Repugnante hipocrisia
Mário Abrantes

Repugnante hipocrisia

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Em simultâneo com a dispersão mundial a partir da África do Sul da variante Ómicron do coronavirus, foi apresentada, na passada segunda-feira,por sindicatos de enfermeiros de 28 países,incluindo Portugal, uma queixa na ONU contra a União Europeia e Reino Unido por bloquearem olevantamento das patentes (propriedade intelectual) para a produção massiva de vacinas contra a Covid-19.
Já o ano passado, na Organização Mundial do Comércio (OMC), a África do Sul e a Índia tinham pedido a suspensão das patentes, mas sem qualquer êxito.
Os enfermeiros acusam os países ocidentais, em particular a União Europeia e o Reino Unido de, ao rejeitarem a liberalização da produção de vacinas, estarem a ameaçar o direito das pessoas à saúde, a pôr em risco continuado a vida de centenas de milhar de profissionais de saúde espalhados pelo planeta, a comprometerem o combate eficaz contra a pandemia e a promoverem o surgimento de novas variantes a partir dos países mais pobres e com menor número de vacinados.
Efetivamente, 45% da população mundial ainda não recebeu sequer uma dose da vacina anti-Covid-19, enquanto muitos países ricos têm mais de 70% das suas populações imunizadas e já estão aplicando terceiras doses de reforço.
O que se está a passar no respeitante a vacinas, que para além do restoforam descobertas e construídas com fundos públicos europeus, não é mais que uma cega e totalmente desumana comercialização do direito à saúde. É certo que as consequências desse comportamento desumano e criminoso atingem sobretudo a parte mais pobre da humanidade,mas, tal como o mar devolve o lixo à terra, vir-se-ão a repercutir por muito tempo na segurança das pessoas dos países mais ricos. Tanto mais quanto mais tempo estes últimos demorarem a libertar as patentes industriais e comerciais das vacinas.
Sob comando de um diretório (a Comissão) de linha vincadamente neoliberal, constituído por pessoas não eleitas e que se sobrepõe à vontade de povos, países e governos, esta União Europeia (assim como o Reino Unido) pela sua intromissão para-imperialista em países como a Líbia, o Iraque, a Síria, a Etiópia, o Sudão ou República Centro-Africana, foi e continua a ser, apesar do recém engendrado bode expiatório da Bielorrússia e sempre agitando a bandeira dos direitos humanos, o principal responsável pela gravíssima e mortal crise da migração que assola hoje as fronteiras do Continente Europeu e do Reino Unido. Uma crise cujo resultado prático se tem traduzido num monumental ataque precisamente aos direitos pelos quais tanto se empenha em agitar bandeiras.
Enquanto a pandemia se prolonga e os seus heróis em combate, em nome do direito universal à Saúde, se unem para apresentar queixa à ONU pelo facto das patentes das vacinas não serem libertadas, autoproclamados guardiões do templo dos direitos humanos, o diretório da UE e o Reino Unido, estão mais uma vez a manifestara sua verdadeira natureza ao bloquearem essa saída para a vacinação mundial massiva, em nome de tão sacrossantos quanto moralmente duvidosos direitos industriais e comerciais dos seus grandes laboratórios e farmacêuticas.
E os governos portugueses, seja por inação, por submissão ou por convicção, estiveram e continuam a estar indelevelmente comprometidos com esta repugnante hipocrisia…

 

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