24 sobre 24 horas juntas. E não foram mesmo! Mas, a páginas tantas, diz-nos a autora que “(…) no cérebro dos ratinhos a overdose de isolamento que conduz ao aumento da agressividade é de… duas semanas. E todos estivemos fechados em casa muito mais do que isso”. Tiremos as nossas conclusões: óbvias!
Portanto, vejam só a quantidade e diversidade de temas que a Maria do Rosário nos traz neste livro.
São tantas as temáticas que saltei de umas para as outras, espero que bem, pois quero mesmo que percebem que este livro é uma pérola, um marco dos tempos que vivemos e que servirá, certamente, de base para estudos futuros; quando mais ninguém se lembrar como é viver neste momento. Mas o futuro é logo ali, nós é que pensamos que não!
E agora fica do vosso lado a derradeira pergunta desta crónica: faço eu crónicas ou spoilers?

*www.patriciacarreiro.blogspot.com

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