As mijinhas do Menino
Alfredo da Ponte

As mijinhas do Menino

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   O presépio, como toda a gente sabe, é um quadro do nascimento de Cristo, que pode ser tão simples completo se nele estiver somente as figuras dos pais e do bebé.
Fica mais bonito se lhe adicionarmos, pelo menos, um animal de estábulo; e fica melhor se pusermos as personagens dentro de uma cabana, ou gruta, ou qualquer coisa do género de abrigo.
Dependendo de vários fatores o presépio pode crescer desde a manjedoura até outra dimensão.
Fica, então, lindíssimo, se lhe acrescentar-mos montes e vales, pastores e ovelhas, lagoas e ribeiras, e outros pequenos mundos circundantes, como: aldeias, vilas e cidades.
   Do mais simples ao mais sofisticado, com uma gota de arte e um pingo de magia, todos eles são pretexto para se visitar familiares e amigos.
As mijinhas do Menino Jesus sabem melhor quando os “calzins”, como se dizia na minha terra, estavam próximos do presépio. Mijinha fresca, ainda quentinha.
   Os portugueses trouxeram consigo para as Américas o costume de armar presépios.
Digamos, os seus. Porque alguns  americanos criam os “Christmas Villages”, em que na sua maioria nem se vê a cena da natividade.
No presépio português há vales, montes, ovelhas, pastores, mar, rios, ribeiras, casas, ruas, e uma mistura de cores que o torna único.
No “Christmas Village” só há algodão, ou outra fibra branca representando neve. Neve com fartura!
 E ficamos indignados por não encontrar nestes “Christmas Villages” o menino Jesus. É que, se não há Menino não há mija! Engano nosso. Eles arranjam sempre maneira de se encharcar.
   No momento em que estas linhas rabisco, abre-se-me a caixa da memória, e dela saem as mais lindas recordações da infância. Por acaso, a noite está propícia para soltar estas lembranças.
Estou virado para o quintal e, lá fóra vejo tudo branquinho.
De vez em quando passa uma massa em forma de fantasma.
 Efeitos do vento brando transportando alvas e leves partículas da neve. Na rádio só se ouve música de natal, e todos os espaços do lar apresentam um ar de festa.
A esposa, na cozinha, confeciona biscoitos e torrões de amendoim com açúcar. Existem todas as condições para sentir que, realmente, o natal está à porta, ou já chegou.
Diz o nosso povo que “o melhor das festas é esperar por elas”.
   Na ilha, pela segunda semana de Dezembro, a ervilhaca, o trigo e o milho, que se semeara num pratinho ou tigela, já davam sinais de vida.
A rapaziada ia ao mato, à procura dos musgos e verduras diversas para ornamentação dos presépios.
Também se trazia para casa pedregulhos diversos para ajudar na decoração. Alguns até tinham em si vida vegetal, graças à humidade da ilha.
   Recuo em pensamento aos tempos da catequese. O presépio do sr. Prior ainda funcionava no Passal. Era o tal que ocupava um mês de serões o sr. Luís Cabral e seus ajudantes, na sua montagem.
     No dia de natal a missa das nove e meia da manhã era dedicada aos rapazes e raparigas que frequentavam a catequese.
O presépio da igreja ocupava uma capela inteira.
O Menino Jesus tinha o tamanho real de um bebé recém nascido, mas não fazia chichi, e os pais quase tinham a estatura normal de humanos adultos. Até a vaquinha e a burrinha pareciam reais.
 Este cenário era apresentado ao público pela primeira vez na Missa do Galo, precisamente às zero horas do dia vinte e cinco, no momento do cântico da Glória.
Com o tilintar das campainhas e repique dos sinos, corria o reposteiro e aparecia a divinal obra de arte. Dizia-se que o sacristão Manuel da Costa tinha mãos de ouro por tudo o que fazia no enfeitamento da igreja.
A rapaziada contemplava a árvore de Natal, quase sempre colocada no lado direito da capela de Nossa Senhora da Estrela.
Era diferente daquelas das nossas casas.
Não tinha balões (bexigas, como se dizia), nem laranjas, nem tangerinas. Tinha saquinhos de papel fino encarnado.
Era linda. Simples mas muito linda. À sua sombra estava quase uma centena dos mesmos saquinhos de papel encarnado. Eram as “malinhas”.
Umas bolsas recheadas de pedacinhos de biscoitos e carrilhos da Padaria Favinha, um ou dois rebuçados, um figo passado e mais um pedaço de alfarroba.
O embrulho era fechado com um cordel, cujo acabamento tinha forma de argola, de modo a servir num braço de criança.
Depois da missa, ao beijar o Menino, o sacristão entregava uma destas bolsas a cada aluno da catequese.
Assim, a rapaziada saía da igreja muito contente e, acompanhada pelas catequistas, tinha o privilégio de visitar, gratuitamente, o Presépio do Sr. Prior, que ainda nos anos sessenta funcionava através de uma manivela, que alguém por gosto fazia girar.
Voltando aos presépios dos nossos lares, lembramos que os bonecos ou figuras eram uns feitos em barro, outros em gesso e outros em cera (parafina).
As casinhas eram, na sua maioria, fabricadas em papel, cartão ou cartolina, e coloridas por aguarelas.
Algumas delas tinham formosas vidraças, que eram feitas com papel de rebuçado, não esquecendo os formosos telhados de papelão ondulado.
   Havia tempo para estas coisas. Não tínhamos o “stress” de que hoje tanto se fala.
O quotidiano da vida era mais lento e tudo era melhor apreciado.
A goma arábica era a cola que se usava nas casinhas de papel.
Na mercearia comprávamos os cristais da goma, e ao chegar a casa era só dissolvê-los em água.
 Era uma cola impecável, melhor do que claras de ovos, e só desapareceu do mercado com a chegada da “Peligon”.
Não havia pincéis para a pintura das casotas. Qual era o problema?
Era só cortar umas pontinhas de cabelo, amarrá-las a um pauzinho, e já estava o pincel feito.
Tudo tão simples. Mas temos a certeza que se fossemos a fazer isto nos nossos dias, para muitos seria um processo complicado demais.
   Na Ribeira Grande alguns presépios ficam armados até ao dia de Nossa Senhora da Estrela, mas de um modo geral, o Dia de Reis marca-lhes o fim.
   Por falar em Dia de Reis, na terra dos fuseiros e moleiros ainda se faz o famoso cortejo de Reis, onde desfilam várias figuras do Antigo e Novo Testamentos, sobressaindo, como não podia deixar de ser, os Magos do Oriente, que foram adorar Jesus, e lhe deram presentes.
   No quadro tradicional dos Magos do Oriente estamos acostumados a ver camelos, mas na Ribeira Grande eles foram trocados por cavalos.
   Sim, porque na Ribeira Grande não há camelos.
 Como os camelos aguentam-se muito tempo sem beber, ali não têm cabimento.
Além disso, atendendo à grande quantidade de mijadelas do Menino Jesus, a cidade, com três camelos, correria riscos de inundação.
   Por hoje, fico-me por aqui, desejando a todos umas santas e felizes festas.
Haja saúde!

Tantas flores em grinaldas,
Tantas luzes e bolinhas!
Tantos Meninos em fraldas
A fazer tantas mijinhas!…

O meu Menino já mija
Que me alegra o coração.
Se eu não fosse gente rija
Já estaria no chão!

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